O MUNDO NOS SEPARA 

Barbara Delinsky



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IQMAMCES |3n NOVA CULTURAL.



Nem sempre os sonhos se transformam em realidade...
Deirdre procurou a soiido de uma
ilha deserta para repensar sua vida, pr os
pensamentos em ordem. L encontre.1
Neil Hersey, que tambm buscava
paz e solido. De repente, foram
consumidor por um desejo to poderoso
que a idia de viver s outra vez
ficou inimaginvel. Ali, entre cu e mar,
decidiram se casar. Ele cuidaria dos negcios d famlia, ela continuar1?
com sua carreira. Ento, por a::
subitamente pareceu que a paixo dos
dois "iso poderia sobreviver
s foras do mundo exterior''
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ISNOraCULTUIViL

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9788535106152
Copyright (c) 1994 by Barbara Delinsky
Originalmente publicado em 1986 pela Silhouette Books,
diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofo so marcas
registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas
ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: The real thing
Traduo: Carmita Andrade
EDITORA NOVA CULTURAL
uma diviso do Crculo do Livro Ltda.
Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 2a andar
CEP: 01410-901 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 1996 CRCULO DO LIVRO LTDA.
Fotocomposio: Crculo do Livro Impresso e acabamento: Grfica Crculo
'                                CAPTULO I
No foi como um terremoto, considerando-se o andamento lento dos fatos. Tampouco foi inesperado. A coisa vinha vindo aos poucos; enfim, era a gota d'gua.
Neil Hersey olhava, sem ver, pela janela de seu escritrio. No enxergava a Constitution Plaza logo abaixo, no enxergava nada da cidade de Hartford. A ira turvava-lhe 
a vista.
-  OK, Robert - disse ele. - Somos amigos h muito tempo por isso no adianta tapar o sol com a peneira. No  apenas uma questo de competncia. Ambos sabemos que 
sou to qualificado para o cargo que ocupei como qualquer outra pessoa. E sabemos que Ryoden vinha apreciando minha atuao durante mais de um ano j. E agora, essa 
bomba. Tenho c minhas suspeitas.
Robert Balkan, vice-presidente executivo do conglomerado das Manufaturas Ryoden, olhava para o homem indignado ali  sua frente. Ele e Neil Hersey eram amigos h 
muitos anos, amizade essa baseada em mtua admirao. E Robert respeitava muito o amigo para mentir, para tapar o sol com a peneira, como Neil bem dissera.
-  A ordem veio diretamente da Wittnauer-Dou-
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glass - Robert apresentou como defesa. - Sua dispensa do cargo de conselheiro foi a melhor soluo encontrada. Isso ou um julgamento pelo tribunal.
-  Continue - Neil ordenou quando Robert fez uma pausa.
-  Eles alegam que voc era o responsvel pelas transaes ilegais executadas. Para sua proteo, os detalhes sero conservados em segredo e a corporao tomar 
medidas internas a fim de remediar o mal. Que mais posso lhe dizer, Neil? A perda foi mnima, mas a diretoria decidiu dispensar voc.
Neil deu alguns passos na sala.
-  Precisa de dinheiro? Posso lhe... - Robert ia dizendo.
-  No, no. Dinheiro no  problema. No por enquanto, ao menos. Porm meu futuro como advogado est comprometido. Isso foi exatamente o que a Wittnauer-Douglass 
pretendeu fazer.
-  Por que voc no processa a firma?
- Est brincando? - Neil sorriu. - Oua, aprecio seu voto de confiana, mas no conhece essa turma como eu conheo. So piranhas, Robert.
- Ento, por que os representava como advogado?
-  Porque no sabia o que eles eram. Simplesmente... no sabia.
- Gostaria de poder ajudar voc um pouco mais, Neil.
-  J fez o que devia fazer. Pode ir agora.
- Tenho um compromisso s trs horas - Robert declarou e saiu.
Momentos mais tarde, sozinho, Neil estava a ponto de explodir. Por onde andaria a justia? Por onde andaria a justia deste mundo?
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Sua vida de trabalho como advogado estava praticamente liquidada. Maldio! No, no era justo. OK, ele perdera a Manufaturas Ryoden. Poderia viver sem isso no 
fora pelo fato de ter tambm perdido trs de seus maiores clientes no mesmo espao de tempo. Estava sendo rejeitado em toda a comunidade corporativista. Como lutar 
contra, se o inimigo era to maior, to mais poderoso? ^ Neil Hersey nunca se sentira to furioso na vida, to amargo. No conseguia nem pensar claramente.' Resolveu 
sair.
Antes porm daria um telefonema. Apanhou o catlogo telefnico. Lesser. Sim, Vitria Lesser. Em segundos discou o nmero dela.
Algum atendeu:
-  Al.
-  Aqui fala Neil Hersey. A sra. Lesser est?
-  Um momento, por favor.
Neil fechou os olhos. Parecia estar vendo Vitria usando jeans e camisa exageradamente folgada. Ele sorriu.
Vitria Lesser, viva de cinqenta e dois anos de idade, era riqussima, graas  fortuna deixada pelo marido que ela amara muito e que morrera h seis anos. Vitria 
fazia tudo o que tinha vontade de fazer, sem dar importncia  opinio dos outros. Viajava, organizava festas e adorava pintar.
- Neil Hersey...? Como vai? - ela disse. - Sabe h quanto tempo no fala comigo? H meses. Meses!
-  Eu sei, Vitria. Desculpe. Como vai voc? Neil falava com certo receio. No sabia se Vitria
estava a par de seu fracasso. Afinal, o amigo mtuo que os apresentara era um executivo da Wittnauer-Douglass.
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-  S o fato de voc estar falando comigo j faz com que eu me sinta melhor - ele acrescentou.
-  E claro que falaria com voc. Sei o que aconteceu, Neil. Conheo bem aquela diretoria. Sei como distinguir serpentes, e sei tambm o tipo de advogado que voc 
. No esqueci o que fez por minha sobrinha e aposto que est com a razo no caso da Wittnauer-Douglass.
- Obrigado, Vitria. Mas preciso sair um pouco da cidade. No posso raciocinar direito aqui. Estou furioso. Tenho necessidade de paz e quietude. E de solido.
-  Algo como uma ilha desabitada, na costa do Maine? - Vitria sorriu.
Neil tambm sorriu e respondeu:
-  Sim, algo como isso.
-  A ilha  sua, Neil.
-  Ningum est l agora?
-  Em outubro? De forma alguma. A ilha  sua - Vitria repetiu. - E pelo tempo que desejar.
-  Duas semanas sero suficientes - declarou ele. - Se no puder encontrar uma soluo at l, ento...
- No me telefonou antes e, conhecendo-o como o conheo, acho que prefere encarar seu problema sozinho. Mas, se houver alguma coisa que eu possa fazer, pea-me, 
sim?
- O uso de sua ilha ser mais do que suficiente, minha amiga.
-  Quando pretende ir?
- O mais depressa possvel. Amanh, penso. Mas precisa me dizer como chegar at l.
Vitria ento explicou.
- Uma vez em Spruce Head procure por Thomas
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Nye.  um homem alto de barba avermelhada. Telefonarei antes a fim de preveni-lo. Ele o levar at a ilha.
Neil agradeceu efusivamente.
No dia seguinte partiu, deixando tudo atrs de si. Levou apenas alguma roupa essencial e uma caixa de charutos Havana.
Deirdre Joyce olhava para o gesso que envolvia sua perna esquerda, da coxa ao grande artelho. Mas, se continuasse olhando para a cara das pessoas que rodeavam seu 
leito de hospital, iria explodir.
- O que aconteceu foi uma mensagem dos cus, Deirdre - sua me ia dizendo. - Uma mensagem. Venho repetindo a mesma coisa h meses, mas voc recusa me ouvir. Ento 
algum l de cima falou mais alto. Seu lugar  nos negcios da famlia com sua irm, e no ensinando ginstica e sofrendo acidentes.
-  Minhas aulas no tiveram nada a ver com o que aconteceu, mame - Deirdre explicou. - Tropecei nas escadas em minha prpria casa. Ca e quebrei a perna. No vejo 
mensagem nenhuma nisso, exceto que fui descuidada. Deixei uma revista no cho e escorreguei.
-  A mensagem - Maria Joyce disse  filha -  que seu impedimento fsico se prolongar por muito tempo, Deirdre. E voc ficar fora do cenrio durante semanas. No 
poder ensinar sua preciosa dana, mesmo querendo. Poderia haver melhor ocasio para ajudar Sandra no trabalho?
Deirdre olhou para a irm e disse:
- Sinto muito, Sandra. Mas no posso ajudar voc.
-  Por que no, Dee? Voc estudou nas mesmas
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escolas em que eu estudei, recebeu a mesma educao. -- Sandra queria pression-la.
- No tenho seu temperamento, Sandra. Nunca tive.
- Temperamento no tem nada a ver com o caso - Maria protestou. - Voc escolheu o caminho mais fcil, Deirdre. E veja no que deu.
Deirdre fechou os olhos e afundou a cabea no travesseiro. Quatro dias de coninamento naquela cama deixaram-na fraca, e isso a perturbava. No      '; agentava 
mais de vontade de tomar um banho de      f chuveiro; mas isso estava fora de cogitao.                     !-,!
-  Me - ela disse -, j falamos sobre esse assunto centenas de vezes. Voc e papai podem ter sonhado com uma corporao familiar, mas no passou de um sonho de 
vocs dois, no meu. No fui feita para esse tipo de trabalho. E montono demais. Tentei uma vez e foi um desastre.
-  S durante oito meses - Maria comentou - e h muitos anos.
-  Sua me tem razo, Deirdre. - Agora falava o tio que estivera silencioso o tempo todo, em p ao lado da cama. - Voc havia se formado na universidade e tinha 
grande potencial. E muito dedicada, como seu pai. Apenas no permaneceu na firma o tempo suficiente.
-  Eu me conhecia, tio, e me conheo agora. No fui moldada para o mundo dos negcios. Emocional-mente no d. Reunies de diretoria, conferncias, almoos acompanhados 
de drinques, jantares com clientes, no combinam comigo! Detesto tudo isso.
-  Agora est sendo melodramtica - a me censurou-a.
-  Talvez. Mas  como sou, e no h lugar para
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melodramas na Joyce Empreendimentos. Por favor ento, deixem-me fora disso.
- Queremos voc, Dee - Sandra insistia. - Preciso de voc. Acha que tenho mais capacidade do que voc para dirigir uma corporao?
-  Ao menos gosta do trabalho.
-  Se gosto ou no gosto, no importa. As coisas vo mal desde que papai morreu.
Desde que papai morreu. A residia todo o problema. H seis meses Allan Joyce morrera enquanto dormia, ignorando que aquilo que criara com amor provocaria tanta 
agitao.
Deirdre sussurrou, antes de fechar os olhos:
- Acho que essa conversa no leva a nada. Penso que o motivo pelo qual os negcios se transformaram aps a morte de papai  que nenhum de ns tem a viso necessria 
para um empreendimento desse porte. Joyce Empreendimentos necessita de um auxlio de fora. E simples.
- Nosso negcio  de famlia - a me protestou.
- Mas o caso  que a famlia no est conseguindo levar avante o negcio, me. Tampouco Sandra. Tio Peter  to incompetente como tio Max. E eu sou a nica a perceber 
que chegou o tempo de mudar. Admira-me ver que a Joyce Empreendimentos ainda continua funcionando. Mas parar de funcionar mais dia menos dia. Venda-a me. Porm, 
se no quiser fazer isso, contrate um presidente, vrios vice-presidentes, e...
- Temos um presidente e vrios vice-presidentes - Maria informou-a. - Precisamos de um coordenador. Voc  a pessoa de que necessitamos, a pessoa indicada.
- No sou boa para isso, me - Deirdre insistiu.
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-  Mas  filha de seu pai.
-  Contudo, no sou meu pai.
-  Mas ainda...
-  Me, estou morrendo de dor de cabea. Tio Peter, quer por favor levar mame para casa?
- Um minuto, Deirdre - Maria resistia. - Voc est sendo egosta, sempre pe suas necessidades acima de tudo. No tem um mnimo de senso de responsabilidade para 
com sua famlia?
- No estou em condies de pensar nisso agora, mame.
-  Bem, ento discutiremos amanh. Voc receber alta e viremos busc-la para lev-la  nossa casa. A...
-  No vou  nossa casa, mas  minha casa.
-  Com uma perna quebrada? No seja ridcula, Deirdre. No pode subir aquelas escadas.
- Se no posso galgar um lance de escadas, como posso dirigir uma corporao de milhares de dlares, localizada no dcimo stimo andar de um edifcio?
-  H elevadores, Deirdre.
-  Essa no  a questo, me. Amanh, ao sair daqui, irei  minha casa.
-  Continuaremos nossa discusso amanh.
-  No temos nada mais a discutir.
- Voc est nervosa, minha filha, e  compreensvel. - Maria fez um gesto de impacincia. - Amanh. Falaremos amanh.
Deirdre no deu uma palavra. Apenas observou as visitas saindo do quarto, uma a uma. Sozinha enfim, tocou a campainha para chamar a enfermeira. Sua cabea latejava. 
Tinha necessidade de uma aspirina. Precisava tambm de um tapete mgico que a levasse para bem longe daquele lugar.
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Como pudera ser to descuidada escorregando numa revista? Por que no segurara no corrimo? Como conseqncia de seu descuido, quebrara a perna em trs lugares.
E agora, por no ter exercitado o corpo durante vrios dias, sentia-se enferrujada.
Estava deprimida. Permanecera no hospital j por quatro dias e ainda precisava ficar com a perna engessada pelo espao de tempo de mais seis semanas. E a posterior 
terapia seria longa. S aps isso saberia se era possvel continuar dando aulas de educao fsica.
Como se os prprios problemas no fossem suficientes, ainda tinha de pensar na famlia e na... Joyce Empreendimentos. Isso lhe provocava enorme ira.
Seu pai a incentivara muito para que trabalhasse na firma. Tente mais uma vez, Deirdre. Voc vai acabar gostando. Se este negcio no foi criado para meus filhos, 
para quem foi ento?
Depois de sua morte, a me continuara com a lengalenga. E,  medida que a firma despencava, a presso aumentava.
Deirdre adorava sua carreira. Era absorvente, criativa e compensadora. Tinha orgulho de ser uma boa professora, das classes superlotadas, e de ser conhecida como 
a rainha da aerbica nos clubes de ginstica.
Sua carreira fora boa desculpa para no trabalhar na firma. E agora?
A perspectiva de ir para casa na manh seguinte e ficar  merc de sua famlia a preocupava. Podia enxergar tudo desde j, os telefonemas, as visitas. Insuportvel! 
Se ao menos tivesse um lugar para onde ir... Um lugar quieto, distante, escondido...
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Tomada de sbita determinao, pegou o telefone. Enfim, conseguiu a ligao.
- Aqui  Deirdre Joyce. A sra. Lesser est?
-  Um momento.
Deirdre esperou, tamborilando o fone com dedos impacientes. Visualizava Vitria, de jeans e camisa folgada, caminhando elegantemente para perto do telefone. Estaria 
ela vindo da sala de msica, onde executava o violoncelo? Ou da estufa, onde cuidava das violetas africanas?
Sem ser violoncelista ou perita em jardinagem, tudo o que fazia era com amor. Entre todas as amigas de sua me Vitria Lesser era de quem Deirdre mais gostava. Em 
vez de fenecer aps a morte do marido que ela adorara, desabrochara e crescera. Fazia tudo o que desejava, sem nunca ultrapassar as fronteiras do bom gosto.
Deirdre a respeitava. Mas no a via h meses.
- Al, fujona. - Era a voz cheia de vida de Vitria. - Por onde tem andado?
- Em Providence, como sempre. Como vai voc?
-  No mal.
-  O que fazia neste momento, Vitria? Msica, jardinagem? Conte-me. Faa-me sorrir.
- Algo errado, Deirdre?
Por segundos Deirdre sentiu a garganta seca; no conseguia falar. Ela no tivera contato com Vitria h meses, contudo puderam logo iniciar uma conversa como se 
a tivessem interrompido na vspera. Apesar de uma diferena de idade de mais de vinte anos, o relacionamento delas era bastante bom e honesto.
- O que voc estava fazendo, Vitria? - perguntou Deirdre.
-  Pintando o teto do banheiro... Est rindo?
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-  Um pouco.
-  O que h de errado nisso, Dee?
- Sempre detestei essa apelido, Vitria. Voc sabia? As nicas pessoas que o usam so os membros de minha famlia e... voc. Quando vem de minha famlia, sinto-me 
como uma criana. Vindo de voc, sinto-me uma... amiga.
- E o que  para mim, Dee. Por isso quero que me conte o que h de errado.  com sua famlia de novo?
- E. E de maneira cruel agora. Estou em posio de desvantagem, quebrei a perna. Pode acreditar? Uma super atleta jogada indefesa no cho?
Silncio.
-  Mesmo que esteja rindo de mim, Vitria, ajude-me...
-  No estou rindo, querida. No estou rindo.
-  Est sorrindo. Posso perceber.
- E sorrir ou chorar, Dee. Veja a ironia do destino. Entre todas as pessoas do mundo que poderiam quebrar uma perna voc estaria em ltimo lugar. E de enlouquecer, 
na sua situao.
-  Sinto que posso mesmo enlouquecer. J  suficientemente doloroso o estado em que me encontro, sem saber se algum dia voltarei a trabalhar na minha profisso. 
E agora, acima de tudo, minha famlia insiste que eu v trabalhar na Joyce Empreendimentos. Preciso fugir, Vitria. No encontrarei paz aqui, tenho de refletir sobre 
meu futuro e...
- Est pensando no Maine? - Vitria perguntou aps uma pausa.
-  Se voc achar que eu posso ir para l...  do que preciso agora, de um lugar distante, quieto, informal.
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- E sem telefone.
- Voc entende, no, Vitria?
- Claro. - Outra pausa. - Hum... Maine talvez seja o lugar perfeito para voc. Quando pensa ir?
- O mais depressa possvel. - Pela primeira vez, depois do acidente, Deirdre teve um vislumbre de esperana. - Amanh, acho. Por que no? Mas tem de me dizer como 
chegar l.
Vitria ento explicou.
- Voc tem alguma pessoa que possa lev-la at o Maine de carro?
- Eu mesma dirigirei.
- E a perna quebrada?
-  a perna esquerda, e meu carro tem cmbio automtico.
- Ah. Devemos sempre agradecer a Deus pelos pequenos favores.
- Acredite-me, Vitria, eu agradeo. Bem, quando chegar a Spruce Head, o que deverei fazer?
- Procure por Thomas Nye.  um homem alto, de barba ruiva.  um pescador de lagosta na rea. Telefonarei avisando-o de sua ida e ele a conduzir  ilha.
-  Voc  uma verdadeira amiga, Vitria. Meu salva-vidas.
-  Espero que sim - Vitria disse. - Telefone-me quando voltar a fim de me contar como foi sua temporada.
Deirdre concordou, agradecendo muito. Vitria ligou em seguida para Thomas Nye e comunicou-lhe as novidades.
Chovia a cntaros. Neil estava irritado. A tempestade o acompanhara desde Connecticut, atra-
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vs Massachusetts at New Hampshire e depois ate o Maine.
O limpador de pra-brisas no parava de funcionar. Neil no se importaria pela falta de visibilidade numa via principal. Mas nas estradas secundrias que passavam 
por cidades pequenas como Bath Wiscasset e Damariscotta, a coisa era diferente, sendo o nico som o das gotas da chuva na capota do carro e o barulho montono do 
limpador.
Um pouco antes das trs horas da tarde, com humor sombrio como as nuvens do cu, Neil parou o carro num bar em Spruce Head.
Ainda irritado, foi examinar os enormes tanques cheios de lagostas. Mas nem sinal dos pescadores, linha de encontrar Thomas Nye. Apanhou a capa de chuva, vestiu-a 
e entrou no bar, a casa mais prxima. Trs homens sentavam-se a volta de uma mesa conversando e bebendo cerveja Os trs fitaram Neil que estava em completo desalinho.
- Procuro por Thomas Nye - ele disse. -  um homem alto de barba avermelhada.
Um dos homens levantou-se e disse, de maneira bem lacnica:
-  Uma quadra abaixo vire  esquerda, segunda casa  direita.
Agradecendo com um gesto de cabea, Neil saiu. Entrou no carro. S pensava no prazer de chegar  casa de Vitria e l ficar sossegado no confortvel dormitrio de 
paredes de vidro, enorme lareira e cama convidativa.
Deu partida no carro e seguiu.  esquerda, segunda casa  direita. Havia vrias casinhas, todas
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iguais, que talvez Neil achasse interessantes, tpicas do local, se no estivesse com tamanho mau humor.
Nas no quis perder tempo. Saiu do carro e bateu na porta de uma das casas. Bem depressa a porta se abriu e um enorme homem de barba ruiva apareceu.
Neil suspirou.
-  Thomas Nye?
-  Sim. Entre.
Neil aceitou o convite imediatamente.
Menos de uma hora mais tarde Deirdre chegava na mesma casa. Olhou ao redor e logo notou o carro preto estacionado em frente. Mesmo que no tivesse visto a placa 
de Connecticut saberia que no se tratava de carro de pescador de lagosta.
Thomas Nye devia ter visitas, e isso a aborreceu. No se achava em condies de falar com estranhos.
Ela no tivera dificuldade em encontrar a casa. Um transeunte lhe dera as informaes necessrias. Mas sua sorte parecia ter acabado, Thomas Nye no estava s. Isso 
sem falar na dificuldade que iria ter para sair da proteo do carro e manquejar at a casa. E chegando l encharcada.
Bem, e da? Seu dia fora um pesadelo desde o incio. Um pouco mais de desgraas no faria nenhuma diferena.
Vestiu a capa e saiu do carro com dificuldade. Levara mais de um minuto para ajeitar a perna engessada, pegar as muletas e abrir a porta do carro.
Com duas pernas fortes teria feito tudo num segundo. Seus cabelos ficaram logo molhados e grudados na testa. Os braos doam por causa das muletas.
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Bateu na porta e esperou encostada no muro da casa, embaixo de um pequeno toldo, para ter alguma proteo contra a chuva que caa.
Estava gelada e impaciente. Bateu de novo.
Em segundos a porta foi aberta por um homem grande, de barba ruiva.
Ela suspirou.
-  Thomas Nye? - disse.
-  Sim. Entre.
Deirdre entrou ento no vestbulo e dali dirigiu-se a uma pequena sala.
A primeira coisa que viu foi uma mesa baixa coberta de papis, mapas e contas. A segunda coisa foi um aparelho de televiso a cores. A terceira, um homem esparramado 
numa poltrona, num canto da sala.
A quarta foi Thomas Nye agora sentado calmamente  mesa, voltando com certeza ao trabalho interrompido por sua chegada.
-  O senhor me esperava? - ela perguntou.
-  Sim - Thomas respondeu. - No quer se sentar?
-  Bem... no vamos para a ilha?
-  No agora.
-  Por causa do tempo? - Essa possibilidade a preocupara durante a viagem toda.
O homem sentado no canto da sala resmungou qualquer coisa.
Thomas Nye fez um gesto afirmativo com a cabea.
-  Tem alguma idia de quando iremos? Deirdre convencia-se enfim de que sair do hospital
e ir diretamente  ilha fora exigir demais de sua energia. Mas o mal j estava feito. No adiantava
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chorar sobre o leite derramado. O melhor que poderia esperar agora era que a demora fosse mnima. Como resposta  sua pergunta, o homem barbudo sacudiu o ombro e 
disse:
-  Uma hora, talvez duas, talvez doze. Deirdre apoiou-se pesadamente nas muletas. Uma
hora, duas, tudo bem. Mas doze? Duvidava que pudesse esperar doze horas por uma cama quente e seca e um pesado edredom. E onde ficaria enquanto esperava?
Olhou mais uma vez para o homem no canto da sala. Ele continuava esparramado na poltrona, com as pernas cruzadas. Apoiava os cotovelos nos braos da poltrona, tinha 
os lbios comprimidos. Suas sobrancelhas eram escuras, os olhos mais escuros ainda, e tambm parecia esperar. Deirdre percebia haver frustrao no rosto do desconhecido.
- Bem, sr. Nye - ela comeou -, eu preciso chegar na ilha logo. Do contrrio, estarei em dificuldade.
Nye ergueu a cabea do trabalho que fazia e fez um gesto com o lpis na mo, apontando para o sof.
-  Por favor, sente-se, senhorita - disse.
Deirdre constatou que ele no se perturbara. Continuava examinando os papis sobre a mesa. Calmo, satisfeito.
Com uma careta ela sentou-se no sof, pondo antes as muletas ao lado.
Ao erguer o olhar viu que o homem no canto da sala a fitava. Irritada, perguntou:
-  Algo errado?
-  No, nada, mas gostei de seus trajes.
-  Obrigada. Gosto tambm.
-  Sinceramente, repito, gostei de seus trajes.
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A cala folgada e vermelha de Deirdre era confortvel. E a camisa, to larga quanto a cala, era enorme. Claro, a perna engessada tinha de entrar na cala com folga. 
O p esquerdo, bem protegido, estava seco; mas o direito totalmente molhado.
Porm ela no se importava. Em pouco tempo ficaria sozinha na ilha. Ningum a veria. Ningum se importaria com o que usava. O homem de sobrancelhas e olhos escuros 
poderia dar graas a Deus por no precisar v-la nunca mais.
Houve um pandemnio na televiso quando um espectador ganhou um Mercedes vermelho. Thomas sorria de prazer mas Deirdre esfregou os dedos gelados na testa. Ela detestava 
esse tipo de programa como tambm detestava novelas.
Automaticamente afastou dos olhos os cabelos molhados e fitou Thomas Nye.
Com a cabea abaixada de novo, ele examinava os papis.
Sem dvida no gostava de conversar. E, quando falava, tinha um sotaque tpico nova-iorquino. Seria ele anti-social? Ou simplesmente tmido? Parecia no ter capacidade 
de encarar uma pessoa por mais de um minuto. E, embora fosse corts, no a apresentara ao homem sentado no canto da sala.
Este tambm no parecia interessado em conhec-la. Olhava na direo da janela agora e tinha uma ruga profunda entre os olhos. Como se isso no bastasse, a barba 
crescida lhe dava uma aparncia pouco convidativa.
A um dado momento o olhar de ambos se cruzou at que, finalmente, ela virou o rosto. No, Deirdre concluiu que no se interessava por aquele tipo de homem, e no 
queria ser apresentada a um indiv-
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duo de aspecto to perturbado quanto o dela. E, naquele momento, havia pouco lugar em sua vida para compaixo.
Naquele exato momento, Neil Hersey tinha pensamentos similares. Fazia muito tempo que no vira ningum com olhar to pattico como o da mulher ali na sala. Oh, sim, 
o mau tempo concorria para isso, as roupas molhadas, os cabelos despenteados e midos. Mas havia mais do que isso. O tempo no tinha nada a ver com o fato de ela 
ter uma perna volumosa e um corpo sem forma. Neil achou que Nye a levaria para uma das muitas ilhas do golfo do Maine. Mas ele tinha problemas suficientes para manter 
sua mente ocupada com outros assuntos. No podia se preocupar com ningum mais.
O tempo passava e ele queria se pr a caminho. Mas Thomas Nye no se movia. Examinava os papis sobre a mesa.
Neil ia olhar para o relgio quando viu a mulher fazer o mesmo.
-  Sr. Nye? - ela disse.
-  Thomas, por favor - Nye respondeu, sem levantar a cabea.
-  Thomas, quando vamos partir?
-  Daqui a duas horas mais ou menos.
Ela olhou para o relgio mais uma vez, fazendo o mesmo clculo que Neil fazia.
- Mas, se esperarmos muito mais que isso, ficar noite. - Deirdre achava que j era bastante rduo fazer a travessia durante o dia, por causa de suas muletas; imagine-se 
 noite? - E... pode ser difcil.
-   melhor ser difcil do que fatal. - Thomas contestou com amabilidade. - Assim que o vento
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amainar, partiremos. Talvez tenhamos de esperar at o amanhecer.
- Amanhecer?! Mas no tenho onde passar a noite - ela protestou.
-  H quartos de hspedes aqui - Thomas respondeu, sacudindo os ombros.
Era, sem a menor dvida, o que ela no queria, Deirdre pensava, com um meneio de cabea. Queria, sim, estar na ilha de Vitria, confortavelmente instalada no espetacular 
quarto do qual ouvira tanto falar. Enxergava-o naquele momento, com as janelas enormes, a elegante cama de lato, cortinas cheias de babados, colcha e travesseiros 
com motivos cam-pestres. Silncio. Privacidade. Retiro. Oh, como precisava de tudo aquilo.
Desejava dar um fim  sua fadiga. A perna engessada doa e no havia posio que aliviasse sua dor. Incomodava-a o fato de estar numa sala com dois estranhos, onde 
no podia chorar, gritar...
Neil voltou a olhar para a janela. O que via l fora no era nada agradvel. E pensar em passar a noite na minscula casa de um pescador...!
H quartos de hspedes aqui, Thomas dissera com generosidade. Mas, com os diabos, ele no queria ficar ali! Queria ir para a ilha, estava exausto. Desejava terrivelmente 
ficar sozinho. Desejava privacidade. Queria esticar as pernas no enorme leito de Vitria. S Deus sabia que tudo sara errado em sua vida nos ltimos tempos.
- O barco tem radar? - ele de repente perguntou a Thomas.
-  Tem.
-  Em tal caso, no precisamos da luz do dia.
-  No.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Portanto, ainda temos uma chance de partir hoje? r
- E claro que temos - Deirdre respondeu antes de Thomas se manifestar. - Sempre h uma chance.
Neil lanou-lhe um olhar autoritrio e dirigiu-se ao pescador:
- Vamos falar sobre probabilidades. Numa escala de um a dez, onde voc colocaria as chances de viajarmos hoje?
-  Como poder ele responder? - Deirdre censurou-o, intrometendo-se de novo.
- Thomas  um pescador - Neil revidou, tenso.
- Estou recorrendo a uma estimativa profissional, baseada em anos de trabalho no mar. Quantos?
-  Trs - Thomas enfim disse.
-  Numa escala de um a dez, temos apenas trs chances"? -- Deirdre gemeu.
-  Ele respondeu que trabalhava como pescador no Maine h apenas trs anos - Neil disse.
- Oh! - ela exclamou e fitou Thomas. - Quais so as chances, ento?
O pescador arrumou as pilhas de papis e levantou-se da mesa.
-  Neste momento, apenas duas.
-  Duas? - Deirdre repetiu. - Pior ainda do que pensei!
Neil voltou a olhar para a janela e Thomas continuou de p. A roda da sorte girava, diminuindo de velocidade gradualmente. E parou no zero. O ronco do vento ecoava 
na alma de Deirdre.
Porm ela no desistia."
-  O que o far decidir se iremos ou no hoje?
-  ela perguntou a Thomas.
- O relatrio da Marinha - Thomas respondeu.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Com que freqncia ele muda?
-  Cada vez que o tempo muda.
O homem sentado no canto da sala sorriu, irnico. Deirdre ignorou-o e explicou-se melhor:
-  O que quis dizer foi se havia relatrios freqentes no rdio ou na televiso. Do contrrio, como voc pode saber, sentado aqui nesta sala, se o tempo vai melhorar?
Thomas levantou-se e disse:
- Voltarei logo.
Deirdre encarou seu companheiro de infortnio e perguntou:
- Aonde ele vai? Voc quer tambm sair daqui, no quer? No est curioso em saber para onde o sr. Nye est indo?
-  Eu sei. - Neil suspirou, impaciente. - Foi obter o ltimo relatrio da Marinha.
-  Como adivinhou?
-  No ouve o rudo do rdio?
-  No posso ouvir nada com essa maldita televiso aos berros - Deirdre declarou, irritada.
Ela levantou-se e, pulando com uma perna s, diminuiu o som. Em seguida voltou para o seu lugar, tambm pulando. Estava to cansada que pouco se importava de parecer 
um coelho encharcado. Afundando-se num canto do sof ergueu a perna engessada e a ps sobre uma almofada. Depois fechou os olhos.
Momentos mais tarde Thomas voltou, informando:
- Aumentem nossas chances para sete. O tempo est melhorando.
Neil e Deirdre ficaram alertas. Mas foi Neil quem perguntou:
-  Ento, vamos j?
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O MUNDO NOS SEPARA
- Verificarei o relatrio de novo daqui a meia hora - o pescador de lagosta disse, e imergiu mais uma vez em seu trabalho.
A meia hora seguinte pareceu interminvel a Deirdre. Ela rememorou os eventos do dia, desde a sada do hospital ao trajeto at sua casa. Depois reviveu a cena desagradvel 
que tivera com a me que no concordava que ela sasse de Providence. Deirdre fazia esforo para acreditar que se tratava de preocupao materna por sua sade, mas 
sabia muito bem que no era. No quis contar onde pretendia se alojar, receando conseqncias desagradveis. No queria nem pensar na possibilidade de Maria aparecer 
na ilha para v-la ou, pior ainda, para ir busc-la.
Precisava fugir. Precisava muito fugir.
Considerando-se como se sentia no momento, duvidava que pudesse sair da cama durante dias... quando finalmente chegasse ao seu destino.
Neil no se sentia melhor que ela. Acostumado como estava a uma vida ativa, sofria por estar confinado e mentalmente constrangido. Por vezes teve a impresso de 
que iria gritar se nada mudasse. Tudo o irritava: a indiferena do pescador de lagosta, a luz da televiso, a presena da mulher na sala, o rudo da chuva. Grande 
parte de sua vida parecia depender de foras externas; no conseguia mais control-la. Mas, crente de que a infelicidade era algo privado, queria estar s.
Thomas deixou a sala mais uma vez. Deirdre levantou a cabea e segurou a respirao. Neil aguardava, tenso.
Pela expresso do rosto de Thomas ao voltar nada parecia ter mudado.
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O MUNDO NOS SEPARA
Contudo, a primeira coisa que ele fez foi desligar a televiso e arrumar seus papis.
Percebendo que o homem sentado no canto da sala se levantava, Deirdre fez o mesmo.
- Thomas? - ela disse.
O pescador no se deu ao trabalho de responder; simplesmente estendeu um brao apontando para a porta. Deirdre e Neil no precisaram de outro convite. Ambos se ergueram 
e apanharam seus agasalhos.
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CAPTULO II
A tempestade talvez tivesse abrandado sobre as guas do mar, mas Deirdre no viu abrandamento algum em terra firme. Ficou encharcada s de caminhar da casa ao carro, 
apoiada nas muletas.
Transferir sua enorme mochila  caminhonete de Thomas no foi grande trabalho porque Thomas ajudou-a. Depois ele voltou  casa a fim de apanhar as caixas com mantimentos 
que tambm foram colocadas na caminhonete. Neil cuidou de sua prpria bagagem.
Rangendo os dentes por causa da dor, ela entrou no carro. Quando os homens se acomodaram, ambos grandes, apertaram-na entre os dois. A viagem at o porto foi um 
suplcio.
Uma vez a bordo no barco de Thomas, Deirdre tinha o corpo todo dolorido. Com os tnis encharcados, a jaqueta e a cala bem molhadas, tremia de frio.
O pesadelo continuava, ela refletia, mas o fim estava prximo. Chegaria na ilha de Vitria ao cair da tarde, e l ficaria sozinha e em paz. S a idia do sossego 
a mantinha viva.
Com alguma dificuldade o motor do barco comeou a funcionar. Deirdre permaneceu olhando para trs,
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O MUNDO NOS SEPARA
vendo Spruce Head desaparecer aos poucos, at sumir sob o nevoeiro.
Ela sonhava com a ilha coberta de pinheirais, acarpetada de musgo, com o aroma de terra mida, c beijada pelo sol. Enxergava-se ganhando foras nesse paraso, se 
recuperando, sentindo seu esprito renascer. Encontraria enfim a serenidade to procurada?
Neil tambm pensava o mesmo. Serenidade... I'az... Solido voluntria. Logo, dizia a si mesmo, logo. Ele se encolhera num canto do barco para evitar qualquer contato 
com a passageira. Tivera um longo dia e uma longa noite antes. Afinal, muitas vezes sofrer de insnias na vida, mas nunca os efeitos haviam sido to devastadores.
Embora sua fadiga fosse mais fsica, havia um elemento emocional tambm. Estava longe do escritrio, sem obrigaes a cumprir, distante de sua profisso. Mas no 
eram frias, apenas uma suspenso forada das atividades. Suspenso breve, talvez, mas no deixava de ser uma decepo. E super deprimente.
A voz da conscincia o acusava de estar fugindo. Sua partida sbita de Hartford seria vista por todos como desero, como derrota. Mas talvez... talvez...
Ele tinha o pulso acelerado como sempre acontecia quando tinha um problema. Estaria com a presso arterial alta? No se surpreenderia, dada  tenso nervosa, sua 
companheira inseparvel nos ltimos dias. Precisava de uma vlvula de escape.
Fitou a mulher ao seu lado.
- No acha uma loucura viajar desse jeito? - disse ele, olhando para a perna engessada que Deir-dre colocara em cima do banco duro.
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O MUNDO NOS SEPARA
Ela estava apreensiva com o sacolejar do barco, pior agora aps terem sado do porto.
-  Perdo? - Deirdre fitou-o, atnita.
-  Perguntei se no achava loucura viajar nesse estado - Neil repetiu.
-  Foi o que entendi, mas no podia imaginar que voc fosse to rude. Sua me no lhe ensinou boas maneiras?
- Oh, sim. Mas ela no est aqui agora, por isso posso dizer o que me vier na cabea. - De certo modo, Neil sentiu que podia falar o que quisesse, no tinha mais 
compromissos e nem emprego. - Mas voc no respondeu  minha pergunta.
- Sua pergunta no merece resposta. - Deirdre virou o rosto e ficou olhando para Thomas que controlava o leme, atento.
Ele balanava o corpo com naturalidade, acompanhando o balano do barco. Deirdre gostaria de poder fazer o mesmo, mas no conseguia. Ficou contente por no ter comido 
recentemente.
Numa tentativa de desviar os pensamentos de coisas desagradveis, ficou olhando para o bon de beisebol que Thomas usava desde que sara da casa. Protegia-o muito 
bem contra a chuva.
-  Voc torce para os ianques, Thomas? - ela perguntou, elevando a voz para se fazer ouvir.
-  Sim, quando eles esto ganhando - Thomas respondeu sem virar o rosto.
- Isso  que  ser honesto - Deirdre sussurrou. E depois, mais alto: - Voc  de Nova York?
-  Sou.
-  De que parte?
-  Do Queens.
-  Ainda tem famlia l, Thomas?
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Alguns parentes.
-  O que voc fazia antes de ser pescador de
lagosta?
- Deixe o homem em paz - Neil resmungou. - No percebeu ainda que ele no gosta de falar?
-  Thomas  um pescador do Maine e todos eles so muito calados - Deirdre argumentou. - Mas isso no quer dizer que no gostam de conversar de vez em quando.
- Acontece que ele no  originrio do Maine, o que quer dizer que prefere mesmo no falar.
-  Eu gostaria que voc preferisse no falar - ela contestou. - Nunca encontrei ningum to desagradvel na vida.
Thomas, por seu lado, continuava olhando para os vagalhes que se erguiam mais adiante.
Neil inclinou a cabea para trs e fechou os olhos.
Deirdre rezava para que seu estmago acalmasse.
O tempo passava lentamente. O barco tinha o mar todo  sua disposio, e prosseguia firme.
Deirdre tentou respirar como mandava a ioga, concentrando-se no relaxamento. Mas, apesar de seu esforo, no conseguiu bom resultado.
Resolveu ento falar de novo, mas dessa vez dirigindo-se a Thomas:
-  Duas horas mais ou menos, voc disse? No ;er mais, num tempo como este?
A chuva continuava forte e revolto continuava o mar. Porm, apesar de seus olhos pouco treinados a esportes aquticos, ela achou que faziam progresso.
- Estamos tendo sorte - Thomas respondeu. - O vento vem de trs; a nosso favor, portanto.
Deirdre sacudiu a cabea, grata pelas poucas pa-
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O MUNDO NOS SEPARA
lavras de encorajamento. Depois mudou de posio, abraando o joelho da perna boa.
-  Voc est verde - uma voz se fez ouvir do outro canto do barco. Neil parecia adorar provoc-la.
-  Obrigada pela informao. - Ela suspirou, irritada.
- Est com nuseas?
- No, sinto-me muito bem.
- Acho que no - Neil insistia.
-  Gostaria que eu estivesse me sentindo mal, no gostaria? O que h? E por acaso voc quem est enjoado?
- No, estou acostumado a navegar.
- Eu tambm - Deirdre mentiu.
Com certa dificuldade por causa das muletas e do balano do barco, ela foi para mais perto de Tho-mas e perguntou, quase num sussurro:
- Quanto tempo mais?
Infelizmente o pescador no a ouviu e ela teve de repetir a pergunta.
- J fizemos metade do caminho - Thomas enfim disse.
Metade do caminho j era alguma coisa, Deirdre pensou; de qualquer maneira melhor que nada. Porm achou igualmente que no deixava de ser cansativo ter de agentar 
outro tanto.
- A ilha dele fica perto de Martinicus tambm? - A nfase que Deirdre ps na palavra dele indicou claramente a quem se referia.
-  H vrias pequenas ilhas nesta rea. - Foi a resposta sucinta de Thomas.
Deirdre aproximou-se mais dele e disse, cuidando para que o outro passageiro no a ouvisse:
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-  Pode me deixar antes? No sei se agentarei muito mais tempo a companhia desse homem.
- Estou indo diretamente para a ilha de Vitria. Ela sorriu e agradeceu antes de voltar ao prprio
lugar, evitando assim olhar para o homem sentado do outro lado do barco.
Neil meditava, pensando na ltima vez que velejara. Estou acostumado a navegar..., ele dissera. Sim, Nancy tinha um iate, Nancy adorava barcos. E ele acreditara 
que a namorada o adorava tambm. Mas, ao surgir a primeira dificuldade que culminou com sua demisso, ela o desertara, sara de sua vida.
Enfim... amor era assim. Ou no seria?
Na verdade, nunca amara Nancy. J havia percebido isso meses antes do rompimento e sentira-se culpado cada vez que ela pronunciava palavras de amor. E agora se dava 
conta de que Nancy tambm no o amara. Amara a imagem dele, sua posio de advogado brilhante, seu prestgio.
O rompimento viera a calhar. H males que vm para o bem, dizia o velho ditado. Uma amante s nas horas boas era a ltima coisa que ele precisava naquele momento.
Neil olhou para a mulher ali ao lado. Pequena e disforme, pouco feminina, insocivel, rude, completamente diversa de Nancy.
-  O que fez com a sua perna? - ele perguntou abruptamente, sem prembulos.
Deirdre levantou a cabea e perguntou:
-  Est falando comigo?
- H mais algum de muletas neste barco? Quebrou a perna?
-  Claro, no?
-  No  nada claro. Voc poderia ter sido sub-
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metida a uma cirurgia corretiva de algum defeito congnito ou de ferimento na prtica de esportes.
Ferimento na prtica de esportes... Se ao menos fosse isso... Ela suspirou. Ao menos haveria mais dignidade em sua desgraa. Mas... rolar as escadas?
-  Quebrei a perna -Deirdre respondeu.
-  Como?
-  No importa como.
-  Quando?
-  No importa tambm quando.
- Santo Deus, e voc acha que sou eu o desagradvel!
-  No estou com disposio para falar - ela resmungou. - S isso.
-  Ainda me parece esverdeada. Est com enjo de estmago?
- No h nada de errado com meu estmago. E no estou verde, apenas plida.  uma cor normal depois de alguns dias num leito de hospital.
- Acabou de receber alta? - perguntou ele, com enorme surpresa.
-  Sim, esta manh.
- E j est fugindo, debaixo de chuva, para uma ilha deserta? - A surpresa cedeu lugar ao sarcasmo.
-   apenas uma perna quebrada! O resto vai muito bem. - No era verdade, porm uma mentira compreensvel. - E, para seu governo, no encomendei a chuva, ela apenas 
chegou na hora errada.
-  Voc fez muito mal em vir. Por que sua me no a impediu de viajar em tais condies?
-  Naturalmente que tentou, mas sou bastante adulta e no tenho necessidade de ouvi-la.
-  Pode ser que seja adulta, mas no parece - Neil no se cansava de provoc-la. - Tem mais o aspecto de uma garota amuada e mimada.
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-   melhor ser uma garota amuada que um sujeito antiptico. Olhe, por que no cuida de sua vida? No me conhece, eu no o conheo, e muito em breve, graas a Deus, 
nossa viagem ter um fim. No precisa descarregar seu mau humor em cima de mim. Fique a em seu canto curtindo suas mgoas.
-  Mas o caso  que gosto de provoc-la. Voc se inflama facilmente.
Esse era o problema. O melhor meio de lidar com um homem daquele tipo seria ignor-lo. E foi o que Deirdre comeou a fazer. E funcionou. Ou teria ele parado de falar 
por deciso prpria? Talvez.
Contudo, continuava a encar-la. Ela sentia o olhar dele queimando-lhe as costas, mas recusou virar-se. O homem tinha coragem, isso tinha. No era como Seth.
Seth... Suave Seth. Paradisaco Seth. Ele entrara em seu mundo, tirara vantagem de sua casa, de seu trabalho, de suas afeies, e depois fugira ao comear a presso 
de sua famlia. Seth no queria peias, no queria responsabilidades. E a ltima coisa que desejava era uma mulher cuja carreira exigia a presena dela e cujas responsabilidades 
familiares tinham prioridade. O marido ou o amante viria em segundo lugar. Ou em terceiro, ou em quarto...
A ironia de tudo, Deirdre refletia, era que Seth no a entendera. Ela no quisera nunca se envolver com a Joyce Empreendimentos e lhe dissera repetidas vezes. Apesar 
disso, ele sentira-se ameaado e fugira. Porm, olhando para trs agora, Deirdre considerava-se melhor sem Seth do que com ele.
Estava perdida em seus pensamentos quando o homem sentado no canto do barco levantou-se e foi para o lado de Thomas. Falava em sussurros,
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e foi difcil a Deirdre ouvir por causa do barulho do motor. Mesmo assim, conseguiu distinguir algumas palavras.
- Quanto tempo falta ainda? - Neil perguntou.
-  Meia hora.
-  Aonde vai ela?
-  Para uma ilha perto de Martinicus.
-  H muitas ilhas l, no  mesmo?
-  Algumas.
-  Quem vai desembarcar antes?
-  Estou indo na direo da ilha de Vitria. Esforando-se por usar de certa considerao,
Neil disse:
- Olhe,  melhor levar a moa antes. Parece estar sofrendo muito.
- Achei que o senhor no gostava dela - Thomas falou sem fit-lo.
-  E no gosto. Ela me atazana o tempo todo. Mas sabe, qualquer pessoa me irritaria agora considerando-se meu estado de esprito do momento. Aconteceu ser ela a 
pessoa.
Neil parecia arrependido do que vinha fazendo. No entretanto, reconhecia que dera vazo  sua ira brigando com aquela mulher. Precisara explodir, e ela fora seu 
bode expiatrio. Reconhecia que havia sido rude, esse no era seu modo habitual de agir.
De cabea baixa, voltou ao prprio lugar.
Deirdre, que pensava mais uma vez em como seria feliz se pudesse tomar um banho de chuveiro, disse a ele:
- Se estava tentando convencer Thomas a lev-lo em primeiro lugar, perca as esperanas. Minha ilha est no topo da lista de prioridades.
- Muito bem, pensa que sabe demais. Pois oua,
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O MUNDO NOS SEPARA
no faz nenhuma diferena para mim desembarcar antes ou depois - Neil retrucou ironicamente.
Deirdre considerou o comentrio como um exemplo tpico de "as uvas esto verdes". De qualquer forma, no precisava se preocupar muito com aquele homem de terrvel 
mau humor. Muito em breve se livraria de sua companhia. Bem depressa chegaria  ilha de Vitria.
-  Olhem - Thomas apontou para adiante. - Ali est a ilha de Vitria.
-  No vejo nada - Deirdre murmurou.
-  No importa. Voc no precisa ver a ilha de Vitria.  bastante que ela esteja l - Neil retrucou.
-  Voc v alguma coisa? - indagou Deirdre.
-  Claro. Vejo uma mancha escura.
- H uma infinidade de manchas escuras  nossa frente. Como pode distinguir uma onda de uma ilha?
-  Na ilha h rvores. A lgica era irrefutvel.
-  Mesmo? - Deirdre observou, irritada.
Neil foi para o lado de Thomas e ficou observando .1 mancha escura aumentar gradativmente, se materializando numa massa de terra. No era grande, talvez tivesse 
apenas meio quilmetro quadrado de extenso, mas tinha uma flora surpreendentemente exuberante. Nem a chuva, nem as nuvens, nem a aproximao do crepsculo poderia 
mascarar o esplendor dos pinheirais. E l estava a casa, uma es-liiitura trrea rodeada de sarrafos cinzentos, situada na clareira dando para o cais.
Deirdre ajoelhou-se a fim de ver melhor.
-  ... linda! - exclamou. - Como  linda!
-  Concordo - Neil, radiante por ter chegado ao destino, disse.
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-  Pela primeira vez comeo a pensar que voc tem um pouco de bom gosto.
-  Sim, tenho muito bom gosto - replicou ele. * - O problema  que s agora vi algo que me atraiu desde que cheguei aqui.
Era um insulto, sem dvida era um insulto, e Deirdre no poderia deixar passar em branco tamanha ofensa.
-  O sentimento  mtuo - disse ela. - Na verdade...
-   Perdoem-me - Thomas interrompeu-os. - Preciso de auxlio aqui. Est chovendo demais e temos de trabalhar depressa. - Ele j comeava a encostar o barco num cais 
de madeira. - Neil, assim que atracarmos, voc pode jogar as cordas para a praia. Depois salte e amarre-as nos pilares. Eu passarei para suas mos as caixas de mantimentos. 
Desa tambm, Deirdre, e cuidado porque as vigas do cais so escorregadias.
Deirdre vestiu a capa e Neil fez o mesmo.
- As cordas, Neil - Thomas gritou. - Chegamos. Neil desceu para amarrar as cordas. Mordendo os lbios, irritada com o pouco cava
lheirismo de seu companheiro de viagem, Deirdre desembarcou auxiliada apenas por Thomas. Quando se virou a fim de agradecer, ele j estava longe ocupando-se em descarregar 
o barco. Em seguide passou as coisas, tanto para Neil como para ela.
- Voltarei daqui a uma semana a fim de trazer mais suprimentos - disse o pescador a Neil num instante em que Deirdre estava afastada no podendo, portanto, ouvi-lo. 
- O que voc tem a  mais do que suficiente at l. As chaves da porta da frente esto num envelope dentro da caixa dos
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ovos. Se tiver algum problema, alguma emergncia, comunique-se comigo pelo rdio da saleta. Encontrar as instrues ao lado.
Deirdre concentrava-se acima de tudo em manter seu equilbrio, por isso desligara a mente do que acontecia ao seu redor. Thomas ento aproximou-se dela e repetiu 
as mesmas explicaes que dera a Neil, sem que este o escutasse.
Deirdre apanhou sua mochila e colocou-a nas costas, crente de que Neil voltaria ao barco com o fim de continuar viagem. Porm Neil continuava pondo as caixas umas 
sobre as outras, no se dando conta do que se passava. Quando se virou para agradecer ao pescador, este j estava a bordo.
Neil no se surpreendera no instante em que Thomas lhe dissera que precisavam trabalhar depressa por causa do mau tempo. Mas no esperava v-lo partir sozinho. E 
Deirdre? Que fazer com a mulher ali parada?
Deirdre, de olhos arregalados, alarmada, gritou:
-  Ei, Thomas?! - E gritava cada vez mais alto: - Thomas! Thomas!
O motor do barco falhou duas ou trs vezes, depois funcionou.
Neil gritou ento, fazendo eco aos apeles de Deirdre:
- Ei, Thomas! Voc se esqueceu de algum. Volte! O pescador manobrou o barco e partiu.
-  Thomas!
-  Thomas!
- Algo saiu errado, Thomas! - Deirdre tremia, afastando os cabelos molhados dos olhose apontando para Neil. - Ele ficou aqui.
Neil encarou-a; seu olhar era de ao.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  claro que fiquei aqui! - exclamou. - Esta  a ilha de minha amiga!
-   a ilha de Vitria, e Vitria  minha amiga
- Deirdre protestou.
-   minha amiga, e ela no mencionou voc quando me emprestou a ilha. Disse que o lugar era todo meu.
- A mesma coisa Vitria disse para mim! - Deirdre insistia.
Os dois se encaravam debaixo da chuva que agora caa torrencialmente.
- Sua amiga  Vitria do qu? - Neil indagou.
-  Vitria Lesser. Qual  o sobrenome da sua Vitria?
-  O mesmo.
- No acredito em voc. Diga-me onde ela mora
-  Deirdre tinha dificuldade em crer no que Neil afirmava.
-Em Manhattan. Em Park Avenue -- ele respondeu.
- Ela  a sra. Arthur Lesser. Fale-me sobre Ar-thur. - Deirdre queria uma prova de que Neil a conhecia mesmo.
- Arthur morreu. Vitria  viva, maravilhosa, encantadora viva e...
- Cmplice... Traidora...? Dissimulada...? Fitando-se com olhar furioso na semi-escurido
do cais, Deirdre e Neil chegaram  mesma concluso imediatamente.
- Fomos enganados - ele dizia e repetia. - Fomos enganados, fomos usados.
- No acredito - Deirdre murmurava com o corao aos pulos, olhando para o mar. - Oh, maldio, ele foi embora!
E ambos reiniciaram a gritaria:
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-  Thomas, volte!
-  Volte j, d meia volta, Thomas!
Thomas, no faa isso comigo, Thomas! Thomas!, Deirdre repetia mentalmente.
Mas Thomas j estava longe, correndo na direo da terra firme.
- Como fui idiota! - Neil berrava. - Como pude cair nessa armadilha? Vitria deve ter sabido precisamente o que fazia, e eu ca como um patinho!
Deirdre no se lembrava de ter sido to infeliz em toda sua vida. Todo o que ela passara na casa da me, tudo de que fugira, era nada comparado ao fato de ter sido 
manipulada. A frustrao a paralisava.
Respirou fundo e tentou raciocinar com clareza. "Passei por tanto sofrimento, agentei o inferno para..."
Deslizou a mo pelo rosto a fim de enxugar as gotas de gua e olhou para Neil, dizendo:
- Voc no pode ficar aqui. Precisa ir embora e essa ser a nica soluo ao nosso problema.
Neil, com a chuva escorrendo pelo pescoo, estava li vido.
-  O que pretende dizer com isso? - gritou. - Que eu no posso ficar? O que a trouxe aqui, eu no sei. Mas o que quer que tenha sido, preciso desta ilha mais do 
que voc, e no tenho inteno de dividi-la com uma mulher faladeira, fisicamente incapacitada... um diabo em figura de gente!
Deirdre sacudiu a cabea, imaginando por segundos o que iria responder. Enfim disse:
-  No tenho obrigao de ouvir suas ofensas. Dando as costas a Neil ajeitou as muletas e foi
do cais sombrio  ainda mais sombria alia que conduzia  casa.
Neil seguiu-a, dizendo:
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- Concordo, voc no tem obrigao de agentar minhas ofensas. Falarei com Thomas atravs do r dio amanh cedo e pedirei que venha busc-la.
Deirdre olhou para o cais molhado e depois para a alia enlameada.
- No tenho inteno de sair daqui antes de ficar completamente recuperada - declarou. - Mas pode pedir a Thomas que venha buscar voc.
-  De forma alguma! Vim  procura de paz e quietude, e  o que pretendo obter.
-  Pode ter paz e quietude em qualquer outro lugar. No vai conseguir seus objetivos aqui comigo. No sei como conheceu Vitria, s sei que ela  amiga de minha 
famlia h anos e tenho certeza de que dar preferncia a mim, em se tratando do uso deste lugar...
- Preferncia para o uso deste lugar? Olhe-se no espelho! Mal pode chegar at a porta!
Neil no estava longe da verdade. A alia, molhada e escorregadia, atrasava o progresso dela consideravelmente. S uma grande fora de vontade fazia com que prosseguisse.
- Vou chegar l - sussurrava, lutando para subir a rampa molhada. - Uma vez dentro de casa, no me mexerei mais.
Chegaram na porta da frente, Deirdre sempre coxeando. Ela atravessou o prtico onde Neil j se encontrava, pois subira os degraus da entrada de dois a dois. "Na 
caixa de ovos est a chave", ele lembrou-se logo. Ps a mala que carregava no cho, encostada ao muro para proteg-la da chuva, e remexeu na caixa de ovos. Nada. 
Praguejou e voltou correndo para o cais.
Fraca, cansada, Deirdre encostou-se no batente
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da porta, pressionando a cabea contra a madeira fria. Sua testa, surpreendentemente, pegava fogo, enquanto o corpo todo estava gelado. Ela tremia de frio e tinha 
os olhos cheios de lgrimas. Como pudera a soluo perfeita transformar-se em tamanho fracasso?
Mas... no havia nada que pudesse ser feito naquele momento, somente no dia seguinte.
Pensava em ir diretamente  cama, assim que entrasse em casa. No se importava se eram apenas sete horas da noite. Sentia-se febril. Neil, quem quer fosse o homem, 
poderia fazer o que quisesse; ela iria dormir at o dia seguinte. De manh pensaria em qual a melhor soluo a se tomar. Resolveria o problema com mais clareza.
Neil subiu os degraus do jardim  casa levando enorme quantidade de caixas.
-  No posso acreditar que voc tenha conseguido carregar isto numa s viagem do cais at aqui! - ela exclamou. - Foi um milagre no ter derrubado tudo!
Neil sacudiu a cabea afastando o cabelo dos olhos. Estava ensopado e despenteado.
- D graas a Deus por eu ter conseguido. Poderia ter pedido a voc para me ajudar.
Ela no estava com disposio para ser grata.
- A chave? - perguntou. - Onde est a chave? Neil colocou os volumes todos no cho.
- Preciso procurar melhor. Espere um pouco. Ele remexeu mais uma vez a caixa de ovos. Segundos mais tarde achou um envelope e tirou de dentro a chave. Abriu a porta.
Deirdre, que temia cair ali mesmo caso tivesse de esperar mais, entrou imediatamente usando o resto de energia que lhe restava.
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Estava escuro. Ela procurou pelo comutador e acendeu a luz. Num rpido olhar deparou com uma linda sala. Uma porta dava para a cozinha, outra para um corredor que 
com certeza conduziria aos quartos.
Para l seguiu ela. Passou ao lado de uma porta, de outra, e imaginou que eram as dos quartos de hspedes. Chegou  terceira porta... Acendeu a luz e concluiu que 
estivera certa em sua suposio quanto  beleza do quarto principal. Certa? No, pois o quarto era muito mais deslumbrante do que imaginara. A vista para fora a 
deixou perplexa.
Entoando uma cano em surdina fechou a porta com a muleta e correu para a cama.
Nem bem chegara l seus joelhos cederam e ela afundou-se no leito, largando as muletas no cho.
Suspirou fundo vrias vezes. Suas pernas tremiam de fraqueza. De exausto? De frio? Talvez todos os trs juntos. Estava molhada dos ps  cabea. Embora o quarto 
estivesse muito frio, ela simplesmente no tinha ainda condies de encarar esse problema.
Com dedos trmulos puxou o zper da jaqueta encharcada, despiu-a, e jogou-a no tapete ao lado da cama. Comeou a pedir desculpas silenciosas a Vitria por causa 
da desordem que fazia no quarto dela. Mas logo parou. Considerando-se o que Vitria fizera, no lhe devia nada.
Tirou os tnis e verificou o que acontecera com a perna quebrada. O gesso estava intato. Tocou a parte que cobria o p. mida? Ou apenas fria? O gesso tambm l 
parecia estar bastante firme. At agora, tudo bem.
Abriu a mochila e procurou pelo pijama. Normal-
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mente fazia bem suas malas. Mas, devido s brigas com a me naquela manh jogara as roupas na mochila de qualquer jeito. Estava furiosa e cansada. Por sorte tudo 
de que precisava fora posto na mala. Vestia o pijama no instante em que a porta do quarto se abriu e Neil apareceu. Ele j havia tirado a jaqueta, os sapatos e as 
meias, mas continuava com o jeans molhado at as coxas. Jogando a mala nos ps da cama, ps as mos na cintura e perguntou:
-  O que faz aqui? Este quarto  meu. Deirdre abotoou o pijama, surpreendida com a
apario sbita de Neil.
-  No vi seu nome escrito na porta - declarou ela, pronta para brigar.
-  Este  o melhor e o maior quarto da casa. - Neil apontou para o leito. - A maior cama. E acontece que sou bem mais alto que voc.
Deirdre, atnita, fitou-o dizendo:
-  E da?
-  E da...  que quero este quarto.
-  Mas j est ocupado.
-  Pode desocup-lo j. Os dois outros quartos so tambm muito bonitos. Escolha o que preferir.
-  Quero este - ela insistiu com firmeza.
-  Eu tambm quero este - Neil falou.
Pela primeira vez, desde que entrara no quarto, Deirdre olhou bem ao redor. Duas das paredes eram de vidro. A vista devia ser espetacular durante o dia. A grande 
cama de lato ficava na terceira parede. Na quarta havia uma porta tendo de cada lado cmodas no estilo colonial. Num canto ficava a lareira. O quarto era iluminado 
por uma luz suave, proveniente dos abajures das mesas de cabeceira.
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- Pois eu no desisto deste - Deirdre declarou, categrica.
Neil, que nunca estivera em situao idntica antes, ficou surpreendido com a firme determinao de sua companheira- de viagem. A coisa era bem diferente quando 
ela discutia aos berros. A presente atitude, estranhamente, pareceu-lhe ser mais ameaadora. Deirdre, quem quer que ela fosse, era uma mulher que sabia o que desejava. 
Infelizmente, nessa especial circunstncia, ele desejava o mesmo.
- Olhe - Neil comeou a falar com cuidado, controlando a irritao -, isso no faz sentido. Preciso desta cama porque  a nica bastante longa para mim. Tenho quase 
dois metros de altura contra seu um metro e cinqenta e cinco, ou seis? No ficarei confortvel em nenhum dos outros quartos. As camas so curtas demais para mim.
-  Tenho um metro e cinqenta e sete, mas isso no vem ao caso. Estou com uma perna engessada e preciso de espao tambm. Isso sem falar do banheiro. Pelo que soube 
antes de vir para c, esta sute  a nica que possui uma banheira. No posso tomar banho de chuveiro. E at um de imerso no seria fcil.
-  Tente.
-  Como?
-  Eu disse, tente.
-  Tentar o qu?
-  Tomar banho.
-  Mas, o que significa isso?
-  O que acha que significa? - ele perguntou. - Voc est imunda.
Neil no pde resistir. Ao tentar lanar mo da lgica, ela torcera os argumentos em prprio favor.
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Ele no gostou daquilo, em particular tratando-se do quarto que no tinha inteno de ceder. Deirdre olhou para o gesso enlameado.
-   claro que estou imunda. E no apenas por causa da lama mas tambm porque aquele barco no era nada limpo. - Ela ergueu a cabea, os olhos expeliam fascas. 
- Mas no preciso pedir desculpas por minha sujeira. Olhe para voc. No est muito melhor do que eu!
Neil no teve necessidade de se olhar para saber que Deirdre tinha razo. Vestia o mais velho de seus jeans, o mais confortvel, e uma camiseta descorada por baixo 
do suter. A viagem tempestuosa deixara sua marca nele tambm.
-  Pouco me importo com meu aspecto - resmungou - Tudo isso faz parte de minha deciso em vir para c. Ao menos uma vez na vida vau fazer o que quero, quando quero, 
e onde quero. E tudo comea com esta cama.
Levantando a cabea Deirdre apanhou as muletas.
- S sobre meu cadver - murmurou. Mas grande parte de sua energia sumira. A que lhe restara aps a viagem consumira-a em sua briga com Neil logo na hora da chegada. 
Levantou-se da cama. - Preciso ir ao banheiro. Tivemos um longo dia.
Neil observou-a mancando enquanto ia para o banheiro, fechando a porta em seguida. Mais uma vez ele desejou que Deirdre tivesse esbravejado, gritado. Quando falava 
suavemente, deprimida, despertava piedade. E agora parecia de fato exausta.
Mas no precisava ter pena dela, no, pois tambm estava cansado.
Apanhando sua mala dos ps da cama colocou-a no lugar que Deirdre ocupara h pouco. Depois pe-
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gou a jaqueta ensopada dela e a mochila e levou-as para o mais feminino dos dois quartos de hspedes.
Ela entenderia. Talvez estivesse fatigada demais para brigar. Isso ou, quando sasse do banheiro, discutiriam mais sobre quem tinha direito ao quarto principal da 
casa.
Neil suspirou, fechou os olhos e esfregou a mo na testa, num ponto doloroso. Aspirina. Precisava de uma aspirina. No. Precisava de um drinque. No. De que precisava 
mesmo era de comida. Tomara o caf da manh h muitas horas atrs e no almoo comera apenas um sanduche numa lanchonete de estrada, enquanto dirigia para o Maine.
Parando brevemente no corredor a fim de regular o termostato, foi  cozinha onde deixara empilhadas as caixas com mantimentos. Havia o suficiente para duas pessoas, 
ele constatou com certa irritao. Sem dvida Vitria planejara tudo aquilo. Ele devia ter suspeitado quando Thomas passou os suprimentos para suas mos. Mas estava 
chovendo e escuro, talvez por isso no desconfiara de nada. Alm do mais, tudo fora feito com pressa. E ele simplesmente deduziu que a moa voltaria para o barco 
quando o trabalho de descarregamento estivesse terminado.
Deduziu mal.
Passando os dedos pelos cabelos, olhou para as caixas, pensando em esvazi-las. Mas a primeira coisa que fez foi colocar uma lata de sopa para esquentar e preparar 
um enorme sanduche de presunto e queijo.
A cozinha era confortvel e moderna. Embora pequena, tinha todas as facilidades que ele possua em seu apartamento. Claro, no esperara nada menos de Vitria, em 
particular no referente a conforto.
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O que no esperava tambm foi que ela lhe forasse uma companhia, no quando insistira que precisava ficar sozinho.
Que diabos tinha Vitoria na cabea para fazer essa brincadeira? Mas ele sabia. Ele sabia, H anos Vitria vinha tentando fazer com que arranjasse uma companheira.
Mas por que agora, Vitria ? Por que agora quando minha vida est nesta terrvel confuso?
Reinava na casa silncio absoluto. Neil pensava nisso ao terminar de comer. Ps tudo em ordem na cozinha. Deirdre j devia ter acabado de tomar banho, mas ele no 
ouvira o barulho da gua correndo e nem o som surdo das muletas no corredor.
No gostando muito das possveis implicaes daquele silncio, foi ao quarto de hspedes onde deixara as coisas dela.
Estava vazio.
Espumando de raiva, entrou no quarto principal.
-  Maldio! - sussurrou. L se encontrava a maldita mulher, deitada na cama, do lado oposto ao que ele deixara sua mala. Acomodara-se na cama que lhe pertencia 
por direito!
Ele atravessou o quarto e parou no tapete aos ps da cama.
-  Ei, voc a - disse. - O que pensa que vai fazer?
Deirdre no passava de uma srie de pequenas protuberncias embaixo do edredom. Nenhuma das protuberncias se movia. O rosto dela estava coberto com a colcha e apenas 
uma brilhante cabeleira castanha cobria o travesseiro, contrastando com a fro-nha alva. - Voc no pode dormir a, fui bem claro, no fui?
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Ele esperou. Deirdre deu um gemido e moveu a perna que Neil concluiu ser a boa.
- Levante-se, Deirdre - ele ordenou. - J levei suas coisas para o outro quarto.
- No posso me mexer - ela murmurou. - Estou muito... muito cansada, e com muito... frio.
Neil lanou um olhar de desnimo para o teto. Por que eu? Por que aqui e agora? Ele baixou a vista para as protuberncias sob o lenol e insistiu:
- No posso dormir em nenhuma das outras camas. J falamos sobre o assunto.
-  Hum...
-  Ento, vai sair?
Houve uma longa pausa. Neil se perguntava se ela dormira. Enfim, um som quase inaudvel veio de sob as cobertas:
-  No!
Ele praguejou de novo e passou a mo nervosa pelos cabelos enquanto olhava para a massa informe deitada na cama. Podia tir-la de l, podia facilmente carreg-la 
para o outro quarto.
-  No ouse me tirar daqui - a massa informe falou, como se tivesse adivinhado seu pensamento. - Gritarei dizendo que est me violentando.
-  No h ningum aqui para ouvi-la.
-  Posso me comunicar com Thomas. Farei mais barulho <lo que voc possa imaginar.
Violenlar... Era s o que lhe faltava. Alm de todos os seus infortnios, faltava esse! Havia s eles dois na casa <e seria a palavra de um contra a do outro. Um 
estupro premeditado?
Se Deirdre era bastante cruel para cumprir a ameaa, faria uma verdadeira cena. E uma cena
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desse tipo era a ltima coisa de que necessitava no presente momento de sua vida.
Furioso e frustrado, saiu do quarto. Ao chegar na sala, atirou-se numa poltrona e comeou a maldizer todas as pessoas que lhe causaram,essa desgraa: Vitria, Thomas 
e, acima de todos, a mulher que deitava em sua cama. Infelizmente, os nomes mais horrveis que conhecia, somados, no mudavam as circunstncias.
Ele estava terrivelmente cansado, mas ainda havia suficiente adrenalina em seu sistema para mant-lo acordado. Precisando fazer alguma coisa, levantou-se, foi at 
a lareira, e ps fogo nos gravetos que tinham sido cuidadosamente colocados sob as achas. Em minutos o fogo irrompeu, dando mais conforto  sala. Mais conforto ainda 
veio de uma garrafa de usque que ele encontrou no bar. Aps alguns generosos goles, sentiu-se bem melhor; outros mais, e sua ira diminuiu dando-lhe uma chance de 
raciocinar.
Depois de duas horas j se sentia bem mais calmo do que pudera imaginar. Foi  saleta e examinou as instrues para o uso do rdio. Fceis.
Infelizmente ningum respondeu na casa de Thomas.
Canalha!
"OK, Hersey", ele dizia a si mesmo. "Talvez Thomas ainda no tenha chegado. Afinal, chove e o homem dirigia o barco agora na completa escurido. No se preocupe. 
Ele estar em casa amanh. Nesse meio tempo..."
Neil abafou o fogo e calmamente foi ao quarto onde Deirdre dormia. Comeou a se despir.
Deixe que ela grite queixando-se de que est sendo violentada, uma voz em seu interior sussurrava.
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Usando apenas cueca - uma concesso da qual mais tarde se admirou, pois no acreditava estar suficientemente sbrio para faz-la, - apagou a luz e entrou na cama 
ao lado de Deirdre.
- Ah! - O leito era firme, os lenis macios.
Ele imaginaria estar na prpria cama em sua casa no fora pelo suave aroma de madeira e de terra mida que vinha de fora. A chuva continuava caindo, tamborilando 
no telhado. Mas isso tambm era agradvel. Porm, acima de tudo, o silncio o acalmava.
Ele estava numa ilha deserta, longe da cidade e de seus problemas.
Respirando fundo, sorriu. Virou a cabea para o lado, no macio travesseiro, e logo dormia profundamente.
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CAPITULO III
Algumas horas mais tarde o sono de Neil foi perturbado. Assustado, virou a cabea. O colcho se mexera mas ele no se movera. Esforou-se por abrir um olho. A escurido 
do quarto era de breu.
Quando o colcho se mexeu de novo, ele abriu o outro olho. Seria Nancy? No, Nancy nunca dormira em sua casa e ele no estava mais vendo Nancy. Ento...
Levou um minuto para raciocinar e, quando isso foi possvel, mudou de posio e dobrou os joelhos. Dormiria logo, disse a si mesmo. Era s ficar de olhos fechados, 
respirar fundo e regularmente. Assim, voltaria a dormir.
Um suave gemido veio do outro lado da cama, seguido de mais um movimento do colcho.
Com os olhos bem abertos agora, Neil blasfemou. Depois, rangendo os dentes e indo para a beirada da cama, fechou os olhos.
Houve alguns minutos de sossego. Ele j quase dormia quando outro gemido se fez ouvir. E, como antes, seguido de um sacudir do colcho.
Sua cabea latejava. Levantou-se e foi ao banheiro, blasfemando. Procurou no armrio algum anal-
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gsico. Repelente de insetos... Caladril... Anti-hista-mnico... Aspirina... Aspirina? Sim, aspirina. Teve certa dificuldade em abrir o frasco e estava pronto a 
quebr-lo quando finalmente conseguiu abrir. Pondo trs comprimidos na palma da mo jogou-os na boca e engoliu-os. Tomou gua diretamente da torneira. Apagando a 
luz, voltou  cama.
A aspirina comeava a fazer efeito quando Deirdre gemeu. Neil sentou-se na cama e acendeu a luz. Ela estava ainda embaixo das cobertas mas torcia o corpo violentamente 
para um lado e para o outro. Enquanto a observava ela parou por alguns segundos mas logo em seguida torceu o corpo outra vez.
- Deirdre! - Neil sacudiu-a. - Acorde! No posso dormir com essa sua agitao.
Ela moveu-se ento, mas de maneira diferente agora. Estendeu um brao para fora das cobertas e murmurou:
-  Hein?
-  Voc precisa se acalmar. J  bastante desagradvel dormirmos na mesma cama, mas recuso fazer isso com uma mulher que no pode ficar parada.
Deirdre arregalou os olhos quando ele disse "dormirmos na mesma cama". Olhou para o peito nu de Neil e, bem devagar, bem devagar, ficou imvel.
-  Sinto muito - ela sussurrou com uma sinceridade que o comoveu.
-  Estava tendo um pesadelo?
-  No. Minha perna di muito.
-  H alguma coisa que voc possa fazer para minorar a dor? Seu mdico lhe deu instrues? No acha interessante erguer um pouco essa perna quebrada?
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-  Eles conservavam minha perna erguida enquanto eu estava no hospital, para evitar que inchasse. Mas pensei que eu j estivesse fora de perigo agora.
- Muito bem! - Neil jogou as cobertas da cama para longe e levantou-se. - Estou aqui preso com uma imbecil cuja perna pode chegar ao dobro do tamanho normal. E, 
se isso acontecer, sua circulao poder ser cortada e uma gangrena vir na certa.
Ele voltou para perto da cama, pegou dois travesseiros e, sem a menor cerimnia, ergueu as cobertas descobrindo-a.
-  O que est fazendo? - ela gritou.
-  Quero levantar sua perna. - Ele tentava pr os travesseiros embaixo da perna quebrada para suspend-la. - Pode mover um pouco a perna boa? Bom, acho'que vou conseguir. 
- Com surpreendente gentileza ele colocou os dois travesseiros embaixo da perna engessada.
- No vou ter nenhuma gangrena. Voc no sabe o que est dizendo, no sabe nada - Deirdre sussurrou, um pouco assustada.
-: Ao menos sei o suficiente para erguer uma perna. - Neil cobriu-a de novo e foi para o seu lado da cama. - Sente-se melhor, no?
-  Sinto-me igual.
-  Aguarde um minuto ou dois. Logo se sentir melhor. - Ele apagou a luz e deitou-se. Ps a cabea no travesseiro e massageou a tmpora. Segundos mais tarde levantou-se 
de novo e foi ao banheiro. Ao voltar trazia consigo um copo d'gua e dois comprimidos. - Pode se sentar?
-  Para qu?
-  Para tomar estes comprimidos.
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A nica claridade do quarto era a que vinha da luz acesa do banheiro. A penumbra fez Deirdre se sentir em desvantagem com aquele homem, quase um gigante, em p ao 
lado dela.
-  Que comprimidos so esses?
-  Aspirina.
Neil era to grande..., to ameaador... No usava muita roupa. O que pretendia ele?
-  No tomo plulas - Deirdre declarou.
-  Mas estas so inofensivas, muito fracas.
-  Se so fracas, por que tom-las?
-  Porque vo ajudar voc, impedindo que a dor da perna aumente. E, ao se sentir melhor, ficar quieta na cama e eu poderei dormir.
-  Voc pode sempre ir para o outro quarto.
- De forma alguma, isso  fora de cogitao. Neste momento estamos apenas discutindo se voc vai ou no tomar estas inocentes plulas.
-  Como sabe que so inocentes? - perguntou ela. - Como sabe que so aspirinas? Eu mal conheo voc. Como posso confiar no que me diz?
Surpreendido por Deirdre continuar sendo, no meio da noite, como fora durante o dia, ele deu um suspiro de irritao e respondeu:
-  Porque, primeiro, tirei estes comprimidos de um frasco com um rtulo "aspirina". Segundo, porque tomei trs deles alguns minutos atrs e estou vivo. E terceiro 
porque sou amigo de Vitria e, como tal, devo ser uma boa pessoa. Isso funciona, alis, para ambos os lados, o meu e o seu.
-  A que exatamente se refere? - Deirdre quis
saber.
-A qualidade de carter. Confio em sua integridade...
-  O que quer dizer com isso? - ela perguntou.
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- Que voc no tem perverses, que no usa drogas, que no tem doenas contagiosas...
-  E claro que no tenho.
-  Mas, pensando bem, como posso ter certeza?
-  Porque sou amiga de Vitria - Deirdre respondeu com firmeza.
- Claro. E, se Vitria nos uniu, podemos ter certeza de que somos confiveis, porque ambos temos confiana em Vitria. Ao menos eu tenho. - Neil sacudiu a cabea. 
- Mas no quero continuar aqui discutindo com voc. Vai ou no vai tomar estas malditas aspirinas? - Ele abriu a mo que continha os comprimidos.
-  Vou tomar, sim - Deirdre respondeu.
-  Neste caso, podemos voltar ao ponto de onde comeamos. Consegue sentar na cama? - Neil falava bem devagar, para que ela pudesse entend-lo bem.
- Se eu no conseguisse, no estaria fazendo esta viagem, no teria empreendido esta aventura.
Ela tentou se apoiar nos cotovelos. Porm, com uma das pernas elevada, era uma manobra difcil. E, apesar de ser mulher gil, atleta, perita em exerccios fsicos...
Neil no esperou at v-la sentar-se. Apoiou um joelho na cama, segurou-a pela cintura, e a fez
erguer-se.
-  Os comprimidos esto na minha mo direita.
Pode peg-los?
Com a mo direita Neil a amparava. Com a esquerda segurava o copo d'gua.
Deirdre pegou os comprimidos e colocou-os na boca. Depois tomou a gua.
Nenhum dos dois falou.
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Neil a fez deitar e foi ao banheiro. Ps o copo na pia, apagou a luz e voltou  cama.
Deirdre permanecia deitada, imvel, estranhamente em paz. A perna doa menos, o corpo todo estava melhor.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e adormeceu.
Quando acordou j era dia. A chuva continuava. Continuou na mesma posio, aos poucos assimilando onde estava e o que fazia naquele lugar. Quando retornou ao mundo 
real percebeu que no se encontrava sozinha na cama. Do outro lado vinha uma respirao calma, tranqila. Virou a cabea devagar e viu o amigo de Vitria, aquele 
a quem ela tambm emprestara a ilha. Preocupou-se.
Fugira de Rhode Island, dirigira durante horas enfrentando chuva violenta, sofrer de enjo num barco seri recursos, tudo para ficar s. Mas no estava s. Sentia-se 
abandonada numa ilha h mais de trinta quilmetros da terra firme, com um homem resmungo. Que poderia fazer agora?
Neil se perguntava a mesma coisa. Continuava deitado com os olhos abertos, ouvindo o som da respirao de Deirdre, ficando mais irritado a cada minuto que se passava. 
Acreditava no que dissera  noite. Se Deirdre era amiga de Vitria - e devia ser porque sabia muito acerca da vida de Vitria -, no podia ser m. Contudo, era uma 
pessoa desagradvel e ele queria estar s.
Levantou-se da cama dando tempo  mente para se ajustar  nova situao. Sua cabea doa, e culpava Deirdre por isso em vez de culpar o usque que bebera na vspera.
- No tem nada mais decente para usar? - ela perruntou com voz perturbada.
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-  No h nada de indecente em minha pele - respondeu Neil.
-  No usa pijama nunca?
-  Pijama como o seu?
-  O que h de errado em meu pijama?  um pijama muito bom.
-  E um pijama de homem - Neil declarou. Imediatamente aps ter dito isso, lembrou-se da
sensao que tivera ao erguer o corpo de Deirdre. Claro, ela usava pijama de homem, mas sob o tecido grosso havia costas esguias, cintura fina e a mais tentadora 
curva de quadris.
-  Meu pijama  confortvel e quente - Deirdre explicou.
-  Eu no preciso de pijama quente.
- Mas est muito frio aqui. No h aquecimento nesta casa?
-  Gosto de quarto frio - Neil respondeu.
-  Jia. - Era esse um argumento sobre o qual discutiriam depois. No momento, havia algo mais importante a ser levado em considerao. Deirdre pensava no trax nu, 
nos msculos firmes, nos pelos escuros dele. - Voc devia ter pensado em algo mais quando resolveu dormir na cama comigo.  '
- Voc devia ser grata pela ateno que lhe dei. Geralmente durmo nu.
-  Viril, no?
- O que h de condenvel nisso? No  bastante mulher para enfrentar um homem cem por cento?
A ofensa atingiu-a. E ela respondeu:
- No sou bastante mulher? Detesto desapont-lo, mas o machismo no me agrada.
-  Ah, falou agora a perita em sexo!
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- No, no sou perita em sexo, mas simplesmente uma mulher moderna.
- OK, mas moderna ou no, trate de se preparar para receber Thomas quando ele vier busc-la. Agora preciso de um banho de chuveiro.
-  E eu preciso de um banho de imerso - disse ela.
-  Teve sua chance ontem  noite e no a usou.  minha vez.
-  Use um dos outros banheiros. Tambm tm chuveiro.
-  Mas gosto deste - Neil insistia.
-  Acontece que este  o nico que tem uma banheira!
-  Voc poder us-lo assim que eu terminar, Deirdre.
-  O que aconteceu com seu cavalheirismo?
- Uma mulher moderna falando sobre cavalheirismo? Que surpresa! - ele caoou, fechando a porta do banheiro.
Sem uma palavra Deirdre apanhou as muletas e foi para a sala. De l dirigiu-se  saleta onde estava o rdio.
Olhou para o relgio. Eram dez e quarenta e cinco. Dez e quarenta e cinco? Mal podia acreditar que dormira tanto. Mas precisara daquelas horas de sono. Estava exausta 
e s dormira profundamente depois que a perna engessada fora erguida e a aspirina comeara a agir.
Dez e quarenta e cinco. Teria perdido a possibilidade de se comunicar com Thomas? Estaria ele em casa ou fora, no barco? Chovia e ventava.
Leu as instrues ao lado do rdio e, aps vrias
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tentativas sem sucesso, conseguiu a ligao. Um jovem respondeu; no parecia ser um pescador de lagosta.
-  Preciso muito falar com Thomas - disse ela.
-  Algo urgente? - o jovem perguntou.
- No urgente no sentido comum da palavra, mas...
-  A senhora est bem? - o rapaz insistia.
-  Sim, muito bem...
-  E o sr. Hersey? Est bem? Hersey.
-  Neil? Ele est muito bem. Mas preciso muito falar com Thomas.
- Pedirei a ele que se comunique com a senhora assim que voltar.
- Quando acha que isso ser possvel? - Deirdre perguntou.
-  No sei.
-  Ele est no barco?
-  No. Est em Augusta a negcios.
-  Ah.  esperado hoje?
-  Penso que sim. Frustrao. Deirdre suspirou.
-  Ento, por favor, d-lhe meu recado. Diga-lhe que preciso falar com ele.
Depois que o jovem prometeu que o faria, Deirdre desligou a conexo. Em Augusta a negcios? Ser? Thomas devia saber muito bem por que ela se comunicava pelo rdio. 
Sabia perfeitamente bem o que fazia quando deixou seus dois passageiros na ilha de Vitria.
Deirdre rememorava tudo o que Thomas dissera. Ele fora amvel. Bastante vago, para ser franca, mas nunca mentira, simplesmente havia sido esperto, e respondera a 
suas perguntas com bastante habilidade.
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Porm a verdade era que ela no tinha muita certeza de que Thomas iria se comunicar mais tarde atravs do rdio.
Ouviu passos no corredor. Teria Neil terminado com o banho? E o que planejava ele fazer agora? O rudo dos passos sumiu sendo substitudo pelo som da porta da geladeira 
que abria e fechava. Neil devia estar na cozinha. timo. Ela tomaria seu banho podendo se demorar o tempo que quisesse.
Mas constatou logo que no poderia andar depressa mesmo querendo. Acomodar-se na banheira foi a tarefa mais difcil de sua vida. Pior do que imaginara. O maior problema 
foi que, para poder pr a perna engessada na beirada da banheira, teve de se encostar nas torneiras. Sua deciso de entrar na banheira antes de ench-la resultou 
em considervel contoro de corpo, sem mencionar o fato de, ao tentar se deitar, bateu com a cabea numa das torneiras. Enfim, deu um jeito de estender o corpo 
em diagonal. Foi horrvel, mas melhor que nada. Desistiu da idia de relaxar e concentrou-se na higiene pessoal apenas. Isso tambm no foi fcil. Com ambas as mos 
ocupadas para se ensaboar, escorregava perigosamente na gua. Seus cabelos tambm precisavam de boa lavagem, talvez mais do que o corpo. H quanto tempo no recebiam 
um bom xampu? Uma semana?
Deitando a cabea para trs mergulhou os cabelos e esfregou o xampu. Teve de realizar essa operao vrias vezes at sentir que a cabea estava completamente limpa. 
A gua logo ficou turva, o que a impressionou terrivelmente. Esvaziou ento a banheira e tornou a ench-la com gua limpa. Ps a
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cabea embaixo da torneira e esperou obter o melhor resultado possvel.
Ao sair do banho estava mais tensa do que ao entrar. Precisava tanto de um relaxamento! Contudo, de qualquer maneira, sentia-se limpa e havia certa satisfao nisso. 
Esfregou com prazer um creme hidratante pelo corpo todo, seu ritual dirio que fora temporariamente interrompido desde a internao no hospital. Ao fechar os olhos, 
sentindo o aroma do creme, imaginou-se em casa, arquitetando planos para o prximo dia de trabalho.
No pretendia, contudo, ficar com os olhos fechados permanentemente, embora, quando os abrisse, fosse deparar com a verdade. No estava na prpria casa e nem fazendo 
planos para o dia seguinte. Ao contrrio, encontrava-se num exlio imposto por si mesma, na ilha de Vitria.
A perna esquerda pesava terrivelmente por causa do gesso, seu rosto estava muito plido e sentia-se fraca. E no esperava com ansiedade pelo dia seguinte porque 
ele estava l.
Irritada, vestiu-se. Ps um conjunto verde musgo, folgado. Duas ou trs vezes seu tamanho. Mas no podia se preocupar muito com roupas no estado em que se encontrava. 
Na perna engessada pusera uma grossa meia de l branca e na outra um soquete branco tambm. Com a toalha enxugou os cabelos com energia e escovou-os at que brilhassem.
Olhou-se no espelho. Causa perdida. Limpa, mas causa perdida. Plida, frgil, infantil. Sempre mostrara menos idade do que possua. Detestara sua adolescncia, odiara 
seus vinte anos. Mas no presente, convivendo com mulheres de sua idade esforando-se em passar por mais moas, em geral sem sucesso,
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tinha momentos de auto-apreciao. Contudo, naquele instante, sentia-se pessimamente mal.
- Uma garota amuada? Talvez, mas s por causa dele. Com um suspiro profundo abandonou o espelho e comeou a pr o banheiro em ordem. Ele. Que homem desagradvel, 
que situao desagradvel. E qual seria o remdio? No havia nenhum, at que conseguisse falar com Thomas, at convenc-lo de que, para sua sade mental, Neil Hersey 
precisava sair daquela ilha.
Alguns minutos mais tarde Deirdre entrou na cozinha e sentiu no ar o aroma do bacon. Viu duas panelas sujas no fogo, e sobre a mesa latas de leite e suco, uma vasilha 
com ovos, uma caixa de margarina, um pacote aberto de pezinhos e uma infinidade de migalhas. Neil Hersey terminava de tomar o caf da manh calmamente.
-  Voc  bom cozinheiro - ela comentou com secura. - Sua habilidade se estende at a limpeza da cozinha ou espera que uma empregada venha fazer isso?
Neil pousou o garfo no prato, deitou o corpo para trs inclinando a cadeira e examinou-a cuidadosamente.
- Talvez seja para isso que Vitria a tenha mandado vir aqui comigo - disse. - Achei mesmo que devia haver uma razo.
- Se pensa que vou dar um jeito nessa desordem est redondamente enganado. Voc fez a desordem, voc a limpa.
-  E se eu no limpar?
-  Ento tomar leite e suco estragados mais tarde, po amanhecido amanh e s encontrar panelas sujas onde preparar sua prxima refeio.
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- Ela olhou para a frigideira engordurada. - Afinal, o que fez?
-  Bacon e ovos! Tentador, no acha? Deirdre ficou com a boca cheia d'gua. E disse:
-  Talvez sua comida me tentasse se voc no tivesse usado tanta gordura. Acho que na sua idade devia se preocupar com isso, sem mencionar o co-lesterol existente 
nos ovos.
-  Comi quatro. Eu estava com uma fome louca. E voc, no est? No jantou nada ontem.
-  Havia outras coisas em minha mente ontem  noite para eu pensar em jantar. - Ela lanou-lhe um olhar de fingida desculpa e falou, num tom o mais amvel que conseguiu: 
- Sinto muito. Queria que eu lhe fizesse companhia?
- No exatamente - Neil apertou os lbios. - Tive melhor companhia que a sua.
-  Uma garrafa de usque? Havia uma na sala com um copo vazio ao lado. Brilhante! Sempre afoga suas mgoas no lcool?
As pernas dianteiras da cadeira de Neil bateram no cho fazendo um rudo surdo.
-  Eu no bebo - ele declarou com firmeza.
- Nesse caso, algum fantasma bebeu esse usque ontem  noite.
- Tomei alguns drinques, mas no sou alcolatra. E por que se importa com isso? Vim aqui para fazer o que eu queria e, se for meu desejo ficar bbado cada noite, 
tudo bem.
Ele tomou uma atitude defensiva, e Deirdre sentiu-se por cima, ainda que temporariamente.
- Sabe, voc no tem uma aparncia de todo m
- ela declarou. - Pondo de lado essa calvcie progressiva e esse "negcio a em seu rosto"...
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O MUNDO NOS SEPARA
Neil reagiu de imediato. Apertou os olhos e cerrou os dentes.
- Para seu governo, mocinha, minha calvcie no vem aumentando. Continua a mesma durante anos, s que eu no procuro escond-la como fazem certos homens. Quanto 
a esse "negcio em meu rosto",  uma barba crescida, caso voc no saiba que homens tm barba.
-  Mas podia ter se barbeado, no acha?
-  Por que deveria?
-  Em primeiro lugar, porque eu estou aqui.
-  No me barbear foi minha deciso. Estou de frias e voc se intrometeu em minha vida. Portanto, no tem direito de opinar quanto ao que devo ou no devo fazer. 
Entendido?
Como Deirdre no respondesse, ele repetiu:
-  Entendido?
-  Claro, no sou surda.
-  Graas a Deus ao menos por isso. S faltava mais essa, no poder andar e no poder ouvir.
-  Voc est enganado no que disse h pouco, amigo. Voc  que se intrometeu em minha vida. E eu lhe agradeceria se ficasse o mais invisvel que pudesse at Thomas 
aparecer para vir apanh-lo.
Neil levantou-se e aproximou-se dela.
- Ficar invisvel? E pode me sugerir como poderei satisfazer esse seu desejo?
Ele foi se chegando aos poucos. Mesmo descalo, era bem mais alto que Deirdre. Teimosamente, ela procurou no se amedrontar encarando-o com firmeza, recusando se 
acovardar.
-  Por agora, limpe a cozinha quando terminar de comer - disse ela.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Eu iria fazer isso de qualquer jeito, quando terminasse.
-  Depois - Deirdre prosseguiu -, v explorar a ilha.
-  Com toda essa chuva?
Ignorando o protesto de Neil, ela continuou:
-  E depois, pegue suas coisas e mude-se para um dos outros quartos.
Com voz bem mais suave, ele disse:
-  No gostou do modo como a tratei ontem  noite?
A pergunta pairou no ar, sem resposta. No pelo fato de as palavras serem chocantes, ou particularmente sugestivas, mas algo sobre a proximidade dele fez Deirdre 
ter necessidade de esforo para respirar. Sim, Neil era grande, porm isso tampouco a perturbava. Sim, ele era ousado, e da? Mas parecia..., parecia tambm... ardente... 
carinhoso... envolvente.' Parecia?
Neil, por sua vez, ficou momentaneamente perplexo ante a prpria reao. Quando chegou mais perto de Deirdre no esperara... o qu? Que ela tivesse um aroma to 
suave, to feminino? Que as sardas quase transparentes que tinha no nariz fossem to atraentes? Que seus olhos fossem to castanhos, olhos de mulher?
Engolindo em seco deu um passo atrs e comeou a pr ordem na cozinha.
-  Como est sua perna hoje? - perguntou.
-  OK - Deirdre respondeu, procurando ser lacnica.
-  Nada pior do que ontem?
-  Nada.
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O MUNDO NOS SEPARA
Ele continuou com seu trabalho, guardando na geladeira o resto do leite e do suco.
Deirdre suspirou, surpreendida por estar to trmula.
- Ah, eu... eu tentei falar com Thomas - disse.
-  Ele no estava em casa.
-  Eu sei.
Ento, Neil tambm tentara. Ela devia ter imaginado isso. Mancando, apoiada nas muletas, foi at o balco e encostou-se na beirada.
- Precisamos encontrar uma soluo - declarou.
-  Concordo.
-  Tem alguma idia?
Com a cabea escondida atrs da porta aberta da geladeira, Neil falou com muita clareza:
-  Voc sabe o que penso. Sim, ela sabia e respondeu:
-  Ento, empatamos.
-  Parece que sim.
-  Na minha opinio, a melhor coisa a se fazer  deixar o problema para ser resolvido por Vitria
-  Deirdre opinou.
A porta da geladeira foi fechada. Neil endireitou o corpo, ps uma das mos na cintura.
-  Mas, se no conseguimos nos comunicar com Thomas, como poderemos ter algum contato com Vitria, ns aqui nesta ilha? - Neil indagou.
- Precisamos continuar tentando atravs do rdio.
-  E neste meio tempo?
- A soluo  continuarmos brigando. - Ela sorriu. Neil fitou-a, perplexo. Era a primeira vez que a
via sorrindo. Seus dentes eram pequenos, brancos e muito iguais; os lbios suaves, generosos, polpudos.
-  Voc gosta de brigar, no?
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O MUNDO NOS SEPARA
- Nunca briguei antes mas, sim, gosto de brigar com voc - ela concordou, erguendo a cabea em atitude desafiadora. - Gosto, realmente gosto - repetiu.
- Voc  muito estranha, mulher - ele sussurrou enquanto punha as panelas sujas na pia, com fora desnecessria. - Muito estranha.
- Mais do que voc?
-  No tenho nada de estranho.
- Est brincando? No discuti em vo. Voc mesmo admitiu, Neil, que gostava de me provocar.
Ele comeou a colocar sabo liquido na esponja.
-  D-me uma pausa, sim? - pediu.
- D-me voc uma pausa, e ande mais depressa com essa loua. Estou esperando pela cozinha, esqueceu? H vinte e quatro horas no como e...
- E de quem  a culpa? Se tivesse ficado em sua casa, no teria perdido nenhuma refeio.
-  Talvez no - Deirdre concordou. - Mas, se tivesse ficado em casa, estaria louca agora!
Neil fitou-a. Deirdre fitou-o. O problema parecia ser bem claro. Neil resistiu ao desejo de indagar qual o motivo pelo qual ela deixara o lar. Mas Deirdre queria 
que ele lhe perguntasse, para ter o prazer de brigar.
Porm Neil no perguntou. Enfim, no tinha muito interesse em saber por que Deirdre fugira de casa. No queria pensar em problemas de outras pessoas. No queria 
sentir compaixo por aquela estranha menina-mulher.
Terrivelmente desapontada ela levantou-se, ajustou as muletas sob os braos e foi para a sala. Esse era o maior cmodo da casa; mas, apesar de muito grande, tinha 
o aspecto acolhedor das saletas nti-
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mas. Pinheirais escuros e frondosos desenhados nas paredes recobertas de madeira clara davam um toque original  decorao; havia caibros expostos; uma mesa baixa, 
grande, um sof e poltronas macias completavam o conforto da sala, como tambm enorme lareira de tijolo  vista. Como gostaria de ter a lareira acesa, ela refletia.
Apreciando o ambiente, comeou a sonhar. A sala, a casa, a ilha, tudo enfim possua grande potencial para romance. Distante quilmetros da civilizao..., um retiro 
isolado..., o crepitar das chamas misturado ao rudo da chuva... O momento certo com o homem certo seria maravilhoso. Ela podia entender a razo pela qual tantas 
amigas de Vitria se encantaram com o lugar.
-   toda sua - Neil disse. Momentaneamente confusa Deirdre franziu a testa. - A cozinha  toda sua. Achei que voc estava morrendo de fome.
A cozinha...                                                                         I
- Estou, sim, morrendo de fome - confirmou ela. |
-  Ento a cozinha  toda sua.
-  Obrigada.
-  H caf pronto no bule. Sirva-se  vontade.
-  Obrigada.
Enquanto ela se movimentava saindo da sala, ele disse:
-  Fiz o caf bem forte. Alguma objeo?
- O que acha? - ela perguntou, aps uma pausa.
-  Acho que sim, que h objees. Como poderia no haver?
-  E verdade. Gosto de caf fraco.
-  Acrescente gua.
-  Fica horrvel - ela declarou.
-  Ento faa outro bule para voc.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Farei. - Deirdre fitou Neil que estava a poucos centmetros de distncia. Situao perigosa. - Se voc no se importa...
Deirdre foi para a cozinha a fim de preparar sua refeio pela primeira vez em uma semana.
Seria um desafio. Comeou por tirar coisas da geladeira e logo descobriu que no iria ser fcil segurar as muletas e cozinhar ao mesmo tempo. Ficou diante da geladeira 
equilibrando-se na porta e tirando um ingrediente, depois outro, mais outro, e pondo-os em cima da mesa. Depois de pegar o que necessitava, transferiu tudo para 
o fogo. Uma das muletas caiu. Apesar da dor conseguiu peg-la. Mas derrubou-a de novo ao se levantar.
Para uma mulher que se orgulhava em fazer tudo com a maior economia de movimentos, essa experincia foi uma frustrao. Enfim, ela resolveu pr de lado as muletas 
e andar pela cozinha apoiando-se nos mveis e no fogo. Aps cada passo pensava com tristeza em como fizera as coisas facilmente antes. Quando terminou de colocar 
o omelete de queijo na frigideira, estava quase em pranto.
Sentado confortavelmente no sof da sala, Neil pensava nas dificuldades que Deirdre estaria enfrentando. Mas, bem feito, dizia a si mesmo. Devia ter ficado em casa. 
O que lhe teria acontecido que a deixaria louca se no tivesse fugido? Ele riu ao se lembrar de que tinha suas prprias preocupaes, e que no eram pequenas.
Ao rememorar o que se passara, ficou de mau humor. Nada mudara aps sua chegada na ilha. A situao continuaria a mesma em Hartford no importando quanto tempo ele 
ficasse longe da cidade. Precisava pensar no futuro. Tinha de analisar sua
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O MUNDO NOS SEPARA
carreira, suas conquistas e aspiraes. Precisava decidir quanto ao andamento de suas atividades.
At o presente, contudo, no sabia como agir.
O som de um copo quebrado chamou-o de volta  realidade.
-  Que diabos... - Levantou-se e entrou na cozinha em segundos.
Deirdre agarrava-se no fogo com uma das mos e segurava a testa com a outra. Olhava para o copo quebrado em cima do suco de laranja esparramado no cho.
-  O que h com voc? - ele gritou. - No pode fazer a mais elementar das tarefas caseiras?
Com os olhos cheios de lgrimas ela respondeu:
-  No, no posso. E estou muito desapontada por isso.
Ela apanhou uma esponja na pia e ajoelhou-se com a perna boa.
-  Deixe-me fazer isso - Neil resmungou. Porm ela ergueu a mo, protestando:
-  No, eu fao! - Um a um Deirdre recolheu os cacos de vidro.
Neil no insistiu. A mulher era mesmo teimosa. E independente. E um tanto tola. Seu equilbrio era precrio. Ele enxergava-a perdendo o balano a qualquer momento 
e caindo sobre os pedaos de vidro.
Apavorou-se.
Pegou ento toalhas de papel e, ajoelhando-se, empurrou-a para o lado e limpou o cho.
-  No adianta chorar sobre o leite derramado - ele disse amavelmente.
-  suco de laranja, no  leite e no estou chorando - Deirdre declarou, levantando-se. Seu corpo todo doa e ela horrorizou-se ao constatar como ficara
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fora de forma em apenas uma semana. - Voc no precisa fazer isso.
- Se eu no fizer, o estrago ser ainda maior.
- Posso tomar conta de mim mesma! - protestou ela, virando-se para o fogo. O omelete estava quase queimado. -Maldio! - Apanhando uma esptula dobrou-o ao meio 
e apagou o fogo. - Um omelete chamuscado. Que beleza! S faltava isso. Diabos! Por que tudo me acontece?
Neil jogou as toalhas de papel usadas no lixo e pegou outra.
- Maldizer no ajuda em nada! - disse.
- Duvido! - Os olhos dela brilhavam de dio. - Sinto-me muito melhor quando praguejo. E farei isso sempre que tiver vontade. Sempre que me der prazer.
- Ora, ora. No  que voc est mesmo em terrvel estado de choque? - disse ele.
-  Sem dvida. E voc no faz nada para me ajudar.
- Estou limpando a cozinha, no estou?
- S para me fazer sentir como uma pobre aleijada. J lhe disse que poderei limpar esta cozinha. No estou totalmente incapacitada. Maldio!
Ele suspirou.
- Nunca ningum lhe falou que uma dama no deve praguejar?
- Oh, claro que sim - Deirdre disse. - Minha me, meu pai, minha irm, meus tios. Durante anos tive de ouvir as mesmas repreenses: "No fale assim Deirdre." "No 
faa isso, Deirdre." "Deirdre, sorria e seja agradvel s outras pessoas." Ou, "Comporte-se como uma dama, Deirdre." - A voz dela voltou ao normal apesar de a raiva 
continuar: -
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Bem, se o que eu fizer no for muito distinto, pacincia! Mas quando eu quiser praguejar, praguejo!
Com essas palavras Deirdre sentou-se dando as costas para Neil.
Silenciosamente ele acabou de limpar o cho. Encheu um copo de suco, torrou uma fatia de po e espalhou sobre ela uma camada de gelia. Ps tudo diante de Deirdre.
-  Quer o omelete? - perguntou.
-  Quero.
Neil observava-a.
-  Voc mora com sua famlia?
Ela acabou de comer o que tinha na boca e respondeu:
-  Graas a Deus, no!
-  Mas mora perto.
-  Sim, e esse foi meu grande erro - Deirdre confessou. - Eu devia ter me mudado para bem longe h anos. At a Califrnia seria perto demais. O Alasca talvez fosse 
melhor. O norte do Alasca.
-  A coisa  to m assim?
- . - Ela tomou um gole do suco. Preocupou-se com o efeito que o lquido gelado provocou em sua garganta. Sentiu um pouco de dor. Estaria com um comeo de resfriado? 
No se surpreenderia, caso fosse verdade, considerando-se o tempo mido da ilha e a chuva que apanhara na vspera. Ou talvez se contaminara no hospital. Mais provvel. 
Hospitais estavam sempre cheios de vrus; quem sabe fora contagiada. - Mas, por que est sendo to amvel comigo? - perguntou a ele.
-  Talvez no fundo eu seja um "car legal".
-  Legal? Voc  um homem que est sempre de mau humor, um homem agressivo.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Ah,  assim? - Neil protestou.
E saiu imediatamente da cozinha voltando para a sala onde sentou-se enquanto Deirdre terminava de tomar o caf da manh que ele lhe preparara. Ouviu-a depois lavando 
a oua e se perguntava que tipo de mulher seria Deirdre. Sabia tudo sobre si mesmo, no tinha em geral mau humor. Apenas no momento era vtima das circunstncias. 
Aconteceria isso com ela? Seria Deirdre tambm vtima de circunstncias desagradveis?
Teve curiosidade em saber que idade tinha ela.
Quando Deirdre acabou de comer e de limpar a cozinha, sentiu-se melhor. Seu corpo reagiu bem aps alimentado. Apesar do aspecto desagradvel do omelete escuro, comeu-o 
todo. Na verdade, estava um pouco tostado demais, no queimado. Afinal, ovos continham protenas e ela necessitava de protenas.
Voltando  sala viu logo Neil escarrapachado numa poltrona. No, no gostava dele e mais do que nunca desejava-o longe dali. Neil presenciara sua fraqueza e isso, 
acima de tudo, a embaraava.
No podia negar que s vezes suspeitava que ele fosse um bom rapaz. Ajudara-a na noite anterior, no ajudara? Ajudara-a pela manh. Ele devia ter seus prprios problemas; 
e, quando esses problemas ficavam mais vivos em sua mente, ficava mal-humorado; to lacnico, to rude quanto ela. Seria Neil um desajustado tal qual s vezes ela 
se imaginava ser?
Questionava-se o que Neil fazia para viver.
Segurando fortemente as muletas foi  janela e depois sentou-se no sof. Podia visualizar um mundo inteiro alm da casa. A ilha estava cinzenta e mida;
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O MUNDO NOS SEPARA
dava a impresso de que o arvoredo fazia esforo para dar vida ao cenrio, mas em vo.
- Que dia horrvel - Neil resmungou.
- Hum...
- Tem planos para hoje?
- Francamente - ela respondeu dando um suspiro -, eu estava pensando em me arrumar para ir ao teatro.
Neil sacudiu a cabea e resolveu tomar parte na brincadeira.
- As entradas foram todas vendidas. S h lugares em p e, com a perna quebrada, voc no agentaria.
-  Obrigada pela ateno, amigo.
- No fique aborrecida. A pea no  muito boa.
- E qual  o melhor programa que voc sugere para hoje? - ela indagou.
Se pretendia ser amarga, Deirdre refletiu, que ao menos fosse da maneira certa. Por natureza era pessoa otimista, procurando sempre amenizar os fatos negativos da 
vida. Mas agora, havia fatos negativos em demasia em sua vida. E, para variar, decidiu queixar-se achando que tinha direito.
- No posso me lembrar da ltima vez em que vi uma boa pea ou um bom filme - ela observou. - Muitos so detestveis. Algumas histrias so to dramticas que voc 
tem vontade de chorar, outras to absurdas que voc no entende o que est acontecendo ou o que vai acontecer. Os artistas no convencem, a msica  pssima, a atuao 
pattica. Ou talvez o problema seja da direo. Por exemplo, Travolta poderia ter sido excelente em seu ultimo filme. Foi perfeito quase at o fim. Mas o diretor
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exagerou tanto na filmagem da plvis do rapaz que estragou todo o filme.
- Bem, no sei o que responder - NeiJ comentou. - Francamente, no sou perito em quadris de homens, muito menos nos quadris de Travolta.
-  Viu alguma coisa interessante nestes titimos tempos?
-  No que se refere a quadris de homens? -No, no que se refere a cinema.
-  No tenho tempo de ir ao cinema - NeiJ confessou.
- Nem eu. Contudo, quando h aJgo que desejo mesmo ver, um fiime, uma exposio artstica, um concerto, arranjo tempo. Voc nunca faz isso?
- No caso do beisebol, sim.
Deirdre se perguntou se eie tomava parte nos jogos. NeiJ tinha estatura e fsico perfeitos para esse esporte.
-  Que time? - perguntou.
-  O CeJtics.
-  Voc  de Boston?
-  No. Mas estudei J. Agora vou para Boston sempre que consigo entradas para os jogos. Tambm fao paJestras na cidade de vez em quando.
-  Que tipo de paJestras? - perguntou eJa.
- Mercado de capitais. Sabe, paJestras para po-Jticos ou homens de negcios. Kissinger, Iacocca...
- Aposto que ouve tambm discursos de homens de morai duvidosa. - Deirdre semicerrou os oJhos e esboou um sorriso irnico.
-  Nunca fiz isso. - NeiJ sacudiu os ombros. - Mas poderia, por que no?
- Mesmo sendo esses homens criminosos? Mesmo tendo eJes passado parte de suas vidas na cadeia?
O MUNDO NOS SEPARA
-  Por que no? Pagaram o preo, no acha?
- Muitos escreveram at livros, novelas para TV. No acha que d para pensar que o crime compensa?
- Sim, parece que sim - Neil concordou, pensativo. Momentos atrs a conversa havia sido puramente
ocasional. Agora, de repente, tomava outro rumo.
-  E voc paga para ouvir uma pessoa falar de suas experincias do outro lado da lei?
Sim, ele pagaria, e diria que o orador estava prestando um grande servio narrando suas experincias. De repente, pensou nas experincias que tivera em Wittnauer-Douglass 
e sentiu que seu dio crescia de novo.
-  Voc fala demais - ele sussurrou. Deirdre desapontou. Esperava que Neil brigasse,
discutisse ou concordasse. Mas ele simplesmente cortava o debate abruptamente.
- O que foi que eu disse de errado? - indagou ela.
- Nada, nada importante - Neil respondeu, aco-modando-se melhor na poltrona. - Nada importante.
- Hum... No momento em que uma mulher atinge seu ponto fraco, voc a afasta dizendo "nada importante."
- No quis falar que no havia nada importante em sua pessoa, mas no que voc disse.
- No vejo muita diferena nas duas consideraes. Voc  machista, machista e covarde.
Neil levantou-se, protestando:
-  Com os diabos, deixe-me em paz, sim? Tudo o que desejo  ficar aqui quieto, pensando em meu problema.
- Foi voc quem comeou a falar, antes de mim.
-  Tem razo - Neil concordou. - Estava tentando ser amvel.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Obviamente, no funcionou.
- Teria funcionado se voc no tivesse estragado tudo com sua vontade de brigar
nrZZ EAUA estra^ei tudo? ~ ^dagou Deirdre, surpreendida^ - Estvamos tendo uma simples discusso sobre a tica envolvida em se dar apoio financeiro a criminosos 
polticos. Foi quando voc perdeu o controle. Eu lhe fiz uma simples pergunte Tudo o que voc deveria ter feito era me da? Uma simples resposta.
ber^of^ ^n1fVlue n0 s" a resposta! - ele berrou. -Nao tenho respostas para muitas coisas ultimamente, e estou ficando louco por causa disso Comprimindo os lbios, 
Ne olhou para Deirdre Depois deu meia volta, saiu da sala e foi para a saleta"
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CAPITULO IV
Com a sada de Neil, a sala ficou subitamente silenciosa. Deirdre ouvia-o falando no rdio; ele tentava se comunicar com Thomas mais uma vez. E ela rezava, esperando 
que Neil conseguisse, para o bem de ambos. Ela e Neil eram como leo e gua; no misturavam bem.
Aproveitando a oportunidade de ter a sala s para si, deitou-se confortavelmente no sof, fechou os olhos e imaginou estar sozinha na casa. Tudo lhe parecia to 
quieto, to quieto! Nem o suave barulho da chuva, nem o rudo do vento perturbava essa aura de paz. Mentia a si mesma convencendo-se de que preparara o caf da manh 
sem o menor esforo, que transportara suas coisas do barco de Thomas para a casa com a maior facilidade. Em seu mundo de sonho no precisara de auxlio; a perna 
quebrada estava boa como nova.
Mas esse era apenas um mundo de sonho. Na mundo real precisava de auxlio, e Neil Hersey estava l. Pensava em como as coisas seriam se ele tivesse melhor gnio. 
Neil era bonito, apesar de rude. Era forte. Ela lembrava-se do brao vigoroso que a erguera ao lhe trazer as aspirinas. Lembrava-se do trax amplo onde apoiara a 
cabea. Neil era um
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O MUNDO NOS SEPARA
homem auto-suficiente e bastante capaz; cozinhara para si e limpara a desordem que ambos fizeram, sem reclamar.
Possua grande potencial, sem dvida. Mas tambm tinha seus momentos de mau humor. Nessas ocasies, devido  instabilidade emocional dele, Deir-dre procurava ficar 
o mais longe possvel.
Enquanto refletia, sonhando, imaginando, suas plpebras foram se fechando aos poucos e ela adormeceu. Acordou uma hora mais tarde, num sobressalto. Sonhava. Com 
Neil. Um sonho lindo. Mas um sonho que a perturbou. O fato de ter dormido a aborrecera, pois dava provas de fraqueza fsica, coisa que detestava. Dormira quatorze 
horas na noite anterior. No fora suficiente? E sonhar com Neil? Era o cmulo do absurdo. E que sonho!
Acertara em seu critrio inicial sobre ele; Neil estava to perturbado quanto ela. Porm, percebendo que se preocupava demais com os problemas de seu companheiro 
forado, resolveu afastar esses pensamentos. Tinha seus prprios dissabores, no precisava dos de outros.
Precisava, isso sim, de uma boa xcara de caf. Depois do fracasso de seu caf da manh, no teve coragem e nem desejo de se ocupar do caf. Agora, a idia de tomar 
algo quente e aromtico era tentadora.
Foi  cozinha, pegou o bule e constatou que havia um resto de caf. Quis jogar fora mas achou que seria desperdcio. Acendeu o gs e levou ento o bule ao fogo.
Nesse mesmo tempo Neil se encontrava na saleta, olhando a chuva pela janela e tentando se analisar. Foi para a sala.
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O MUNDO NOS SEPARA
Deirdre Joyce era uma pedra em seu sapato. Ele queria estar s, mas l se achava ela. J passava das duas horas da tarde e ainda no conseguira falar com Thomas, 
o que significava que Deirdre ficaria na ilha mais uma noite pelo menos.
O que o incomodava acima de tudo eram as imagens que surgiam de maneira sarcstica em sua mente. O suave, o flexvel dorso de mulher..., a cintura fina..., a curva 
dos quadris..., o estranho perfume..., os cabelos bastos e brilhantes da cor do trigo maduro... e no castanhos como de incio imaginara. O rosto dela tambm o perseguia. 
Deirdre tinha lindos olhos castanho-claros, um pequeno nariz delicado, lbios que continham uma promessa quando sorriam.
Mas verdade seja dita, Deirdre raramente sorria. Tinha problemas. Era mais uma razo para ele querer ficar sozinho. De problemas estava farto. Porm... por que motivo 
pensava em Deirdre de um jeito como se a achasse atraente?
- Oh, com licena. Posso entrar? - Ela estava na porta da sala.
Neil virou a cabea. Cus, aquele traje verde musgo era tentador. Naturalmente Deirdre ainda parecia uma baleia. Mas, e da?
-  O que deseja? - perguntou ele.
- Esquentei o resto de caf do bule, mas  muito forte para mim. Por isso lhe trouxe. - Segurando a muleta contra o corpo, estendeu-lhe uma xcara de caf fumegante.
Neil ficou de sbito cauteloso. Era a primeira tentativa que ela fazia para ser amvel. Depois de todos os desentendimentos, no havia razo para tanta gentileza. 
Deirdre devia estar querendo alguma coisa.
O MUNDO NOS SEPARA
-  Por que isso agora? - indagou Neil.
-  Por que o qu?
-  Por que voc esquentou o caf?
- J lhe disse. Achei que voc gostaria de tomar uma xcara de caf.
-  Mas nunca se preocupou com minhas preferncias antes. - Neil estava atnito.
-  E continuo no me preocupando. Achei que era uma pena jogar fora todo o caf.
- Ah, quer preparar um caf fresco, por isso passa a "droga" para mim. E isso?
- No  verdade. - Ela no esperara tanta inimizade a uma tentativa sua de ser amvel. - Voc mesmo ofereceu essa "droga" para mim e agora de repente no a considera 
boa para voc.
-  No disse que caf requentado no era bom para mim. - A voz de Neil soava amvel, apesar de um qu de ao mal disfarado. - Esquento caf o tempo todo para ganhar 
tempo. E concordo,  uma pena jogar fora. O que me surpreende  esse seu gesto de boa vontade. Deve haver uma segunda inteno a por trs.
-  Cus, voc foi alguma vez enganado por uma mulher?
-  O que quer dizer com isso?
-  Para um homem suspeitar tanto de mulher com certeza foi usado por uma, e mal usado - Deir-dre afirmava com convico.
Neil pensou no caso durante alguns segundos. Engraado, nunca lhe ocorrera antes, mas ele fora de fato usado. Nancy havia sido habilidosa, astuta, e bastante sutil. 
Somente agora percebia que ela muitas vezes lhe fizera pequenas concesses por interesse, quando queria algo para si. Tudo isso fazia
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O MUNDO NOS SEPARA
parte da natureza do amor interesseiro que Nancy lhe dedicara; mas ele no enxergara nada na ocasio. Como tambm no calculara o potencial da traio da Wittnauer-Douglass.
-  A histria de minha vida no  de sua conta
-  ele resmungou, irritado.
-  Tudo bem. S quero que voc saiba que me custou enorme esforo trazer aqui este maldito caf sem derrubar. E, se quer saber da verdade, minha maior motivao 
foi descobrir onde voc estava a fim de evitar sua companhia. - Ela praticamente jogou a xcara de caf sobre a mesa mais prxima.
- Tome isto ou jogue pela janela. No me importo. Deirdre deu um passo na direo da porta mas
no to depressa para conseguir esconder a expresso de mgoa de seu olhar.
-  Espere - ordenou Neil. Ela parou, perguntando:
-  O que h agora? Pretende me insultar mais um pouco?
- No  essa minha inteno, de forma alguma. Reconheo agora que fui enganado por uma mulher e no  justo derramar minha ira contra voc.
-  Parece-me que j vem descontando muito de sua ira em mim; concorda? - ela queixou-se.
- E vice-versa. Precisa admitir que no tem sido a melhor das companhias.
-  que tenho... outras coisas em mente - Deirdre confessou.
Neil deu um passo  frente e disse:
-  Eu tambm tenho... outras coisas em mente. Por isso explodi. Gritar com voc me fez bem. Talvez no seja justo, mas que me senti bem,  verdade.
-  Fale-me sobre seus problemas - pediu ela.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Tenho a impresso de que toda minha vida sempre foi regida pela razo e pelo controle pessoal. Nunca antes agi violentamente como agora, e por coisas muitas vezes 
pequenas.
- Pequena como o fato de eu querer usar o quarto principal?
-  No, isso no. Isso no  coisa pequena mas coisa prtica, minha cara.
- Ento, por que tanto calor na briga? Afinal de contas, o quarto  gelado enquanto o resto da casa  quente. Voc conserva o termostato baixo no quarto de propsito, 
no ?
-  J lhe disse, gosto de quarto mais para frio do que para quente.
-  Bem, mas eu gosto de quarto quente. E no me mande ocupar um dos outros quartos, porque no irei. Voc logo vai embora e...
-   voc quem vai embora - Neil protestou de pronto. - O nico problema  que Thomas ainda no voltou e desconfio que sua volta ser adiada at amanh.
-  Minha impresso  de que Thomas est nos evitando.
-  Pensa nisso tambm? - Neil indagou.
- Penso. O que quer dizer que estamos encalhados aqui. - Deirdre olhou ao redor. - Claro, a casa  linda e confortvel. Veja! - Ela apontou para uma parede, depois 
para outra. - H centenas de livros  nossa disposio, um estreo, um vdeo-cas-sete, um aparelho de TV...
-  A recepo de TV  pssima. Tentei assistir. Foi impossvel.
- Eu no perco nada. Detesto televiso.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Da mesma maneira como detesta cinema? - Neil indagou sorrindo.
-  No disse que detestava cinema, s disse que ultimamente os filmes tm sido horrveis. O mesmo  verdade quanto  TV. Quando no  um programa cansativo,  uma 
aventura violenta ou, pior ainda, uma novela idiota.
-  Menina cheia de opinies voc, no?
-  Sim, sou. - Deirdre segurou as muletas com mais fora. - E estou disposta a manifestar todas as minhas opinies.
Neil estava mais do que curioso em saber qual seria a prxima opinio dela e sobre o qu. Pegou a xcara de caf e inclinou-se numa das estantes bastante perto de 
Deirdre para sentir o aroma que emanava de seu corpo.
-  Continue - ele pediu. - Sou todo ouvidos.
Deirdre, tambm, estava consciente da proximidade de Neil, do movimento dos ombros, do comprimento das pernas. Consciente do fato de que ele era o homem mais viril 
que j conhecera. Um rubor subiu-lhe ao rosto e ela sentiu um n na garganta.
Confusa, enterrou-se no sof.
- O que mesmo eu estava dizendo? - perguntou.
- Estava dando sua opinio sobre a moderna TV.
-  Oh, lembrei. - Deirdre respirou fundo e finalmente disse: - Odeio minissries.
-  Por qu?
- Estragam os livros que adaptam para as novelas.
- No sempre.
-  Freqentemente. E as novelas so duas vezes mais longas do que deveriam ser. Repare na introduo. Os produtores matam quinze minutos anun-
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ciando o elenco, depois outro tanto resumindo o que houve no captulo anterior. Bem, os telespectadores na maioria sabem o que houve no captulo anterior e  uma 
perda de tempo repetir tudo. - Ela demorava-se no assunto, divertindo-se com a prpria perversidade. - Mas o pior da televiso est nos noticirios.
-  Gosto dos noticirios - protestou Neil.
- Eu tambm. Porm acontece que o que chamam de "furo" de reportagem no tem nada de novo. Outras estaes j deram a mesma notcia. E, quanto s previses do tempo, 
so ridculas. Nunca do certo e, quando do,  porque admitem todo o tipo de tempo. Claro, um ir acontecer.
-  Talvez seja melhor voc se orientar pelos jornais - Neil sugeriu.
-  E o que fao.
-  Que jornal costuma ler?
-  O Times.
-  De Nova York? - Neil queria descobrir a conexo entre ela e Vitria. - Voc mora l?
-  No. Moro em Providence.
-  Ah, Providence. Pequena metrpole.
-  O que h de errado sobre Providence?
- Nada que um macio terremoto no consertaria. - Era uma comparao exagerada mas que lhe dera satisfao em fazer.
-  Voc no deve saber nada sobre Providence e muito menos sobre Rhode Island, por isso condena toda a rea - ela aventou.
-  Oh, no sei muito acerca de Providence. Tive um cliente l h dois anos em pleno vero e o ar condicionado no funcionava no local. Tratava-se de um restaurante 
em arranha-cu. Mas nem isso pude
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usufruir. O servio era pssimo, a comida horrvel. Para rematar, um maldito bateu em meu carro no estacionamento e eu tive de pagar o conserto; meu cliente esperou 
seis meses para acertar as contas comigo.
-  Que tipo de cliente? - perguntou Deirdre.
-  Sou advogado.
- Advogado?! Ento est acostumado a lidar com criminosos?
-  No sou advogado criminalista. - A ruga em sua testa ficou mais profunda ao acrescentar: - Trabalho com Sociedades Annimas.
- Isso  ainda pior. Odeio Sociedades Annimas.
-  Voc odeia quase tudo, me parece.
Deirdre encarou-o fixamente. Ele a desafiava, fazendo perguntas sobre sua personalidade e forado-a a falar mais do que desejava.
- No! - disse. - Apenas estou pondo para fora pequenas perversidades. No fao... no posso fazer isso com freqncia.
-  O que faz quando no pode?
-  Engulo -r- respondeu ela.
- Mas, qual  sua atividade? Trabalha, no? Toda mulher moderna trabalha. - Ele sorriu com ironia.
- No vejo nisso razo para sarcasmo. - Deirdre franziu a testa.
- OK. Voc tem jeito de se orgulhar de ser mulher moderna. O que faz para viver?
Bem devagar Deirdre juntou as muletas. No poderia lhe contar o que fazia; daria a Neil um prato cheio para zombarias. Por isso levantou-se, e respondeu:
-  O que fao, no  de sua conta.
-  Mas eu lhe contei o que fao.
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- E eu lhe contei onde moro. Portanto, estamos quites. - Apoiando-se nas muletas ela dirigiu-se  porta.
-  Quero saber que tipo de trabalho faz - Neil insistia.
-  Trabalho pesado.
Neil seguiu-a, provocando-a:
- Aposto que no trabalha e que  moa mimada, parente de alguma amiga rica de Vitria.
-  Acredite no que quiser.
-  E aposto que est aqui mas que realmente gostaria de estar em Monte Cario. Contudo papai cortou-lhe a mesada e voc resolveu ser hspede de Vitria, sem despesas.
-  Papai cortou-me a mesada? - Ela parou no meio do caminho. - Pais ainda do mesadas a filhas de vinte e nove anos?
Neil ficou atnito.
- Vinte e nove anos? Est brincando!
-  No, no estou brincando.
-  Eu no daria a voc mais do que vinte e trs, talvez vinte e quatro. Mas vinte e nove? Tem bastante idade para ter se casado pelo menos ma vez. - Neil continuou 
seguindo-a e acrescentou: - Confesse que est fugindo de um marido que batia em voc. Foi ele a causa dessa perna quebrada?
-  No!
-  Mas h um marido no cenrio, no h?
-  Voc no deve conhecer Vitria muito bem. Ela nunca nos jogaria aqui juntos se um de ns dois fosse casado.
Neil conhecia bem Vitria, e concordava com Deirdre.
-  OK, ento. Mas j foi casada; acertei?
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- No.
- Mora com algum? - Ante o olhar furioso de Deirdre ele emendou: - OK, OK, no mora com ningum, apenas quebrou a perna por culpa dele e veio aqui para chorar suas 
mgoas.
- Errado mais uma vez.
Ela e Seth, seu amigo, haviam se separado h quatro meses j, portanto no havia mgoas a chorar. Mas isso lhe parecia um questionrio policial que a fazia lembrar 
um pouco a discusso no barco tendo Thomas como observador. Ou talvez se assemelhasse a um desses programas de televiso de perguntas e respostas, quando o auditrio 
era convidado a adivinhar a soluo. No caso de algum acertar, todos batiam palmas. Triste. Muito triste. Ridculo.
Neil estava bem perto dela. Observava-lhe as mos, bem formadas, graciosas, os dedos longos. Havia algo quase romntico nos movimentos daquelas mos. Ele ergueu 
o olhar mais para cima e notou os ombros e pescoo elegantes e muito femininos. Esquisito, no percebera nada daquilo antes...
Deirdre o fitava com seus enormes olhos castanhos. Seu pulso comeou a acelerar. Deu-se conta de que jamais vira tamanha virilidade num homem; tanto os cabelos como 
a barba de Neil tinham vida, o nariz era bem msculo e os lbios rijos. Quase quis toc-los... Quase...
AgaiTou as muletas.
- Neil? Preciso ficar um pouco sozinha. No estou acostumada a ter sempre algum comigo na casa.
- Tudo bem. Vou dar uma volta.
Deirdre esperou at ele sair e sentou-se de novo. Vou dar uma volta. Na chuva? Ela ficou  escuta,
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mas no ouviu a porta de entrada abrir e nem fechar. Ento, Neil s podia estar dando voltas pela casa. De qualquer forma, era uma atividade como qualquer outra, 
prpria para um dia de chuva. Quando iria acabar aquela chuva? A ilha prometia ser linda num dia de sol. Ela adoraria sair a fim de procurar um rochedo bem alto 
onde pudesse se sentar para relaxar.
Surpreendentemente, ao pensar nisso, descobriu no estar to tensa, ao menos no como quando sara de Providence. Apesar da agitao da viagem, da chuva, a mudana 
de cenrio lhe fizera bem. Claro, nada mudara em sua vida. Providence estaria l quando ela voltasse. Sua me estaria l, como estariam Sandra e os tios. Todos continuariam 
com a mesma tormenta a menos que ela imaginasse um meio de escapar.
Mas no pensara nisso ainda.
Foi  cozinha e preparou um caf. Podia j pisar no cho com mais firmeza usando a perna engessada, prova evidente de melhora. Carregar uma xcara de caf at a 
sala j passara a ser tarefa bem mais fcil. Ela andava devagar, claro, mas era bem melhor do que ficar numa cama.
Tomando o caf lentamente recostou-se no sof de couro. Trouxera em sua mochila vrios livros, novelos de l e agulhas de tric. Tambm um vdeo cassete e numerosos 
teipes. Porm nenhuma dessas diverses a atraa no momento. Sentia-se em situao provisria, como se no pudesse se instalar definitivamente antes da sada de Neil.
Porm... sairia ele? Sairia? No. Ao menos no de boa vontade. S se Vitria desse ordens expressas para isso. Coisa que ela no faria.
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Vitria fora muito esperta. Sabia estar lidando com dois teimosos. Sabia tambm que, uma vez na ilha, os dois teimosos estariam praticamente abandonados. Thomas 
Nye era a nica ligao deles com a terra firme, e Thomas, homem alerta e pronto para socorrer qualquer emergncia fsica, parecia surdo aos apelos emocionais dos 
hspedes de Vitria.
Num ato impulsivo Deirdre colocou a xcara de caf sobre a mesa e foi  saleta. A casa estava silenciosa. Ela queria descobrir o que Neil fazia. No voltara  sala, 
no se achava na cozinha, tampouco na saleta.
Talvez no quarto? No quarto principal? Ela foi at l. Neil estava deitado de costas com um joelho dobrado e o brao cobrindo os olhos.
Por sorte ele no a vira. Deirdre j ia saindo quando ouviu um rudo. Um som um pouco mais alto que uma respirao normal e mais baixo que um ronco. Sim, Neil definitivamente 
dormia.
P ante p ela foi para o lado da cama. O peito dele subia e descia num ritmo vagaroso e uniforme. Os lbios estavam ligeiramente abertos. Os dedos tinham movimentos 
intermitentes, como se acompanhassem as batidas do corao.
Ento, Neil era humano? No auge das brigas Deirdre negaria esse fato. Mas vendo-o agora, indefeso no sono, ficou impressionada. Ele devia estar cansado, tanto emocional 
como fisicamente.
O que teria Neil deixado para trs? Ele era advogado, boa profisso. Sara algo errado em sua carreira? Talvez suas dificuldades tinham a ver com alguma mulher. 
Quem sabe sofresse as conseqncias de um divrcio complicado, ou se preocupasse com os filhos do casamento desfeito.
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Deirdre sabia muito pouco sobre ele. Foram jogados juntos desde o momento em que chegaram a Spruce Head, e Neil simplesmente descarregara sobre ela toda sua irritao. 
Mas, quando brigava com Neil, ela no pensava na perna ou na ginstica ou na Joyce Empreendimentos. Apenas revoltava-se com a presena de um intruso.
Neil no era de todo mau. s vezes Deirdre achava que at gostava dele, sentia-se fisicamente atrada. Nunca em sua vida quase perdera o flego  aproximao de 
um homem; mas isso acontecera vrias vezes no caso de Neil. Para uma pessoa que sempre mantivera absoluto controle de suas emoes, a experincia pela qual passava 
era assustadora. E tambm excitante, de um certo modo...
Receosa de que Neil acordasse e a apanhasse em flagrante, silenciosamente saiu do quarto voltando para a saleta. Seus olhos pousaram no rdio. Aproximou-se, leu 
mais uma vez as instrues, depois deu as costas a tudo e foi para a sala afundando-se no sof. Ajeitando as almofadas sob a cabea, bocejou e fechou os olhos.
Era um dia calmo. O som da chuva hipnotizava, tranqilizava, conduzindo a pessoa a uma suave letargia. Deirdre surpreendia-se com sua fadiga mas acreditava que isso 
se devesse  debilidade fsica. A tenso pela qual passara em Providence era tambm a causa de seu desnimo.
Precisava de um descanso, dizia a si mesma. Seria bom para ela. No era essa a finalidade de ter ido a uma ilha deserta? Logo se sentiria mais forte e depois leria, 
faria tric, ouviria msica, praticaria esportes. Muito breve o sol apareceria e logo ela usufruiria o ar fresco da ilha.
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Porm, no momento, no fazer nada seria a melhor coisa.
Deirdre dormia placidamente quando, algum tempo mais tarde, Neil parou de sbito  porta da sala. Sentia-se ainda meio estonteado pois acordara minutos antes. No 
estava acostumado a dormir durante o dia; porm, no tinha nada a fazer... Claro, trouxera alguns livros e havia na casa teipes e uma coleo de filmes antigos. 
Contudo, no tinha vontade de nada daquilo. Se o tempo estivesse bom poderia passear um pouco pela ilha. Dormir fora o nico meio que encontrara para passar o tempo.
Racionalmente sabia que seriam necessrios vrios dias at se descontrair. Precisava de um bom descanso. Soubera o tempo todo que a soluo a seus problemas no 
surgiria diante de seus olhos sem mais nem menos, no momento em que chegasse  ilha. Apesar disso, esses problemas nunca lhe saam da cabea.
Ironicamente Deirdre era sua nica diverso.
Deirdre... Olhando para ela, mordeu o lbio. Vinte e nove anos...
Pensou na poca em que tinha essa mesma idade. Havia terminado os estudos de advocacia h quatro anos. Pagara a universidade com seu salrio de assistente numa grande 
firma em Hartford. O trabalho fora duro e montono. Cansado e frustrado, pedira demisso aps alguns anos indo trabalhar em outro escritrio. Servio igualmente 
difcil, duro, porm mais interessante.
Agora, dez anos mais tarde, quase com quarenta de idade, sentia-se derrotado, desiludido. Enxergava tudo muito claro, reconhecia seus erros... mas no conseguia 
divisar o futuro que o aguardava.
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Se Deirdre estava desiludida de tudo com vinte e nove anos, o que seria dela quando atingisse sua idade? O que desejaria ela da vida? O que j conseguira da vida?
Deitada de lado ali no sof, com as mos entre as coxas e uma face contra o travesseiro, era a imagem perfeita da inocncia. Parecia tambm estranhamente sexy.
Sexy? Como poderia ser, quando no havia nada em Deirdre para atrair um homem, ao menos nada que ela fizera com essa inteno. Deirdre no usava maquiagem, os cabelos 
despenteados no tinham coisa nenhuma de atraentes. A enorme roupa, fol-gadssima, escondia as formas femininas. Contudo... contudo... o tecido da cala cobria um 
traseiro arredondado - ele podia ver isso agora - e ela parecia ser quente e convidativa. Teve vontade de tom-la nos braos.
Sacudindo a cabea, foi  saleta, pegou o fone do rdio, franziu a testa e colocou-o de novo no gancho. Diabos, disse a si mesmo, Thomas no estaria em casa, conspirava 
com Vitria evitando se comunicar com qualquer um dos dois. A soluo seria descobrir um meio de coexistir em relativa paz com Deirdre.
Mas, que prazer haveria naquilo? O divertido era brigar com ela.
Sorrindo, foi  sala de jantar. Olhou para a lareira, apagada agora, ainda com as cinzas da vspera. Apanhou algumas achas num cesto ao lado e colocou-as na grade. 
Acendeu um fsforo e jogou-o na lenha. Em alguns minutos o fogo acendeu, crepitando. Ele sentou-se numa poltrona para observ-lo melhor.
Interessante, pensava, nunca fora ao campo antes com o fim de relaxar. Estivera na praia ao sul de
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Connecticut, em Cape Cod, em Nantucket. Fora s montanhas nevadas de Vermount. Visitara o Caribe e a Europa. Mas jamais havia ido a uma ilha isolada do resto do 
mundo. Jamais estivera na nica casa existente numa ilha, dependendo exclusivamente de si mesmo para atender s suas necessidades.
Nancy morreria naquele lugar. Ela gostava de comer fora ou de encomendar algo para jantar em casa. Gostava de tomar drinques com amigos. Exigia servio de lavanderia.
E Deirdre? Com uma perna quebrada e grande incmodo, fora  procura da solido. Talvez houvesse sido uma loucura, com aquela perna engessada, porm fora. Seria ela 
de fato uma mulher mimada que fugia de algo errado que acontecera em sua vida? Ou seria uma mulher auto-suficiente? Ele descobriria isso com facilidade quando Deirdre 
fosse arrumar a cama...
-  Lindo fogo!
Neil ergueu a cabea. L estava ela, apoiada no batente da porta, sonolenta e parecendo agora mais malevel, mais dcil. Neil sentiu um calor brotando dentro de 
si. Depois franziu a testa e perversamente perguntou:
-  Onde est sua outra muleta?
-  Na cozinha.
-  O que faz ela l?
Deirdre ergueu a cabea e respondeu, irritada:
-  Serve de apoio  mesa.
-  Mas devia estar sob seu brao. Voc  quem precisa de apoio.
-  Descobri que preciso apenas de uma muleta.
-  Se puser muito peso na perna quebrada, vai atrasar o processo da cura - ele explicou.
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-  Voc fala como se fosse um perito.
-  Um dia eu quebrei uma perna tambm.
-  Como?
-  Esquiando.
- Posso imaginar o que houve depois. - Ela sorriu, sarcstica. - Voc sentou-se com a perna esticada num pedestal, esperando as homenagens devidas a um heri ferido.
-  No foi bem assim. Mas o que fiz depois no interessa. O que voc faz agora  loucura. Seu mdico no aprovaria.
- Ela mandou que eu usasse de bom senso. Porm, o que voc tem a ver com minha loucura? No  meu guarda, ?
-  No, mas terei de tomar alguma providncia se voc cair e quebrar o gesso. Ou pior, se quebrar a outra perna.
- Se qualquer coisa desse tipo acontecer comigo, seu problema estar resolvido. Chamar Thomas e ele me levar embora daqui num abrir e fechar de olhos.
Neil achou que ela tinha razo. Mas resolveu mudar de ttica. Suspirou fundo, acomodou-se melhor na poltrona e ps os ps nus sobre a mesa de centro.
-  Mas eu no quero que ele venha buscar voc e a leve embora daqui. Decidi conserv-la comigo.
- Decidiu o qu? - O sorriso dos lbios de Deir-dre sumiu, como por encanto.
-  Decidi conserv-la comigo.
- Considerando-se que voc no me possui, essa sua deciso  ridcula.
- Voc entendeu muito bem o que eu quis dizer.
- Entendi. Decidiu permitir que eu ficasse aqui.
-  Isso - Neil confirmou.
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-  E se eu decidir que prefiro ir-me embora?
- Thomas no atender a nossos chamados. Portanto, essa hiptese est fora de cogitao.
- Concordo. O que significa que voc est  cheio de convencimento, Neil Hersey. No pode decidir sobre minha permanncia aqui, mais do que eu posso decidir sobre 
a sua. Infelizmente estamos fadados ao mesmo destino. Um agentando o outro. Voc est preso a mim, com meu mau gnio e tudo o mais.
-  Acho que poderei agentar - ele sussurrou.
-  Bom. - Manquejando, Deirdre aproximou-se dele e sentou-se na poltrona em frente. - Agora diga-me. Dormiu bem?
-  Voc foi me espiar?
-  No. Entrei em meu quarto e l estava voc. Roncando.
-  Por isso dormiu no sof?
- Voc me espiou? - Foi a vez de Deirdre fazer a mesma pergunta.
-  No. Passei pela sala com a inteno de ir  saleta a fim de me comunicar com Thomas. Em seguida desisti, no quis incomod-lo. Por isso vim aqui e acendi a lareira. 
Lindo fogo, no acha?
-  Nada mau. - Ela levantou-se e foi pulando at a cozinha. Apanhou uma laranja e voltou pulando para o mesmo lugar.
-  Voc pula muito bem - disse Neil. -  essa sua especialidade?
Deirdre ignorou o comentrio.
-  Do que este fogo precisa  de um pouco mais de energia. - Ela jogou ento um pedao de casca de laranja nas chamas.
-  No faa isso. Est estragando meu fogo - Neil protestou.
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- A casca vai dar um aroma especial ao seu fogo. Espere e ver. - Ela jogou outro pedao.
- Detesto o cheiro de laranjas - Neil falava sem tirar os olhos da lareira. - Me faz lembrar as caixas de frutas que meus avs enviavam da Flrida a cada inverno. 
Eram tantas as laranjas que, para que no apodrecessem, minha me forava-nos a comer laranjas dia e noite. Todos os anos eu tinha uma erupo na pele devido ao 
excesso de frutas ctricas.
- Voc disse "forava-nos". Tem irmos e irms?
-  Um de cada.
-  Mais velhos ou mais jovens?
-  Os dois mais velhos.
-  So unidos?
- Agora? Sim, bastante unidos. Seguimos caminhos separados durante algum tempo. John  professor em Minneapolis, e Sara trabalha numa repartio pblica em Washington. 
Ambos so casados e tm filhos. Mas ramos to ocupados que no tnhamos quase tempo para nos reunirmos.
-  O que mudou o comportamento de vocs?
- A morte de minha me. Algo sobre mortalidade nos atingiu em cheio. Sabe, a vida nos pareceu de repente to curta... Isso foi h quase sete anos atrs. Ficamos 
muito mais unidos desde ento.
-  Seu pai ainda vive?
-  Sim. E est aposentado.
-  Mora perto de voc? - O interrogatrio de Deirdre como que no terminava mais.
- No. Continua morando na casa onde crescemos, em Westchester. Insistimos com ele constantemente para que venda a propriedade, grande demais e agora vazia. Mas 
meu pai recusa. Ele viaja nove meses por ano; contudo, diz que tem necessi-
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dade da casa. Precisa saber que ainda est l para quando voltar. Porm eu acho que a razo principal  no querer dispensar o casal que mora em cima da garage h 
quase vinte anos. Os dois cuidam de tudo e dele tambm, quando est em casa. E desconfio que meu pai gosta disso.
Deirdre continuava comendo a laranja e olhando para Neil. Era bvio que havia afeio na famlia dele, pensava.
- Sua histria  linda - disse. - Seu pai parece ser um homem muito bom.
-  Ele .
- Ento, como pde ter um filho como voc? Por sinal, seus ps no esto gelados? No o vi de meias desde que chegamos aqui e tem feito muito frio.
Ele mexeu os artelhos e riu.
-  Tenho sangue quente.
-  Voc  louco. Vai ficar com a pele rachada.
- Est brincando? Este cho foi lixado e encerado. S as paredes poderiam rachar meus ps e graas a Deus no caminho pelas paredes. - Ele levantou-se. - Agora pense 
em outro assunto para me provocar.
-  Pensarei - Deirdre prometeu. - Pensarei. Aonde vai agora?
-  A cozinha preparar o jantar.
- Ainda no almoamos!
- O caf da manh foi um almoo. - Ele acendeu a luz. - Est na hora do jantar.
Deirdre olhou para o relgio. J eram mais de seis horas. Ela devia estar com fome mas o pensamento de ter de preparar outra refeio era suficiente para emudecer 
sua necessidade de comida. Por isso ficou onde estava, apreciando o fogo, dizendo
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a si mesma que providenciaria seu jantar depois que Neil sasse da cozinha. No queria testemunhas para sua falta de jeito. Alm disso, considerando-se sua dificuldade 
em caminhar e o tamanho de Neil, concluiu que nunca poderiam trabalhar na cozinha ao mesmo tempo.
Ela ouvia o rudo de panelas e se perguntava como ele aprendera tanto acerca de arte culinria. Vrias explicaes surgiram  sua mente, mas a interrogao continuou 
at o fim. A um dado momento sentiu o aroma tentador de carne sendo grelhada e sua admirao por Neil transformou-se em aborrecimento. Por que era ele to bom na 
cozinha? Por que no havia de ser to desajeitado quanto ela? Os homens que conhecera at ento ficavam atrs de ajudantes pedindo para achar a manteiga, para lavar 
os legumes, ou amolavam uma faca de vez em quando. Por que motivo Neil no precisava dela para coisa alguma?
Deirdre levantou-se e foi  cozinha. O que viu deixou-a perplexa, estarrecida at. Neil arrumara a mesa e pusera dois pratos.
-  Eu ia agora mesmo chamar voc - disse ele. A expresso de choque no rosto de Deirdre foi
uma recompensa enorme para seus esforos, embora pretendesse mais ainda. Ajudando-a no que sabia ser difcil para ela, no se sentiria to mal em provoc-la, em 
atorment-la. Pareceu-lhe uma boa troca. Isso sem se levar em considerao que mant-la insegura era de primordial importncia.
-   Carne, brcolis, pezinhos. Nada mau, no acha? - ele comentou.
- Nada mau. Voc seria uma tima dona de casa.
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O MUNDO NOS SEPARA
Neil ignorou o comentrio maldoso e afastou uma cadeira para ela sentar.
- Sra. Joyce, por favor?
No tendo nada melhor a fazer, em particular com a boca cheia d'gua, ela permitiu que Neil a ajudasse a se acomodar. Olhou para o prato atraente durante um minuto 
enquanto Neil enchia dois copos de vinho.
-  Por qu? - perguntou.
- Por que o vinho? Est aqui para ns bebermos, no est? E achei que daria um toque todo especial ao jantar.
-  Eu no me referia ao vinho. Por que eu? No lhe pedi para preparar meu jantar.
-  No quer comer, ento?
Ela lanou um olhar ao prato. A comida do hospital fora intragvel; e h dias no via nada to tentador.
-  Quero sim. Estou faminta.
-  Imaginei.
-  Mas voc deve ter alguma segunda inteno com toda essa gentileza.
Neil sentou-se displicentemente.
-  Talvez eu esteja preocupado com a cozinha de Vitria - ele enfim respondeu. - Voc quebrou um copo esta manh. Se continuar quebrando coisas teremos pouca loua 
para nosso uso.
- No  o copo, no  a loua, e sabe muito bem disso, Neil. O que ? No gosto quando voc fica muito bonzinho.
Ele franziu a testa e cortou a carne. - Prefere ser tratada com rudeza,  isso? Uma sacudidela lhe faz bem, acho. - Ele ps um pedao 102

O MUNDO NOS SEPARA
de carne na boca. - Hum! Perfeito. Espero que goste de bife mal passado.
-  Prefiro ao ponto.
-  Nesse caso coma as beiradas e deixe o meio. - Ele fez um gesto com o garfo. - Vamos. Coma. No, no, espere um pouco, um brinde ao nosso encontro. - Neil apanhou 
o copo de vinho com um sorriso irnico. E, enquanto Deirdre continuava en-carando-o atnita, disse: - Vamos. Erga seu copo.
Bem lentamente, cautelosa, ela obedeceu.
- A ns dois. - Neil sorriu. O tilintar de um copo contra o outro ecoou atravs da cozinha agora quente. Aquecida pela emoo.
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CAPITULO V
Anos dois. Deirdre pensou sobre isso  noite, sentada diante do fogo. Pensou sobre isso na cama, tentando ao mximo ignorar a presena do enorme corpo masculino 
a poucos centmetros do seu. Pensou sobre isso ao acordar pela manh. E j comeava a ficar preocupada.
Vitria preparara aquilo tudo.
Deirdre sempre se ressentira desses encontros programados, sempre os evitara. Nunca estivera to necessitada de um homem a ponto de arriscar um encontro surpresa; 
e no pretendia mudar de idia agora. Quem era Neil Hersey, afinal? Deirdre se questionava pela vigsima vez. Depois de haver passado trinta e seis horas com ele, 
ainda no o conhecia. Estivera consciente da presena de Neil, de uma forma ou de outra, na maior parte dessas trinta e seis horas, e sabia que seu corpo estava 
tenso por causa da conscincia desse fato.
Ela posicionou-se para examin-lo melhor. Neil dormia, deitado de costas, esparramado na cama, com o rosto virado para ela. Seus cabelos estavam em desordem, a barba 
crescida. As sobrancelhas vibravam ligeiramente como um leque acima da face; plos em caracol escureciam seu trax mal coberto
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O MUNDO NOS SEPARA
pela colcha. Um dos braos estava completamente fora do cobertor. Deirdre passeou com o olhar do msculo rijo do ombro ao cotovelo, do antebrao tambm cabeludo 
 mo masculina. Como se estivesse sendo tocada por essa mesma mo, sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo.
Dando as costas ao seu companheiro de leito deu um longo suspiro e comeou a se levantar. Ficou algum tempo sentada na cama, de cabea baixa, lamentando achar Neil 
atraente. Queria odi-lo depois do que ele lhe fizera destruindo seus sonhos de solido. Mas vendo-o, reconhecia que Neil a perturbava, e muito.
Porm no queria nem imaginar que aquilo pudesse ser mesmo verdade.
Bem devagar comeou a mover a cabea em meio crculo, concentrando-se em relaxar os msculos tensos do pescoo. Estendeu o exerccio aos ombros, alternando-os, girando 
ora um, ora outro. Juntando as mos na nuca esticou o torso, primeiro para o lado esquerdo, depois para o direito.
Uma msica suave comeou a tocar de sbito em sua mente e ela acompanhou com o corpo o ritmo da melodia, acreditando-se de volta ao clube de esportes, dando uma 
aula.
-  Que diabos est fazendo? - Uma voz grave soou atrs dela.
De volta  realidade, Deirdre apresentou logo uma explicao:
-  Estou me exercitando.
-  Isso  necessrio?
-  . Sinto o corpo tenso.
-  Como tambm sinto o meu, e o que voc est fazendo no ajuda em nada no caso de tenso.
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O MUNDO NOS SEPARA
Neil acordara h j alguns minutos e acompanhara os exerccios de Deirdre, os exerccios de alongamento e as circunvolues, ela sempre vestida com aquele absurdamente 
folgado pijama. E comeara a imaginar coisas que logo afetaram seu corpo todo. Nas circunstncias normais, ao acordar, ele pularia da cama de imediato e sairia do 
quarto. Mas no estado em que se encontrava, resolveu reagir de maneira diferente.
- Ento no olhe para mim - Deirdre sugeriu, ficando de costas para ele e continuando com os exerccios.
Porm todo seu sentimento de revolta sumiu quando mo forte agarrou-a pela cintura pondo-a de volta na cama. Antes que ela se desse conta do que se passava, Neil 
prendeu-lhe os braos cobrin-do-a com seu corpo.
-  Acho bom entrarmos em entendimento j - ele preveniu-a com voz grave. - Sou homem e bastante humano. Se pretende me tentar alm dos limites  melhor que se prepare 
para as conseqncias que viro na certa.
A dificuldade de Deirdre em respirar no tinha nada a ver com os exerccios.  que Neil mantinha o trax nu grudado  sua pele e o calor do corpo dele excitou-a, 
provocando ondas de prazer.
- Eu no sabia que estava tentando voc - Deirdre desculpou-se, quase num sussurro. - No passo de uma trouxa de roupa, imagem bem deselegante. No passo disso.
Ela jamais poderia supor que fosse capaz de despertar desejo num homem. No tinha nada de feminino. Mesmo no estado normal, mesmo antes de quebrar a perna, nunca 
sonhara em competir com
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beldades femininas, e assumira que Neil devia estar acostumado a essas beldades. O modo como a olhara naquele primeiro dia no deixara dvidas quanto  opinio que 
formara sobre ela. E, em outras ocasies, quando a fitava...
-  Voc de fato  uma trouxa de roupa - ele concordou. - E  justamente isso o que me deixa louco. Fico pensando o tempo todo no que h dentro dessa trouxa. - Neil 
percorreu o corpo dela com o olhar, vagarosamente. - Talvez se eu vir o que h sob essa cobertura toda, no serei mais tentado. Talvez precise v-la completamente 
nua.
Deirdre fez um movimento com as mos para cobrir-se, porm Neil as tinha presas e no lhe deu essa chance.
- Talvez - ele prosseguiu, a voz com um qu de veludo -, o que eu deva fazer seja desabotoar essa coisa e dar uma boa espiada ao que voc esconde.
- No h muito a ver - respondeu ela depressa, com olhar suplicante. - Voc ficar desapontado.
-  Mas ao menos no terei de continuar imaginando. Concorda?
O corao de Deirdre palpitava agora com mais fora. Ela estava apavorada. Estranha e repentinamente apavorada.
-  Por favor! No! - pediu.
-  No continuar imaginando ou no olhar?
- Ambos,
-  Mas no posso evitar a primeira hiptese.
- No vale a pena. Acredite em mim - ela prosseguia insistindo. - Sou uma atleta, nada feminina.
Neil encarava-a, atnito. Sentia a respirao ofe-gante de Deirdre, via o medo estampado nos olhos
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O MUNDO NOS SEPARA
dela. Foi se acalmando e lentamente soltou-lhe o corpo. Levantou-se da cama.
-  Eu nunca foraria voc a nada - disse ele.
-  No falei que voc me foraria.
-  Mas age como se acreditasse que eu o fizesse. Assustei-a.
Deirdre no respondeu. Como poderia explicar o que ela prpria no entendia? Como poderia explicar que o medo era que ele no gostasse de seu corpo? Deirdre no 
entendia por que era to importante para si  opinio de Neil acerca de seu corpo.
- Voc no me assustou - murmurou ela enfim.
-  Est mentindo.
- Nesse caso  mais um defeito meu a ser acres-. centado na lista. - Ela apanhou as muletas e tentou
se pr de p. Resmungou, enquanto se dirigia para a porta. ^- Estou com fome. -- Eu tambm.
-  Homem briguento!
Deirdre preparou o prprio caf da manh, satisfeita por ter encontrado iogurte e queijo na geladeira. Esperou na saleta at ouvir o barulho de Neil na cozinha. 
Depois foi tomar banho. Vestiu-se em seguida com uma conjunto um pouco menos folgado que o da vspera.
Relutante em encarar Neil, ocupou-se arrumando o quarto. Estendeu as cobertas na cama pulando de um lado para o outro, levando o dobro do tempo por causa de seu 
impedimento. Pela primeira vez agradeceu a Deus por ter necessidade de se demorar. Tirou as coisas da mala. S naquele momento, no por no planejar ficar, mas por 
falta de energia. Sentia-se bem melhor, bem mais forte e teve prazer 108


O MUNDO NOS SEPARA
em arrumar seus pertences. Colocou os livros, o v-deo-cassete e os teipes sobre a cmoda. Havia duas no quarto e Neil j se apoderara de uma delas.
Pretendendo assumir a funo de dona de casa Deirdre tirou o p das coisas dele: livros, alguns de fico outros de biografia, todos com algo de histria. Num estojo 
havia um culo com aro de tartaruga. Aro de tartaruga! Ela sorriu.
Poucas moedas, uma carteira velha de couro e um chaveiro com numerosas chaves estavam jogados num canto. Deirdre se perguntou de onde seriam aquelas chaves. Do escritrio? 
Como era o escritrio dele? Da casa? Onde morava Neil?
Terminada a limpeza do quarto ela foi ao banheiro. Limpou a pia e a banheira, depois o espelho acima da pia. Ps suas coisas num lado do armrio. Curiosa, abriu 
a outra porta. Na prateleira de cima estavam alguns artigos, provavelmente de Vitria. Mais abaixo havia outros objetos pessoais: um pente, uma escova, um tubo de 
pasta dental e uma escova de dentes. Coisas de Neil. Ele parecia viajar com pouca bagagem. Nem sinal de aparelho de barbear. Obviamente planejara ficar sozinho na 
ilha.
Sem saber bem qual a razo, Deirdre sentiu-se melhor. Concluir que Neil no estava preparado para a presena de uma mulher da mesma forma que ela no estava preparada 
para a presena de um homem, era consolador. Por outro lado, o que teria ela trazido se soubesse que no estaria s? Artigos de maquiagem? Batom, ruge, coisas que 
raramente usava? Um secador de cabelos? Isso, ento, jamais usara! Colnia? Ora, ora.
E o que teria Neil trazido, sabendo-se em companhia feminina?, ela se questionou.
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O MUNDO NOS SEPARA
Fechando a porta do armrio voltou ao quarto. No tinha nada mais a fazer. Poderia deitar-se na cama com um livro ou sentar-se numa poltrona perto da janela e tricotar. 
Mas isso seria o mesmo que se esconder, e ela recusava fugir.
Desanimada, olhou pela janela. Chovia ainda. O cu estava cinzento, ameaador. Se o tempo estivesse melhor, iria dar um passeio. Mas, com aquela chuva, seria impossvel. 
Lembrava-se de como fora difcil andar de muletas pela lama e pelas pedras. Era uma experincia que no gostaria de repetir.
Escolhendo um livro dentre os que trouxera, o ps debaixo do brao e foi para a sala. Neil estava l, esparramado no sof, perdido em pensamentos. No a encarou 
at ela sentar-se. S ento lanou-lhe um olhar indiferente e breve.
Disposta a ignor-lo, Deirdre abriu o livro, um romance, e comeou a ler. Pacientemente releu a primeira pgina trs vezes antes de ir para a segunda. Enfim, interessava-se 
j pela histria quando Neil apareceu bem perto de seu ombro.
Pondo o livro de lado, ela virou a cabea e perguntou, com voz natural:
-  Algo errado?
- Apenas curioso em saber o que voc est lendo. Marcando com um dedo a pgina, Deirdre fechou
o livro.
-  Bom livro? - perguntou ele.
-  No sei ainda. Apenas comecei.
- Se a leitura no prendeu voc desde a primeira pgina,  porque o livro no  bom.
- No concordo - Deirdre protestou. - Alguns livros ficam bons s aps alguns captulos.
Neil resmungou qualquer coisa e afastou-se. Mas
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logo ela ouviu um barulho estranho, depois um gemido, alto, e ergueu a cabea.
-  Droga! Ser que voc no pode deixar essas malditas muletas fora do caminho? - Neil apoiava uma das mos na cadeira e com a outra segurava o grande artelho ferido.
-  Se estivesse usando sapatos, isso no teria acontecido - declarou ela.
- Por acaso devo usar sapatos em minha prpria casa?
-  Esta casa no  sua.
-  Uma casa que me foi emprestada, ento.
-  Oh, por favor, Neil, o que exatamente quer que eu faa? Que deixe as muletas em outro quarto? Voc foi o primeiro a insistir que eu as usasse o tempo todo.
Neil no se deu ao trabalho de responder. Pondo o p no cho, testou para ver se o dedo no estava fraturado. Em seguida atravessou a sala e foi  janela. Com as 
mos nos bolsos, olhava com desnimo o dia chuvoso.
Deirdre voltou ao livro e leu duas outras pginas antes de ser interrompida pela segunda vez.
-  Tempo horrvel! - exclamou ele.
-  Eu sei.
-  Dois dias de chuva at agora.
-  Trs.
-  Dois dias completos - Neil corrigiu-a.
-  E um terceiro iniciado.
Deirdre continuou com a leitura. Mas sentiu que ele a observava, e perguntou: - Alguma coisa errada?
-  No!
-  Mas voc parece entediado.
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-  No estou acostumado  inatividade.
-  No tem nada a fazer?
Com um sacudir de ombros, ele tornou a olhar pela janela.
-  O que voc fazia em casa num dia chuvoso?
-  Deirdre insistiu.
-  Trabalhava.
-  Mesmo nos fins de semana?
-  Especialmente nos fins de semana. E quando me punha em dia aps uma semana de ocupaes.
Ao menos fora assim durante anos, ele pensou. Naturalmente, quando clientes desapareceram, no restara nada a fazer.
-  Voc deve ter tido sucesso em sua profisso
- Deirdre observou; mas logo se arrependeu quando ele lhe lanou um olhar irritado. - Quis lhe fazer um elogio.
- Eu sei. Sinto muito pela minha reao. - Neil inclinou a cabea e esfregou a nuca.
Deirdre olhou para o livro e concluiu que no progrediria muito em sua leitura com Neil em p ali ao lado. Sentiu-se feliz, contudo, por ele no ter feito referncia 
ao que acontecera antes entre os dois e se perguntava se ele estava arrependido. No caso afirmativo, refletia, seria o momento propcio para uma conversa.
- Como voc conheceu Vitria? - perguntou, de maneira bastante casual.
-  Um amigo mtuo nos apresentou h vrios anos atrs.
-  Voc  da cidade, Neil?
-  Depende a que cidade se refere.
Em nome da boa educao, ela controlou a impacincia e respondeu:
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-  Nova York,  claro.
-  No. Sou de Hartford - respondeu ele, sem tirar os olhos da janela.
-  Ah, Hartford. Pequena metrpole - Deirdre no resistiu ao desejo de devolver a ofensa que ele fizera a Providence, sua cidade. - Fui a um concerto Ia no ano passado, 
com amigos. As poltronas eram horrveis, a prima-dona estava resfriada e tive um pneu vazio na volta  casa.
-  OK. Mereo isso.
-  Sim, merece. E d graas a Deus por eu no condenar a cidade inteira.
Neil no tinha muita certeza se sofreria no caso de Deirdre condenar sua cidade. No momento, sentia como se toda Hartford estivesse contra ele.
- Minha dedicao a Hartford no  cega. Posso enxergar suas falhas.
-  Tais como...
- Provincianismo, por exemplo. Estreiteza de mente...
-  Hartford? - indagou Deirdre, surpreendida.
- Sim, Hartford. Alguns crculos sociais so muito fechados.
-  Isso no  comum em todas as cidades?
-  Suponho que sim.
Displicentemente Neil deixou a janela e foi para perto do sof. Deirdre tomou isso como um desejo dele de continuar com a conversa.
-  Voc mora l h muitos anos?
-  Desde que comecei a praticar a advocacia.
-  Voc mencionou ter estudado em Boston. Foi na universidade ou na escola secundria?
-  Ambas.
-  Ento mudou-se de Westchester a Boston e depois a Hartford?
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Neil divertiu-se com a pergunta. E declarou:
- Fiz uma paradinha em San Diego, entre Boston e Hartford. Na Marinha, para o servio militar.
-  Na Marinha? Quer dizer que escapou do Vietname?
- Certo. - Ele franziu a testa como se esperasse uma censura por no ter entrado em combate.
- timo. Fez algo que poucos rapazes souberam fazer.
- No foi essa minha inteno. Eu teria seguido para o front se no estivesse na Marinha.
-  Poderia ter fugido para o Canad.
-  Isso nunca!
Deirdre entendeu, pela resposta enftica de Neil, que ele se sentia responsvel por seu pas. E respeitou esse sentimento.
-  Como voc quebrou a perna? - Neil indagou de repente.
-  No me pergunte.
- J perguntei.
Os olhares de ambos se encontraram. Deirdre ficou silenciosa por alguns minutos. Depois, concluiu que sua atitude seria infantil se continuasse a se evadir. Fitou-o 
ento com desafio e respondeu:
-  Rolei as escadas.
- Rolou as escadas? Como?! No estou rindo ainda, mas tenho muita vontade de rir.
-  E vai rir quando souber de toda a histria.
-  Tente me contar. O que houve?
Deirdre decidiu relatar o ocorrido. Se Neil risse, ela brigaria. Afinal, brigar com Neil era mais seguro do que... do que passar outra vez pelo que acontecera de 
manh.
Tomando flego, encarou-o de novo.
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- Escorreguei numa revista e meu p ficou preso no corrimo. Quebrei a perna em trs lugares.
-  E...? Deve haver um final para essa piada. No achei graa ainda.
- Voc me perguntou o que fao para viver. Pois bem, ensino ginstica aerbica e dana.
- Ah! - Neil arregalou os olhos. - E agora no pode trabalhar.
- Isso no  o pior de tudo. Sempre fiz exerccios, de uma maneira ou de outra. Voc pode imaginar como foi humilhante para mim quebrar a perna por ter escorregado 
numa revista? Eu, uma atleta?
-  Essa revista ao menos era boa? - perguntou ele, querendo fazer caoada.
-  Esse no  o caso! O caso  que eu no devia ter rolado as escadas! E, acontecendo, eu devia ter feito isso com elegncia, ficando apenas com algumas manchas 
roxas. Jamais com este grotesco gesso!
-  Como est sua perna agora, afinal?
-  OK.
- A umidade no a incomoda?
-- No. Minha coxa est dolorida por causa do peso do gesso e as muletas me machucam muito embaixo do brao.
-  Isso vai melhorar com o tempo. Quantos dias mais voc precisa ficar engessada?
-  Outras cinco semanas.
-  E depois disso ficar boa como nova?
A fria de Deirdre foi substituda pelo desnimo.
-  Eu gostaria de saber. A mdica no prometeu nada. Oh, vou poder andar, isso vou. Mas, quanto a lecionar ginstica...? Sei l. - Seu sacolejar de ombros foi to 
eloqente quanto a preocupao do olhar.
Neil surpreendeu-se por sentir pena dela. No era
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O MUNDO NOS SEPARA
seu prprio futuro duvidoso tambm? No estava ele tambm cheio de problemas?
- Voc vai poder continuar a dar aulas, Deirdre - disse. - De um jeito ou de outro, vai continuar, se  o que tanto deseja.
-  Desejo sim! Preciso trabalhar. E no  uma questo de dinheiro apenas, mas uma questo de sobrevivncia emocional.
-  Seu trabalho significa tanto assim para voc?! Era uma afirmao mais do que uma pergunta.
Neil entendera. Mas Deirdre no quis entrar em detalhes, no quis falar sobre a Manufaturas Joyce, assunto complexo demais e bastante pessoal. Alm disso, Neil era 
um advogado de Corporaes e com certeza tomaria o partido da firma.
- Bem - disse ela finalmente. - Acho que no h nada mais que eu possa fazer. Apenas esperar.
-  O que pretende fazer nesse meio tempo?
-  Permanecer aqui o maior tempo possvel.
-  No h nada que voc possa fazer em Provi-dence enquanto se recupera?
-  Nada que me interesse, Neil.
-  O que voc planejava fazer aqui, alm de ler? Deirdre sacudiu novamente os ombros e respondeu:
- Relaxar, tricotar, ouvir msica. Mas tudo ser uma perda de tempo se eu nunca mais puder lecionar. Contudo, devo manter minhas esperanas.
- Voc poderia ter feito isso em Providence mesmo. Acho que com uma perna quebrada teria mais conforto l. Sua vinda at aqui no foi fcil e, se Thomas a tivesse 
largado sozinha no cais, no conseguiria colocar suas coisas dentro da casa.
- Thomas sabia o que fazia. Voc estava comigo, Neil. Se no estivesse, ele com certeza me ajudaria.
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-  De qualquer modo, Deirdre, vir correndo para ca no dia em que teve alta no hospital no deixou de ser uma loucura. Por que a pressa?
-  O telefone! Minha famlia! Minha me foi bastante desagradvel enquanto estive no hospital. Eu precisava fugir.
-  Tudo isso, s porque se sentia envergonhada*? Deirdre percebeu que em poucos minutos teria
de contar toda sua histria. Quem era Neil Hersey enfim? Por que lhe revelar seu problema? Ela jamais saberia qual era o problema dele.
-  Vamos dizer que tive dificuldades com minha famlia - ela apenas declarou, calando-se em seguida
Neil entendeu logo. Oh, ele estava ainda curioso, sem dvida, mas haveria tempo para tudo. Tempo para... muitas coisas.
Deirdre abriu o livro mais uma vez e continuou lendo. Porm, se sua ateno fora dbil antes, estava pssima agora. Ela pensava nas dificuldades familiares, pensava 
no que encontraria mudado quando voltasse  casa.
Pelo canto do olho viu Neil levantar-se, andar pela sala, depois sentar-se mais uma vez. Quando, um minuto mais tarde, ele mexeu-se de novo, Deirdre queixou-se com 
um suspiro:
-  Decida logo o que quer fazer, por favor. No posso ler com um ioi na sala.
Neil no disse nada e foi para o quarto. Momentos depois voltou, sentou-se no sof e abriu um livro. Leu a primeira pgina, passou para a ltima e, em seguida, comeou 
a correr os olhos rapidamente pelas outras.
- Voc vai ler ou ver as gravuras? - sussurrou ela.
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-  Estou tentando decidir se vale a pena ler. - A expresso do rosto de Ne era a mais inocente possvel.
-  Foi voc mesmo quem trouxe o livro, no foi?
- Fui. Estava com pressa. Peguei alguns nas estantes e joguei-os na mala, sem olhar.
-  De qualquer maneira, deve ter decidido que os livros eram bons. Qual  o assunto desse?
- A primeira Guerra Mundial. Todo o livro histrico me fascina - Neil respondeu.
-  Percebi.
-  Como percebeu? - Ele apertou os olhos.
-  Porque vi seus livros na cmoda, e cada um deles tinha algo de histria. Sabe de uma coisa? Voc deveria usar culo quando l. Do contrrio forar muito sua 
vista.
-  S uso culo quando foro os olhos. E, como no li nada nestes ltimos dois dias, meus olhos esto cem por cento. Mas voc  muito xereta. Olhou dentro de minha 
carteira tambm?
-  Claro que no! Eu me ocupava limpando, no espiando. Jamais gostei de viver num chiqueiro.
-  No venha com essa agora, Deirdre. Esqueceu-se do modo como largou suas roupas pelo cho?
-  Isso foi na primeira noite, eu estava exausta. O que h em sua carteira, afinal? Alguma coisa obscura, sinistra? Alguma coisa que eu no possa ver?
- Nada de extraordinrio. - Neil deu de ombros.
-  Montanhas de dinheiro? -- No.
-  Carto de scio de um clube masculino?
-  Tambm no.
-  O retrato de sua namorada?
-  Tambm... no.
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-  Quem  ela? Quem  a mulher que abandonou voc?
Na vspera Neil no teria vontade de falar sobre Nancy. Agora, repentinamente, a situao pareceu-lhe menos ameaadora.
- Uma antiga namorada. No h mais nada entre ns agora.
-  O que houve antes? - Deirdre estava curiosa em saber.
-  Um namoro rpido. Ela decidiu que eu no tinha bastante potencial financeiro.
- O que procurava essa mulher? Um milionrio?
-  Talvez.
-  Voc no me parece terrivelmente aborrecido com o rompimento.
- J me recuperei - Neil declarou com indiferena.
-  Nesse caso foi porque o relacionamento no era forte.
-  No era.
Deirdre colocou o livro no colo e indagou:
-  Voc j foi casado?
-  Por que essa pergunta de repente?
- Estou curiosa. Voc me fez a mesma pergunta. Agora  minha vez de saber.
-  No, nunca fui casado.
-  Por qu?
-  Nunca lhe fiz essa pergunta. No  corts.
- No  corts perguntar a uma mulher, porque tradicionalmente  ela quem espera ser pedida em casamento. Quanto a um homem, a coisa  diferente. O que voc esteve 
fazendo at agora?
Neil achou que havia algo de especial no modo como a mente de Deirdre funcionava. Ela racioci-
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nava com rapidez, no era pretenciosa e lhe pareceu muito tranqila. Ele sorriu e declarou:
- Voc me acreditaria se lhe dissesse que estive ocupado demais para pensar em casamento?
- No! No acreditaria.
-  Mas  verdade, at um certo ponto. Passei os ltimos quinze anos da vida dedicado  carreira. Minha namorada era muito absorvente.
-  Isso,quer dizer que voc ainda no encontrou a mulher ideal.
- Tenho necessidades muito peculiares - ele disse, sorrindo. - Apenas uma mulher bem especial pode me satisfazer.
-  Isso eu acredito. Qualquer mulher que possa agentar um rosto de barba crescida deve ser muito especial. Voc tem idia de como isso ... horrvel?
-  Horrvel? - Neil repetiu. - Acho lindo!
-  Lindo?
- E. Nunca deixei a barba crescer durante toda minha vida. Desde os quinze anos de idade me bar-beio a cada manh. E, por qu? Para ter um aspecto limpo, agradvel? 
E aceitvel? Pois bem, agora decidi, para variar, ter um aspecto horrvel, usando sua palavra. Entendeu?
Deirdre refletiu no que ele acabara de dizer. E concluiu que Neil no parecia sujo ou inaceitvel; muito pelo contrrio... Era atraente. Em particular com aquele 
olhar de triunfo.
- Voc se sente bem assim, no?
-  Claro.
-  Mas precisa de mais cuidado pessoal quando trabalha, certo?
- Sempre. H um certo decoro necessrio quando se trabalha com clientes de firmas.
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- Fale-me sobre isso - Deirdre pediu, dobrando a perna direita e segurando-a contra o peito.
Neil no tinha vontade de falar sobre clientes de firmas, queria era conversar acerca de Deirdre Joy-ce. Apenas isso.
-  Fale-me de voc, Deirdre. Por que nunca se casou?
- Nunca nenhum homem me pediu em casamento.
-  Eu esperava por essa resposta. - Ele riu. - Mas, por que est voc me olhando desse jeito?
- Sabe que esta  a primeira vez que ouvi o som de sua risada? Quer dizer, uma risada desinibida, satisfeita?
Neil fitou-a com sbito calor, e disse:
-  E sabe que esta  a primeira vez que ouo voc falar de maneira to suave, to carinhosa? - E to feminina?, ele quis acrescentar, mas no o fez. Conseguira j 
derrubar vrias barreiras de defesa no espao de um dia. Precisava ir devagar.
Durante segundos Deirdre no pde dizer nada. Concentrava suas energias em Neil e no modo como ele a encarava. Sentia-se feminina, como nunca se sentira antes na 
vida.
Estranhamente, ela baixou o olhar e murmurou:
- Voc est tentando me adular, me comprar, sendo bonzinho. Acho que deseja que eu lhe lave a roupa.
Ter sua roupa lavada por Deirdre no passara pela mente de Neil em momento algum.
- Acho que nunca a vi corar antes - ele comentou. Deirdre corou ainda mais. No levantou o olhar
e no entendia o que estava acontecendo consigo. Todo seu corpo queimava e a sensao era completamente nova. Mas... por que com Neil?
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- Vamos, vamos, Deirdre, gosto de voc mas isso no tem nada a ver com a lavagem de minha roupa.
-  Claro. De qualquer maneira, no sou do tipo submisso.
-  Jamais supus que o fosse. Submissa seria a ltima palavra que eu usaria para descrev-la. Contudo, voc se inflama facilmente e s vezes penso que vai pegar fogo.
-  verdade. Fui usada uma vez e no gostei do resultado.
-  Ningum gosta. O que aconteceu?
Deirdre pensou em mudar de assunto, mas imaginou que Neil o traria de volta em outra ocasio.
- Fui submissa a um homem que no tinha nada melhor a fazer de sua vida naquele momento. No instante em que sentiu uma exigncia de minha parte, sumiu.
-  Voc exigiu casamento?
- Oh, no. No foi nada disso. Embora suponha que ele tenha imaginado tal coisa. Minha famlia gostaria de me ver casada. Ningum em casa aprecia meu... estilo de 
vida.
-  Voc  por acaso uma mulher promscua?
- No, no. Muito pelo contrrio. Evito festas e detesto relacionamentos falsos. No gosto de dissimulaes de forma alguma.
- O que tm dissimulaes a ver com casamento?
- s vezes um casamento  feito s em funo de unir um homem a uma mulher e propagar a espcie.
-  Voc no gostaria de ter filhos, Deirdre?
-  Algum dia, sim. E voc?
-  Algum dia...
Eles se entreolharam e voltaram aos prprios livros. Deirdre, por seu lado, surpreendia-se em falar
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O MUNDO NOS SEPARA
sobre essas coisas com Neil. Perguntava-se o que teria ele que a instigava a falar, e finalmente concluiu que havia sido a situao, mais do que o homem, que concorrera 
para isso. Afinal, no fora ela quela ilha a fim de descobrir um caminho para o futuro?
Neil tambm refletia sobre seu futuro. Sim, gostaria de se casar, mas apenas com a mulher certa. Tinha averso ao fingimento tanto quanto Deirdre. Nancy e a maioria 
das mulheres que ele conhecera eram o prottipo do fingimento, da dissimulao. Porm, sim, ele gostaria de ter filhos.
Distrado, Neil virou a pgina do livro e depois voltou atrs, notando que no havia lido uma palavra sequer. Olhou para Deirdre que se encolhia na poltrona, concentrada 
em seu livro. Deirdre era honesta, no se podia negar isso; porm, no tinha mais respostas do que ele para os problemas do relacionamento homem e mulher.
Acomodando-se melhor no sof, Neil voltou a ler, disciplinando-se para tal. E conseguiu com facilidade. A chuva tamborilava no telhado e ele tev" de admitir que 
o som era tranqilizante.
Finalmente, colocando o livro de lado, levantou-se.
- Vou fazer alguns sanduches. Quer um?:- perguntou a Deirdre.
-  Que tipo de sanduche?
-  E esse por acaso um modo amvel de responder a uma pessoa que se oferece para lhe fazer um sanduche?
- Posso fazer o meu, caso no me interesse pelo seu - Deirdre respondeu.
-  E isso que prefere?
-   Depende do tipo de sanduches que voc sabe fazer.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Sei fazer todo o tipo de sanduches. Mas depende do que temos disponvel aqui. - Ele foi  cozinham abriu a geladeira e gritou: - Posso preparar sanduches de 
presunto e queijo, de salsicha e queijo, de queijo derretido e tomate, de queijo derretido e atum, de ovos cozidos, de pasta de amendoim e gelia, de queijo cremoso 
e gelia, ou de qualquer desses itens tomados separadamente.
Tudo aquilo pareceu muito bom a Deirdre. Alis, ela no era difcil para comer.
- Que enorme lista - declarou. - Pode discorrer tudo mais uma vez?
Neil ps as mos na cintura e protestou:
-  Voc j ouviu tudo muito bem.
-  Mas h uma grande seleo  escolha. Minha deciso  importante...
-  Deirdre...
-  Quero peru com mostarda.
-  Mas no h peru na lista mencionada.
-  No? Imaginei ter ouvido voc dizer "peru".
-  No h peru.
-  Por qu? Thomas devia ter pensado em peru.  bem melhor do que queijo ou pasta de amendoim.
Em p, com os ombros erguidos, Neil perguntou vagarosa e pacientemente:
-  Voc quer ou no quer um sanduche?
-  Quero.
-  Que tipo?
-  Queijo derretido com atum.
-  Obrigado pela resposta. - Neil suspirou. Ia voltar  geladeira quando Deirdre o chamou.
-  Pode ser com po de centeio?
-  No. No h po de centeio aqui.
-  E po francs?
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O MUNDO NOS SEPARA
-  O tipo do usado para hambrguer?
-  No.
-  Nesse caso ser po comum ou nada. Quer?
-  Quero.
Neil esperou um pouco na porta da cozinha a fim de ver se ela tinha algo mais a acrescentar. Como Deirdre se mantivesse em silncio, abriu a geladeira e retirou 
de l tudo de que necessitava. Apenas fechara a porta quando Deirdre entrou na cozinha.
- Se mudou de idia - ele preveniu-a -  tarde demais. Seu pedido j est a caminho.  tarde demais para mudar.
-  Quero queijo derretido com atum. No mudei de idia.
Neil abriu uma lata de atum, jogou o contedo numa vasilha e fitou-a enquanto apanhava o vidro de maionese. Ele misturava tudo com um garfo quando notou que Deirdre 
o observava.
-  Algo errado? - perguntou.
-  No, nada. Eu apenas observava. No se importa, pois no? Estou fascinada. Voc  um homem muito domstico.
-  Homens tambm precisam comer.
- Porm em geral comem po com manteiga. Mas queijo derretido e atum... Estou deveras impressionada.
- No  muito difcil fazer um sanduche de queijo com atum.
- Contudo leva mais tempo do que pasta de amendoim com gelia - Deirdre comentou teimosamente.
-  E  mais gostoso tambm.
-  Eu adoro pasta de amendoim com gelia. Neil, que estivera espalhando o atum nas fatias
<lc po, parou, ps a faca bem devagar sobre a mesa c disse:
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Voc parece ter prazer em estar sempre se opondo a tudo. O que pretende com isso agora?
Deirdre sabia voltar atrs.
-  Eu estava s brincando. Quero muito provar esse seu sanduche de queijo com atum.
-  No acredito em voc. - Neil foi para bem perto dela. - Acho que faz tudo de propsito, para me provocar, como quando pediu peru sabendo que no tnhamos peru.
Deirdre teria se afastado se houvesse um lugar para onde ir. Mas o balco da cozinha impedia sua passagem.
- E verdade, Neil. - Ela ergueu uma das mos. - No fique zangado, no h razo para isso. A menos que esteja tendo problemas com seu ego por causa de minha presena 
na cozinha...
Interrompendo-a, Neil carregou-a no colo at a sala.
-  O que est fazendo? - ela perguntou.
- Tirando voc da minha vista. Quer acabar com minha pacincia? Bem, se queria, conseguiu. Escolheu o sanduche mais complicado do mundo. Problemas com seu ego? 
- Neil continuava carregan-do-a na direo do quarto. - Se quiser falar, fale consigo mesma, fale sozinha.
Deirdre receou que ele fosse jog-la na cama. E suplicou:
-  No me deixe cair. Cuidado com meu gesso! Neil manteve-a suspensa no ar por um minuto,
deliciando-se com sua vantagem sobre ela. Em seguida, numa frao de segundo, sua atitude mudou. No mais pensava que Deirdre o provocava, tiran-do-lhe a pacincia. 
Em vez disso, ficou de sbito consciente da coxa bem formada e firme que segurava com uma das mos. A ponta dos dedos da outra
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O MUNDO NOS SEPARA
mo pressionaram um inesperado seio feminino. Neil achou os olhos dela luminosos, os lbios midos, e o rosto tinha um novo tom rosa.
Deirdre, tambm, estava perturbada. Fitava-o, notando que os olhos dele tinham um brilho diferente, como tambm notou que os cabelos no eram negros mas de uma tonalidade 
castanho-avermelhada. A boca firme tinha traos masculinos. Ela se deu conta de que Neil a carregava com cuidado agora. Tocou ento suavemente o quente trax coberto 
de plos e gostou do contato. Bem lentamente ele colocou-a na cama; mas no se retirou. Em vez disso apoiou as mos em cada lado do corpo dela.
- No sei o que est acontecendo comigo - sussurrou. - Devo estar doente.
Ele encarou-a, dos olhos aos lbios, demonstrando claramente sua inteno antes mesmo de inclinar a cabea.
CAPTULO VI
Sua boca tocou a dela, ligeiramente de incio, lbios roando lbios, experi-mentando-lhe a forma e textura. Depois ele intensificou o beijo, aprofundando-o, at 
ambos quase perderem o flego.
Deirdre mal podia pensar, menos ainda protestar. Percebera que Neil iria beij-la, mas nunca esperara tanta emoo num simples encontro de bocas. Ele bebera de seus 
lbios como um homem morrendo de sede que encontrara um osis no meio do deserto. De quando em quando Neil sussurrava algumas palavras, tocando-lhe os lbios timidamente, 
para ter certeza de que aquilo que descobrira no era uma
miragem.
Com as mos afagou-lhe o rosto.
- Beije-me, Deirdre - ele suplicava, fitando-a com olhar apaixonado.
Esse pedido foi suficiente para libert-la de qualquer constrangimento. E, quando Neil voltou a beij-la, os lbios dela estavam entreabertos, sedentos, e ela correspondeu 
ao beijo com igual fervor. Descobriu a firmeza dos lbios de Neil, a perfeio dos dentes, a textura da lngua. Cada clula de seu corpo de mulher ganhava vida.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Deirdre - ele sussurrou, mais uma vez aproximando sua testa quente  dela. - Por que voc fez isso?
Deirdre, que estava ainda meio nas nuvens, perguntou:
-  O qu?
- Por que fez isso?
-  Fiz o qu?
-  Por que me beijou?
A mente de Deirdre comeava a clarear e ela afastou-se, dizendo:
-  Voc me pediu que o beijasse.
- No daquele jeito, Deirdre. Eu esperava apenas um beijo ingnuo. No... no... aquilo.
Ele estava zangado. E ela mal podia acreditar.
-  E quem foi o primeiro a beijar daquele jeito? - indagou Deirdre.
-  Eu, mas voc no precisava fazer o mesmo! Levantando-se da cama com fria, Neil saiu do quarto,
deixando-a insegura, atordoada, e... zangada tambm.
Deirdre sentou-se na cama, fechou os olhos, tentando entender a reao de Neil. Embora ela nunca, nunca houvesse beijado ou nunca tivesse sido beijada daquele jeito, 
no era to inexperiente a ponto de no ver quando um homem estava excitado.
Isso significava que, apesar de tudo, Neil no queria se envolver com ela.
Isso significava que tinham um problema a enfrentar.
Ela gostara do beijo. Mais do que gostara. O beijo a levara a lugares onde jamais estivera antes. Beijar Neil havia sido como provar chocolate com conhaque, doce 
e diludo, mas ainda muito potente. Ele a impressionara bastante.
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O MUNDO NOS SEPARA
Deirdre tocou os lbios inchados, depois o queixo trmulo. At a barba dele a excitara, aquela aspereza em contraste com a suavidade da boca. Sim, a boca era suave. 
Suave, viril e estimulante. Maldito Neil!
Deirdre respirou profundamente e pareceu readquirir foras. Eles estavam fadados a viver sob o mesmo teto. Estavam fadados ao uso da mesma cama, por culpa de Vitria, 
uma teimosa arranja-dora de casamentos. Deirdre resolveu ento pensar unicamente em seus problemas; Neil que pensasse nos dele. E resolveu lembrar-se de que Neil 
podia ser um homem muito desagradvel.
Mas... infelizmente ele decidiu escolher aquele momento para voltar ao quarto. Carregava as muletas e tinha uma expresso insegura. Depois de segundos de hesitao, 
foi para perto da cama.
- As suas muletas - disse. - Os sanduches j esto no forno. Ficaro prontos num minuto.
Deirdre olhou para as muletas. Pegou-as depois e examinou-as cuidadosamente antes de erguer o olhar de novo.
Neil sorriu, o mais tentador dos sorrisos, e retirou-se do quarto.
Deirdre suspirou. Precisava tentar viver em harmonia com Neil, custasse o que custasse. Ou sair da ilha por prpria escolha. Mas, talvez... no fosse to difcil 
assim conviver com ele.
Com esforo levantou-se da cama, apanhou as muletas e foi para a cozinha.
Ambos comeram em silncio. Neil evitava fit-la. Deirdre elogiou os sanduches e ele agradeceu. Terminada a refeio ela foi para a sala e Neil fez caf, no muito 
forte, e levou uma xcara para ela que agradeceu amavelmente. Deirdre pensava o tempo
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todo no beijo, como Neil tambm pensava. E, como Neil, o tempo todo se perguntava aonde aquele beijo os levaria. De repente, decidiu no se preocupar.
Certa de que no poderia concentrar-se no livro, trouxera do quarto a cesta com o tric e ps toda sua ateno no trabalho.
Neil, que tomava agora a segunda xcara de caf, tambm no conseguia ler; mas no sabia em que se ocupar.
-  O que est fazendo? - perguntou a ela.
- Um suter - Deirdre respondeu sem levantar a cabea.
-  Para voc?
-  Sim.
- Linda cor - ele comentou ao notar o tom lils da l.
-  Obrigada. - Com a receita no colo, Deirdre comeou a tricotar.
-  Que agulhas enormes!
-  Agulhas enormes para um enorme suter - ela disse sorrindo.
-  Se  para voc, tem de ser grande.
-  , tem de ser grande.
- Ah, tambm pode ser um suter para esquiar - disse Neil.
Deirdre apertou os lbios, ressentida por ele ter mencionado um esporte negado a ela no momento, e talvez para sempre.
-  Ser um suter bem quente, para o inverno.  claro que to cedo no poderei esquiar.
-  Voc esquia, Deirdre?
-  Sim.
-  E boa nesse esporte?
Ela largou as agulhas no colo e fitou-o.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Eu lhe disse que era uma atleta, no disse? Eu me exercito, jogo tnis, nado, esquio... Ao menos fazia tudo isso antes. Neil, no posso me concentrar no tric 
se voc no para de me fazer perguntas.
- Achei que tricotar era um ato automtico.
-  No quando se est aprendendo.
-  Nunca tricotou antes?
-  Nunca.
-  Foi a perna quebrada que a forou a isso?
- Foi. Comprei a l h muitos meses atrs, mas  a primeira chance que tenho de tricotar.
Ela posicionou as agulhas de novo, leu a receita, puxou a l e tricotou a primeira malha. Levou algum tempo para conseguir tricotar a segunda. Mas, uma vez vencido 
esse impasse inicial, foi adiante. Em poucos minutos prosseguia no trabalho com relativa facilidade.
Quando Neil acabou de tomar o caf, levou a xcara  cozinha e comeou a rodar pela casa. Enfim, pegou o livro e decidiu ler.
A essas horas Deirdre j tricotava malha aps mala, sem grande esforo agora. Ainda segurava as agulhas desajeitadamente e com freqncia derrubava a l que devia 
estar enrolada em seu dedo indicador. Periodicamente lanava um olhar a Neil a fim de ver se ele testemunhava sua inabilidade. S em fit-lo se emocionava.
Neil estava deitado no sof. Parecia to comprido... to esbelto... As mangas do suter, erguidas, exibiam antebraos cobertos dos mesmos plos escuros que ela sentira 
no trax rijo. Sentira! Plos crespos, suaves mas fortes. A textura da pele de Neil ficaria eternamente gravada em sua memria.
De sua posio no sof, ele fitava-a, a curiosidade aumentando. Queria descobrir o que Deirdre escon-
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O MUNDO NOS SEPARA
dia sob a volumosa camiseta. Sentira um dos seios dela. Sentira. Firme e petulante, mas rendendo-se aos seus dedos. Ele a carregara; Deirdre era leve como uma pluma 
e quente, muito quente. Provara-a. Esse foi seu maior erro, pois havia um gosto de mel como ele nunca imaginara existir num beijo. Iria o resto de suas imagens empalidecer 
ante a realidade?
Ele a observava atentamente. Com ambas as mos Deirdre agarrava as agulhas e mantinha o indicador de cada mo estendido. Ainda encontrava certa dificuldade no tric, 
porm, mesmo assim, o movimento de seus dedos tinha graciosidade. Atleta? Talvez. Mas, sendo verdade, uma atleta do jeito mais saudvel, mais harmonioso, mais feminino.
Fechando o livro com fora ele sentou-se melhor no sof. Com expresso intrigada Deirdre o encarou.
-  No posso ler com o clique das suas agulhas
-  ele resmungou. - No pode evitar isso?
-  Estou ainda tendo dificuldade. Quer que eu faa milagres?
- No, no quero milagres, apenas paz e silncio. Jogando o livro no cho, Neil comeou a caminhar
pela sala.
-  Seu livro no  interessante?
- No. - Ele passou uma das mos pelos cabelos.
- Que tal um jogo? Vitria tem muitos na outra sala. Deirdre largou o tric no colo. No tinha muita
certeza se seria bom jogar com Neil.
- Que tipo de jogo voc tem em mente? - perguntou.
-  Que tal canastra?
-  Detesto canastra.
-  E o jogo de perguntas e respostas?

O MUNDO NOS SEPARA
- Voc  que perde, no  boa nesse jogo, no  o jogo que est contra voc.
-  O que quer que seja, o resultado  o mesmo
-  ela retrucou.
-  OK, ponha de lado esse tipo de jogo. O que acha de uma partida de xadrez?
-  No sei jogar xadrez.
- E damas?
Deirdre fez um gesto negativo com a cabea.
- Nada feito ento - Neil resmungou.
-  Que tal um filme? - Deirdre perguntou. Era um dia chuvoso e a idia lhe pareceu boa. Os dedos dela estavam adormecidos, o tric j no ia nada bem.
-  OK - ele concordou.
-  Que tipo de filmes temos aqui?
Neil foi  saleta e Deirdre seguiu-o. Ficou bem perto dele, ajudando-o a procurar um filme. Notou ento que o jeans era bem justo, moldando-lhe o corpo msculo. 
O traseiro estava um pouco descorado.
-r- Magnum Forcei - ele sugeriu.
- No, violento demais.
- North by Northwest?
- Intenso demais. Que acha eAgainstAll Odds?
-  Deirdre perguntou.
- Muito romntico.
-  E da?
- No gosto.
- Ento The Sting - opinou Deirdre. - No  romntico mas divertido.
-  E cansativo. A melhor parte  a msica. Remexendo os cassetes os olhos dela arregalaram
de sbito.
- Body Heat. Excelente filme! - exclamou. - Wil-liam Hurt, Kathleen Turner. Com trama, amor secreto...
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O MUNDO NOS SEPARA
-  ... sexo. No acho que precisamos disso.
Ele tinha razo, naturalmente. Deirdre no podia entender como fora to impulsiva a ponto de sugerir aquele filme.
-  Ah! - Neil disse ao apanhar outra caixa de cassetes. - Este  bom, The Eye of the Needle.
O filme tinha ao, trama e, sim, um pouco de sexo. E Deirdre achou que poderia agentar essa amostrinha de sexo.
- OK, ponha esse - disse ela, sentando-se no sof da sala enquanto Neil colocava o cassete no vdeo.
Ele apertou vrios botes, pegou o controle remoto e sentou-se ao lado de Deirdre. Mas logo ergueu-se, dum salto.
-  Que h de errado? - perguntou ela.
- Precisamos de pipoca. Vi um pacote no armrio da cozinha.
-  Mas leva tempo para fazer pipoca.
- Temos todo o tempo do mundo, Deirdre. Alm disso, no leva mais de alguns minutos fazer pipoca no microonda. Com manteiga derretida em cima. Que delcia!
- Nada de manteiga, Neil. No  bom para voc.
- Que prazer h em comer pipoca sem manteiga? - protestou ele.
-  E mais saudvel.
-  Nesse caso, ponho manteiga na minha. Voc coma a sua sem manteiga.
-  timo.
Deirdre cruzou os braos e acomodou-se melhor enquanto Neil foi fazer a pipoca. Aos poucos ela se acalmava. Era bom ser servida e, o melhor de tudo, Neil no se 
queixava. Imaginava que, se ela tivesse um romance com um homem, no seria to paciente
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O MUNDO NOS SEPARA
e nem servial. E pensar que quase se prendera a um egosta. Sem dvida Neil tinha seus momentos de fria, porm ela saberia como acalm-lo se julgasse necessrio.
Neil entrou na sala carregando a pipoca numa vasilha. Sentou-se no sof, colocou a vasilha entre os dois e fez o filme voltar ao incio.
-  Ps manteiga? - indagou ela.
- No. Voc est certa, no  recomendvel para a sade.
-  Ah! O bom senso prevaleceu.
-  Psiu. Quero ver o filme. Fique quieta. Deirdre ficou quieta. Comeou a comer pipoca enquanto o filme prosseguia.
-  No  a mesma coisa como ver um filme em casa. Aqui, nesta solido, a gente se sente como se fizesse parte do enredo.
-  Psiu. - Neil estava tendo problemas para se concentrar.
Mas no era o filme. Claro, embora tendo-o visto antes, ainda precisava de ateno se quisesse entender o mistrio. Mas o que o distraa era Deirdre sentada ali 
to perto. Apenas o prato de pipoca os separava. A um dado momento os dois se serviram ao mesmo tempo e as mos de ambos se tocaram. Pararam e esperaram.
-  Voc primeiro - disse ele.
Deirdre no tirou os olhos da tela. E respondeu:
-  No, eu espero. Voc antes.
- Eu j comi bastante, Deirdre. Vamos, sirva-se.
-  No quero mais, no posso engordar.
- Voc nunca ser gorda. - Pelo que ele observara, Deirdre comia pouco; quanto a engordar, pelo que sentira, ela era bastante magra. Apesar disso,
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O MUNDO NOS SEPARA
no resistiu ao desejo de provoc-la. -- Pensando bem, talvez voc esteja certa. Pode ficar gorda mesmo. E bem mais baixa do que eu e no est fazendo exerccio 
de espcie alguma.
Deirdre tentou no dar ateno ao comentrio maldoso e serviu-se de mais pipoca. Neil no sabia se ria ou gritava. Ela era impetuosa, mas de maneira adorvel, e 
adorvel de um jeito que o excitava. Era suficiente que o encarasse com aqueles olhos brilhantes para que seu pulso acelerasse. Nunca devia t-la beijado. Maldio! 
Nunca devia t-la beijado.
Mas beijara-a, e isso o perturbava no momento, impedindo-o de se concentrar no filme. Estava o tempo todo consciente da presena de Deirdre. Percebia quando ela 
se mexia no sof, quando deitava a cabea para trs, quando olhava para a tela com olhos semicerrados, quando massageava a prpria coxa, distrada.
- Sua perna est doendo? - perguntou. - Quer uma aspirina?
-  No.
-  Quer blsamo bengue para passar na perna?
-  No h blsamo bengue aqui na casa.
-  Correrei at a farmcia da ilha a fim de compr-lo se voc permitir que eu massageie sua coxa.
- A farmcia da ilha est fechada. J verifiquei.
-  Que pena!
Deirdre apertou as mos e amaldioou mentalmente Neil pela sugesto. Massagear sua coxal Ela queimava por dentro mas, infelizmente, isso no concorria em nada para 
que a dor da coxa diminusse.
Neil, igualmente, amaldioou a sugesto que fizera porque sua mente trabalhou rpido e ele comeou a se enxergar fazendo mais do que apenas uma massagem na coxa 
de Deirdre. Imaginava como
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seriam os seios dela em sua mo, imaginava se a pele do ventre era macia como a dos seios...
Levantou-se do sof e no fez mais sugestes. O filme estava perdido para ele, nada mais o interessava. A nica coisa que trazia algum alvio s necessidades de 
seu corpo era a lembrana de Hartford, do trabalho, de Wittnauer-Douglass. Porque tudo aquilo o aborrecia ainda mais.
Eles jantaram juntos, sentados perto da lareira. Fingiam ler mas, como os olhos de Deirdre estivessem mais presos nas chamas do que no livro, Neil suspeitou que 
no havia grande interesse da parte dela na leitura.
Havia uma expresso de medo no rosto de Deirdre. Neil vira isso antes; e via de novo agora. Ela se perturbava. Teria medo de sexo? Talvez no fosse puramente medo 
de sexo mas qualquer coisa a segurava, mesmo quando cada fibra de seu corpo a conduzia ao amor.
Ele continuou sentado junto  lareira muito tempo depois que Deirdre refugiou-se no quarto. Quando finalmente foi  cama estava to cansado que dormiu imediatamente. 
Ao amanhecer se perguntou se no seria interessante ocupar o outro quarto. Duas vezes durante a noite acordara com o corpo grudado ao de Deirdre, um brao sobre 
ela e a planta do p de Deirdre contra sua perna.
O que seria aquilo que fazia um gravitar em volta do outro? Ambos foram ao Maine  procura de solido, portanto imaginava que escolheriam passar a maior parte do 
tempo em cantos opostos da casa. Mas isso no estava acontecendo. Brigavam e se ofendiam mutuamente o tempo todo, no quarto, na
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cozinha, no sala ou na saleta, mas no se separavam. E agora... tambm... na cama, estavam juntos.
Deirdre abriu os olhos e encolheu-se mais no seu canto. Deitado de costas, Neil olhava para o teto. Mas a imagem que enxergava l em cima era a de uma mulher de 
cabelos alourados, olhos castanho-claros ainda midos do sono, rosto corado e lbios ligeiramente abertos, inseguros, interrogativos.
Tinha de se levantar. Apesar da chuva que no parava e do ar mido, precisava sair da cama. Sem olhar para Deirdre levantou-se, vestiu-se, calou o tnis ainda enlameado 
do dia da chegada  ilha, colocou a jaqueta nos ombros e fugiu do quarto, depois da casa.
Cercada do silncio, Deirdre comeou a se levantar lentamente. Como poderia ela viver naquela constante agitao? Nunca vivera tardes ou noites to ansiosas como 
as ltimas; seus nervos estavam tensos, sensveis; ela sentia o tempo todo a presena de Neil. Ele respirava, Deirdre ouvia-o. Ele virava-se na cama, ela tomava 
conhecimento do fato. Certa vez, acordada no meio da noite, surpreendeu-se ao constatar que sua mo estava sob o brao dele. Estremeceu, mas no por medo do escuro... 
Longe disso...
Seu corpo era como uma mola tensa, sua mente cheia de frustraes. Queria correr dez quilmetros, mas no podia correr nem um metro. Queria dar setenta braadas 
na piscina, mas no podia nem pr os ps numa piscina, muito menos no mar. Queria se exercitar at a exausto, at ficar ensopada de suor, mas... mas... Droga, sim, 
isso ela podia!
Jogando as cobertas longe agarrou as muletas, vestiu short e camiseta. Sentada na cama calou meias e tnis. Em seguida pegou alguns cassetes
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O MUNDO NOS SEPARA
com exerccios de ginstica e foi para um dos outros quartos. Em poucos minutos o som de ginstica ritmada acompanhada de msica encheu a casa.
Ela suspirou fundo e sorriu. Fechou os olhos e comeou a fazer seus familiares exerccios de flexibilidade. Ps as muletas em cima da cama e ficou surpreendida ao 
notar que podia ficar em p sem apoio. O fato de algumas partes da rotina dos exerccios terem de ser alteradas no a incomodou. Ela se movia, ela se movia.
Ao compasso da msica Deirdre torceu e inclinou o corpo. Alongou os msculos da barriga da perna e do tornozelo da perna direita e os msculos internos das coxas 
de ambas as pernas. Sorriu e achou excelente sentir seu corpo de novo. Relaxou ao som da msica.
Depois de alguns minutos deu incio a alguns passos de dana. Embora no pudesse danar muito bem, seus movimentos eram flexveis e envolviam toda a parte superior 
do corpo como tambm a perna boa. No fim dos exerccios sentiu-se muito melhor do que se sentira h dias.
To imersa estava em sua atividade que no percebeu a porta da entrada abrir e fechar. Porm Neil ouviu a msica no minuto em que ps os ps dentro da casa. Ficou 
furioso. O som era alto demais e ele detestava essa barulheira.
Sem tirar a jaqueta molhada foi ao encontro de Deirdre a fim de inform-la de que, uma vez dividindo a mesma casa, ela no tinha direito de ser to sem considerao.
Mas ficou petrificado na porta do quarto de hspedes quando deparou com Deirdre. De olhos fechados, quase em transe, ela movia-se acompanhando o ritmo da msica, 
e com uma graa incrvel apesar
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O MUNDO NOS SEPARA
da perna engessada. Porm no foram os movimentos de Deirdre que o deixaram quase sem flego. Mas o corpo dela.
Se tivesse sabido o que Deirdre escondia sob as roupas folgadas, no teria tido necessidade de imaginar tanto. No momento ela usava apenas short e uma camiseta que 
deixava os braos e parte dos ombros nus. Seus seios eram visveis, proeminentes no tecido leve. A cintura era fina. O short reduzido expunha poro exagerada de 
coxas sedosas.
Neil engoliu em seco. Deirdre inclinou-se, endireitou-se, ergueu os braos acima da cabea e comeou a balanar o corpo de um lado para o corpo, vagarosamente. Neil 
engoliu em seco mais uma vez, estarrecido com a firmeza dos seios que se erguiam a cada movimento.
Deu-se conta ento de que a deselegncia de Deirdre devia-se s roupas largas que ela usava. Deirdre Joyce era elegante, graciosa e flexvel. Com os cabelos midos 
em volta do rosto, a pele brilhando por causa da camada de transpirao, com os braos flexveis, os seios salientes, os quadris balanando, tinha uma aparncia 
quente, sexy, e muito feminina.
Ele estava em agonia, com o corpo rgido e a respirao ofegante. Saiu correndo e foi ao banheiro. Achou que se no tomasse imediatamente um banho frio explodiria.
Abriu a torneira da ducha ao mximo, ps a cabea embaixo do jato violento e l ficou, tenso, at que a gua fria acabasse com a febre de seu corpo. Pensava em Hartford, 
em Wittnauer-Douglass, no tio que morrera h um ano, no basquete, em qualquer coisa que afastasse sua mente de Deirdre. S aps ter certeza de que adquirira certo 
controle emo-
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O MUNDO NOS SEPARA
cional, ajustou a gua para uma temperatura mais amena e continuou com o banho.
Deirdre, que ignorava completamente o drama pelo qual Neil passava, terminou seus exerccios e relaxou de novo. Cansada mas ao mesmo tempo feliz, deixou que a msica 
prosseguisse; era-lhe familiar, confortadora e relaxante.
Pegou as muletas enfim, sabendo que, se no se enxugasse e se trocasse logo, a transpirao secaria e seu corpo ficaria gelado.
Desligou o vdeo. A casa estava silenciosa o que significava, ela pensou, que Neil se encontrava ainda fora. Poderia ento ir ao banheiro sem medo de intruso. Um 
banho quente lhe parecia algo tentador.
Com um sorriso nos lbios resolveu ir para o quarto principal. Estava orgulhosa de si mesma. Exercitara-se e, ao faz-lo, no apenas provara a si mesma ser capaz 
disso como tambm afugentara a horrvel tenso com que acordara naquela manh.
Tencionando encher a banheira enquanto se despia, foi direto ao banheiro. A porta estava fechada. Sem refletir, abriu-a com o ombro. A parou, atnita.
Neil estava em frente  pia, com o corpo inclinado e as enormes mos na beirada de porcelana. E... completamente nu.
Deirdre ficou imvel, mesmo depois que Neil levantou a cabea e a fitou. O corpo masculino, na opinio dela, era o mais atraente que j vira: os ombros largos, os 
quadris estreitos. Os ossos da pl-vis eram visveis sob os msculos, como tambm bem visvel era o rgo sexual.
- Deirdre?! - A voz seca assustou-a. Sem se perturbar, sem acanhamento, Neil vagarosamente
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aproximou-se dela. - Deirdre?! - repetiu, dessa vez quase num sussurro.
Deirdre parecia ter criado razes no cho; no conseguia quase respirar e muito menos falar. Seus olhos estavam arregalados.
Neil, com a mo, enxugou as gotas de suor do nariz dela e depois afagou-lhe o rosto, o pescoo e o colo. A respirao de Deirdre ficou ofegante quando ele afastou 
os ombros da camiseta e acariciou-lhe as costas, mais abaixo, mais abaixo... Ela abafou um gemido no instante em que Neil tocou-lhe um dos seios; foi quando notou 
a mudana gradual da parte inferior do corpo dele.
-  Eu no sabia que voc era to linda! - Neil sussurrou. - Sempre escondeu seu corpo de mim.
Deirdre no sabia o que dizer. No conseguia acreditar que ele a elogiava. Com certeza as outras mulheres que conhecera eram bem mais desejveis. E, embora percebesse 
que o excitara, suas inseguranas aumentavam.
Com as pontas dos dedos Neil continuava a acarici-la por baixo do suti.
-  Tire essa roupa - pediu, com voz grave, os olhos flamejantes. - Quero v-la melhor.
Deirdre sacudiu a cabea, num gesto negativo.
-  Por que no?
-  Estou suada.
- Tome um banho de chuveiro comigo. - Agora ele fazia movimentos circulares com o dedo no ma-milo de um dos seios.
Segurando um gemido, ela respondeu:
-  No posso tomar banho de chuveiro.
-  Um banho de imerso. OK?
Deirdre no tinha muita certeza se era a sensua-
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lidade das palavras dele, ou o roar do dedo no ma-     ^ milo, mas seu joelho bom cedeu e ela teria cado se    * no tivesse as muletas sob os braos. As mos 
de   "C Neil em seu corpo provocavam ondas de fogo. Dessa     [ vez Deirdre no pde segurar o gemido.
-  Est gostando? - ele perguntou.
-  Eu no queria que isto acontecesse.
-  Nem eu. Mas aconteceu, no aconteceu? Tudo parecia um paraso, Deirdre refletia. Neil ali
tocando-a, to perto, e nu. Ela gostaria de tambm ficar nua, mas tinha medo. Neil desapontaria ao v-la, sem dvida desapontaria. Ela era uma atleta, tinha corpo 
masculino de acordo com a opinio de sua famlia, e essa afirmao a perseguira por anos. Acreditava no ser frgil, nem suave e nem graciosa.
E, mesmo que Neil no desapontasse ao v-la, desapontaria quando o resto acontecesse. Ela sentia um vazio clamando dentro de si e desejava fazer amor. Mas, e se 
Neil se decepcionasse? A iluso acabaria.
Deirdre deu um passo atrs e disse:
-  Preciso ir. Tenho de ir, Neil.
Sem esperar pela resposta, ela fugiu do banheiro e foi para o quarto onde exercitara minutos atrs, caindo numa cadeira e se amaldioando.
Nunca soube quanto tempo ficou l. Mas o suor secara e seu corpo estava gelado quando Neil apareceu na porta. Ele usava agora jeans e suter, mas continuava descalo 
como sempre. Deirdre queria acreditar que as coisas haviam voltado ao normal entre eles, mas sabia que no.
Neil no parecia zangado nem frustrado; ao contrrio, havia ternura em seu olhar. Entrando no quarto pegou uma manta e colocou-a nos ombros dela; depois acocorou-se 
junto  cadeira.
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-  O que a assusta, Deirdre? - perguntou, num tom de voz que a teria derretido se ela no tivesse derretido antes.
-  Voc. Eu. No sei - Deirdre respondeu.
-  Eu nunca magoaria voc.
-  Eu sei.
-  Ento, o que h? Voc gosta de mim, posso sentir isso. Contudo treme, respira com dificuldade. E medo, por acaso?
-  No propriamente.
-  Mas me deseja, no?
-  Sim.
- Por que no relaxa ento e deixa que as coisas aconteam naturalmente? Ser bom, garanto que vai ser bom.
-  Com certeza ser bom para mim. Mas no sei se para voc, Neil.
-  Por que no me deixa ser o juiz de meus sentimentos?
-  Sou uma atleta, no macia e gostosa de se apalpar como a maioria das mulheres.
-  S porque  uma atleta no quer dizer que no  gostosa de se apalpar. Alm disso, se eu quisesse uma bola acolchoada para apalpar, iria  cama com um ursinho.
Como fora inteno de Neil, Deirdre sorriu. Porm foi um sorriso nervoso.
- No posso imaginar voc na cama com um ursinho - disse ela.
- Nem eu. Mas no posso me imaginar desapontado se me deixar toc-la..., abra-la..., fazer amor com voc.
As palavras de Neil provocaram uma onda de ex-citao em Deirdre.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Estou com medo. - Foi tudo o que ela conseguiu responder.
Neil beijou-a suavemente.
- Eu nunca magoarei voc. Jamais se esquea disso. - Assim dizendo, ele levantou-se e saiu do quarto.
A declarao de Neil ficou o dia inteiro soando nos ouvidos de Deirdre. Ela no duvidava daquilo que ele dissera. Mas havia vrios tipos de mgoa. A fsica estava 
fora de cogitao; Neil era bastante gentil para machuc-la. Porm a dor emocional seria algo diferente. Se o relacionamento sexual entre os dois resultasse num 
fracasso..., ela sofreria muito. , Apesar de brigarem o tempo todo, Neil j significava muita coisa em sua vida. Deirdre recusava examinar a exata natureza dessa 
muita coisa; mas tinha pavor de pr tudo a perder.
Contudo, Neil no poderia ter pensado em meio melhor de incitar Deirdre a aceit-lo. Tentou ser o mais amvel possvel. Sem uma palavra, preparou todas as refeies 
do dia; sem uma palavra, lavou toda a roupa; no se queixou do rudo irritante das agulhas de tric; deixou que Deirdre escolhesse os cassetes para o vdeo. E, o 
mais importante, no provocou nenhuma discusso. E nem ela. Foi o dia mais tranqilo que passaram na ilha.
Deirdre estava consciente do fato. E o resultado de tanta calma foi que ela pensou muito sobre o que faria para resolver seu problema. Se a soluo fosse unicamente 
cerebral, poderia resistir facilmente aos assdios dele. Porm seu corpo recusava ser razovel e estava constantemente ligado  presena fsica de Neil. Embora calma 
no exterior, internamente Deirdre era um aglomerado de clulas que
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clamavam para se liberar da tenso que irradiava atravs do corpo, em forma de ondas constantes.
Quando terminaram de jantar e aps haverem passado uma hora em frente  lareira, Deirdre teve sua resposta. Sim, ela estava assustada e muito, muito nervosa; mas 
decidiu que, se Neil se aproximasse dela mais uma vez, no o recusaria. O lado sensual de sua natureza exigia esse comportamento.
Calmamente Deirdre pegou as muletas e saiu da sala. Uma vez no quarto vestiu o pijama, sentou-se na cama e refletiu sobre sua deciso. Estava se arriscando, sabia 
disso. Se as coisas no sassem bem a atmosfera da casa ficaria insuportvel, pior que nunca. Mas... talvez no. Quem sabe pudessem viver um relacionamento platnico 
pelo resto da temporada na ilha. Mas... e se Neil no a procurasse mais?
Enquanto assim pensava, ele entrou no quarto silenciosamente. Deirdre ficou de sbito apavorada e agarrou com fora a beirada da cama.
Mais do que nunca Neil queria aliviar o sofrimento de Deirdre. Ele se preocupava por saber ser a causa de todo esse sofrimento, como tambm sabia que o sofrimento 
era infundado. Se Deirdre pensava que no iria satisfaz-lo, sofria desnecessariamente! Ela o atraa como mulher alguma conseguira atra-lo at ento, tanto fisicamente 
como em milhares de outros aspectos.
Neil fitou-a com olhar suplicante. Queria pedir-lhe algo, mas no conseguia encontrar palavras. Tambm estava assustado, receoso de no ser aceito, de no ser bem 
recebido.
Deirdre tremia ainda, mas no estava to apreensiva a ponto de no se dar conta do pedido silencioso do olhar de Neil. Era uma splica que continha tam-
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bem seu quinho de insegurana. Ento, mais do que qualquer outra coisa, isso lhe deu a coragem de que necessitava.
Ela ergueu a mo e afagou-lhe o rosto e os cabelos. Nervosa, permitiu que seus lbios se abrissem num sorriso.
Neil no esperava reao to animadora. Sentiu-se aliviado e vitorioso. E, mais ainda: uma onda de afeio cresceu dentro dele, espalhando calor por todo o corpo. 
Quaisquer que fossem os pavores de Deirdre, via-se que ela queria confiar nele. Isso o satisfez muito, quase tanto quanto a perspectiva do que estava por vir.
Ele tambm acariciou o rosto de Deirdre. Com o polegar contornou-lhe os lbios antes de cobri-los com a boca. O beijo foi ardoroso, mas ao mesmo tempo gentil; selava 
um pacto. E Deirdre ficou perdida. Teve um choque quando sentiu que havia mais do que apenas um beijo no ato do amor. A expresso de seu rosto ainda revelava receio 
mas Neil foi rpido em lhe prometer carinho e confiana.
- No tenha medo - sussurrou. - Vamos bem devagar.
Ele escorregou as mos pelo pescoo dela, depois desabotoou o primeiro boto do pijama, o segundo, cuidando para que sempre lhe tocasse a pele. No caso dele, esse 
contato provava ansiedade; para Deirdre, era tal qual uma conexo eltrica de sensualidade que servia como anestsico  sua apreenso.
S quando desabotoou o pijama completamente Neil baixou o olhar. Com mos trmulas a fez despi-lo. A vista dos seios pequenos e firmes, redondos, agora expostos, 
deixou Neil perplexo. A realidade
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no o desapontou. Ele mais ou menos esperara por isso o tempo todo.
-  Voc  linda, Deirdre! - exclamou. - O que a fez pensar que no iria me satisfazer?
Deirdre no respondeu. A luminosidade dos olhos de Neil era to especial, to preciosa, que ela teve medo de distra-lo e destruir o encantamento. Esperou, hipnotizada, 
que ele lhe tocasse os seios. Dedos longos os circundaram, fazendo mil crculos  volta, antes de se tornarem mais ousados. Um gemido escapou dos lbios dela quando 
Neil comeou a massage-los. A sensao foi to maravilhosa que ela momentaneamente esqueceu de seus receios.
Quando Neil beijou-lhe os mamilos, Deirdre re-tesou o corpo mas no protestou.
Com a lngua e com os dentes ele provocava-a. Mas suas carcias eram to gentis que Deirdre se emocionou.
Finalmente, quando ela no pde mais resistir, gemeu:
-  Neil... acho que no posso esperar...
- Se eu posso, voc tambm tem de poder - ele murmurou, com a boca encostada nos seios de mamilos agora rgidos.
- Sinto-me como se estivesse pegando fogo, Neil.
- E est.
- No posso ficar imvel.
-  E claro que pode. Espere at que nosso relacionamento amadurea, querida.
-  Esteve amadurecendo durante trs dias j.
- Mas tudo tem de ser feito devagar, muito devagar. Neil despiu seu suter e abraou-a. Esse primeiro
contato, carne contra carne, foi decisivo. Todo o corpo de Deirdre estremeceu no momento em que seus seios tocaram o trax nu de Neil. Ela abraou-o ento com fora, 
como se tivesse medo de perd-lo.
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O aperto de Neil no foi menos intenso. O enorme corpo estremeceu ao sentir a suavidade da carne de Deirdre. Com as mos ele percorria, faminto, cada centmetro 
das costas nuas, dos ombros, das costelas, da cintura de Deirdre. Ele acariciou tambm o ventre liso, os quadris, e o firme traseiro.
Deirdre, que fremia de prazer, aceitou todas as carcias e procurou retribu-las na mesma medida. Adorou deslizar os dedos nas largas costas de Neil, no trax cabeludo.
- Concordo com voc, Deirdre - ele murmurou, beijando-a com fervor. - No tenho certeza se posso esperar muito mais.
Ela estava certa, Neil conclua. Embora no tivessem se capacitado disso, haviam sofrido durante trs dias essa privao. Desde o primeiro instante de convivncia 
houvera curiosidade, curiosidade essa que crescera em intensidade apesar das brigas, apesar dos pontos de vista conflitantes. Mais tarde Neil se perguntaria quanto 
dessas brigas fora provocada pela atrao que sentiam um pelo outro. Mas no momento tudo em que ele podia pensar era que o desejo mtuo estava prestes a explodir.
Neil ergueu-a e a ps gentilmente sobre o travesseiro, ela agora completamente nua.
Deirdre experimentou uma onda de ansiedade quando ele sentou-se na cama para apreci-la melhor. E seus pavores sumiram. No instante em que Ne tocou o ninho de plos 
louros na juno das duas coxas, Deirdre deu uma exclamao de puro prazer.
Ela estava totalmente exposta, e sabia-se apreciada. Olhando para Neil, vendo o modo como o enorme corpo vibrava de desejo, abenoou o destino que os unira.
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- Neil... por favor... - ela suplicava, suspirando. - Eu quero voc, j.
Neil no precisava de outro convite. Despiu-se e em segundos acomodou-se entre as coxas de Deirdre.
Apoiando-se nos cotovelos, roou o corpo quente vrias vezes contra o dela. Mas no fez ainda tentativas para penetr-la; simplesmente usufrua o novo prazer de 
toc-la. Mas o prazer era mtuo, e ambos respiravam ofegantes, com grande dificuldade.
Deirdre jamais experimentara nada igual. No pensava mais em seus pavores, no pensava mais no que aconteceria se Neil no a achasse atraente. Apenas pensava no 
calor que a consumia, sabendo que desejava ser possuda.
Com os olhos fechados, arqueou o corpo, coxas contra coxas, numa splica silenciosa que acabou com sua ltima resistncia. Fazendo-a abrir mais as pernas, Neil posicionou-se 
melhor e abraou-a com firmeza.
-  Olhe para mim, Deirdre - ele sussurrou. - Olhe para mim, querida.
Deirdre arregalou os olhos, e arregalou-os ainda mais quando Neil enfim a penetrou. Sentiu-o dentro de si, deslizando mais e mais profundamente. Foi como se cada 
clula de seu corpo tomasse conhecimento da presena dele, transmitindo ao crebro mensagens importantes. E Deirdre teve certeza de que nunca mais, nunca mais seria 
a mesma pessoa depois daquilo.
Neil fechou os olhos e deixou escapar um longo suspiro. Sua satisfao foi to evidente que Deirdre quase suspirou tambm, aliviada. Mas no tinha foras nem para 
isso. Tudo o que pde fazer foi usufruir a espiral de prazeres que Neil lhe proporcionava.
O calor aumentava rapidamente. Neil adotou um
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ritmo que lhes permitiu prolongar o prazer, sabendo precisamente quando diminuir ou aumentar a intensidade. E Deirdre acompanhava o mesmo ritmo.
Ento, quando o fogo interior ficou impossvel de ser dominado, ela arqueou o corpo pela ltima vez, deu um gemido, e teve uma srie de interminveis orgasmos. Neil 
acompanhou-a, pois se controlara at penetr-la completamente.
Levaram muito tempo para poder falar, muito tempo durante o qual o nico rudo a se ouvir no quarto era a respirao ofegante de ambos e o tamborilar da chuva. Apenas 
quando comearam a respirar normalmente, Neil escorregou para o lado levando-a consigo, e ficando os dois face a face no travesseiro.
-  Bem - ele perguntou -, o que achou?
Por segundos, os velhos medos de Deirdre volta-. ram, e ela murmurou:
-  O que voc achou?
-  Achei que - ele respondeu bem lentamente, com um sorriso nos lbios -, para uma mulher teimosa, de lngua afiada, voc  excelente amante.
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CAPITULO VII
Deirdre sentia-se completamente aliviada, varrera da mente todas as dvidas. Seu rosto iluminou-se com um sorriso apesar de erguer a voz em protesto.
- Lngua afiada? Mulher teimosa? Pois fique sabendo que tudo  por sua causa, Neil Hersey. Voc  que no devia estar aqui!
Neil ficou indiferente. Sua euforia era grande demais para se preocupar com o protesto de Deirdre.
- E se eu no estivesse aqui - ele ousou dizer -, imagine s o que teramos perdido.
Deirdre no teve resposta a dar, por isso continuou sorrindo. Depois de algum tempo Neil afastou com dedos carinhosos uma mecha de cabelos do rosto dela.
- Voc parece muito feliz, querida.
-  E eu estou... feliz... satisfeita... aliviada.
-  Ento, foi horrvel a idia de fazer amor comigo? - ele caoou.
- Oh, no, Neil. Foi emocionante. Mas eu estava l.iio assustada!
- E eu ainda no entendi bem por qu. No podia MIT s por causa de ser uma atleta. Havia algo a ver com aquele seu amor do passado?
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O MUNDO NOS SEPARA
- Indiretamente, penso que sim. Tudo ia bem entre mim e ele... sexualmente. Mas, quando Seth resolveu ir embora, foi, como se no tivesse acontecido nada de importante 
conosco. Agora, refletindo bem, acho que levei o caso muito como pessoal, mais do que na verdade deveria. - Deirdre acariciou o trax de Neil, parecendo querer reviver 
o que experimentara horas antes. E isso lhe deu coragem para continuar falando: - Acho que tudo tem mais a ver com minha famlia do que propriamente com Seth. Sempre 
fui considerada a ovelha negra, a filha que no se enquadrava bem no esquema do lar. Minha me  o modelo de boas maneiras, bonita, feminina. Minha irm, o mesmo. 
Sempre fui diferente, e ningum em casa faz segredo da opinio que tem sobre mim.
Neil acariciou-lhe o rosto e perguntou:
-  Sua me ignora que voc  muito, muito feminina?
-  Com certeza.
-  Como sua me sabe pouco! - Neil deu uma gargalhada.
- Voc se refere a sexo, que  apenas uma parte de tudo; mas, de qualquer maneira, esse seu comentrio faz bem ao meu ego.
-  E sua receptividade foi boa para mim. Acho que nunca mulher alguma me desejou tanto. Sei que sexo era a ltima coisa que voc tinha em mente ao vir para c, e 
isso torna seu desejo ainda mais precioso. Contudo, gostaria de ter certeza de que no agiria assim com qualquer homem.
- E pode ter certeza! - exclamou ela, baixando depois a voz para acrescentar: - Houve apenas um
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homem em minha vida, e esse foi Seth. No sou mulher muito experiente.
- Mulheres experientes no so as de minha preferncia. Para mim, voc vale muito mais.
- Minha vida nunca foi regida por necessidades sexuais. Jamais me considerei uma mulher sensual.
- Todos ns temos nosso quinho de sensualidade, Deirdre.
- Concordo, mas em vrios nveis, e esses nveis variam enormemente. - Ela ajeitou a coxa entre as dele, tendo prazer no roar dos corpos. - O que quero dizer  
que sempre me coloquei no nvel mais baixo da escala.
- Ainda se coloca?
-  Com voc? No, Neil, claro que no.
Ele escorregou a mo ao longo das costas de Deirdre, agarrou-lhe o traseiro e o comprimiu contra seu corpo.
-  Que bom! - disse, e suspirou. - Acho que a quero de novo.
Deirdre no poderia se sentir mais feliz. No apenas porque Neil iria provar mais uma vez que seus pavores eram infundados, como tambm porque ele queria repetir 
a experincia, porque a desejava.
- Acho que o desejo  mtuo - disse ela.
- Alguma mgoa?
-  S uma: no posso enrolar ambas as pernas em volta de sua cintura.
-  No, por enquanto - Neil consolou-a. - No a machuquei, no?
- Dei a voc a impresso de que estava sofrendo?
-  Sim, uma dor terrvel - ele caoou. Deirdre acariciou a regio entrepernas de Neil.
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-  Deirdre?! - Mais uma vez ele estava tendo dificuldade em respirar.
-  Seu corpo  perfeito, Neil. No tive tempo de toc-lo aqui antes.
- Oh, Deus - ele gemeu. Agarrou ento Deirdre pelos ombros e beijou-lhe a testa. - Oh...
-  Gosta disto? - ela perguntou, continuando a massagear o rgo intumescido.
- Oh... sim... Continue, continue, amor. Sinto-me quase no cu.
-  Quase?
-  Sim, quase, porque o verdadeiro cu  quando estou dentro de voc. - Inserindo uma perna entre as dela, Neil a fez erguer as ndegas e sussurrou: - Voc  to 
quente, to mida, to firme. Parece ter sido feita para mim. E s para mim.
Foi a vez de Deirdre gemer. Neil a penetrava e com a mo acariciava-lhe o corpo usando de uma habilidade incrvel. Ela acreditou que fosse explodir.
E a exploso de fato no demorou. Neil cobriu-lhe a boca com a sua. O ritmo da penetrao ia ficando cada vez mais rpido, at ambos atingirem um or-gasmo violento.
Quando enfim tombaram no travesseiro, no tinham foras para falar, tampouco necessidade. Ainda agarrados um ao outro, adormeceram, exaustos.
O dia seguinte foi o mais maravilhoso na vida de Deirdre. Acordou nos braos de Neil com um sorriso nos lbios. Ele pediu-lhe que ficasse na cama enquanto tomava 
uma ducha. Em seguida tomou-a nos braos e levou-a para um banho de imerso. Depois de banh-la at a completa satisfao de ambos, sentiram necessidade de outro 
tipo de satisfa-
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o. Neil carregou-a ento de volta  cama e ps-se a adorar cada centmetro do corpo nu de Deirdre. Com dedos jeitosos, lngua hbil, sexo palpitante, conduziu-a 
a clmax aps clmax at que ela suplicasse por uma pausa.
-  Manaco sexual! - gritou. - Estou confinada numa ilha deserta com um manaco sexual!
- Olhe s quem fala! - foi tudo o que Neil disse. No apenas Deirdre estava igualmente faminta de sexo, como tambm tomara todas as liberdades com seu corpo como 
ele com o dela.
No se preocuparam em se vestir naquele dia. Parecera-lhes perda de tempo e de esforo. Ao sarem do quarto repartiram entre si o pijama folgado de Deirdre; a parte 
de cima ficou com ela, e a de baixo com ele. Neil provocou-a dizendo que ela havia trazido de propsito pijama de homem, com segunda inteno. Porm sentia-se muito 
contente, pois via como era prtica aquela soluo: na cozinha, na sala ou na saleta, tudo o que precisavam fazer para se amar novamente era Deirdre erguer um pouco 
a blusa e ele baixar a cala.
Na verdade se completavam, tanto no corpo como na mente. Deirdre reconhecia, porm, que viviam um sonho e que a realidade os aguardava com suas garras poderosas. 
Ela procurava afastar esses pensamentos sombrios, uma vez sabendo-se to completa, to satisfeita. Neil a aceitara. E para aceit-la no se baseara em quem era ela, 
no que fazia para viver, ou que meio social freqentava. Ele a desejava como um ser humano. Apenas isso.
Neil parecia bastante feliz tambm. Recusava pensar no fato de que Deirdre no conhecia nada acerca da mudana de sua vida em Hartford, coisa
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que no o preocupava no momento. Estava feliz e a fizera feliz. Deirdre no se detinha em pensar nas finanas dele nem na reputao. Aceitava-o como ele era.
Ambos s pensavam mo presente. Um dia seguia-se ao outro, cada um repleto de relaxamento, atividade moderada e amor. Deirdre terminou de ler um livro e comeou outro. 
Prosseguiu com seu suter e fez bastante progresso no tric. Fazia exerccios diariamente mas no exagerava. Tinha muito cuidado, na esperana de que pudesse lecionar 
de novo num futuro prximo.
Neil tambm leu muito. Assumiu toda a responsabilidade pelos servios da casa, e tinha prazer no que fazia. De quando em quando Deirdre tentava ajud-lo, mas ele 
no o permitia, considerando a dificuldade que tinha com as muletas.
As discusses dos trs primeiros dias terminaram por completo. Isso no queria dizer, no entanto, que concordavam em tudo. Mas procuravam se entender. Neil aceitava 
o rudo da msica de Deirdre, e ela aceitava o barulho dos jogos assistidos por Neil, transmitidos pelo rdio.
Numa noite em que Deirdre se sentia particularmente alegre, flutuante no espao, Neil tirou um charuto cubano do bolso e comeou a fumar. Ela tapou o nariz. Apenas 
isso..., e sem se queixar. A estava o sinal evidente de como haviam progredido no relacionamento.
Neil j fumava por alguns minutos quando lhe lanou um olhar furtivo.
- Oh! - exclamou. - Incomodo?
Ela sacudiu os ombros e perguntou, cuidosamente respirando s pela boca:
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-  No  ilegal importar charutos?
- E ilegal importar, claro. Mas se um estrangeiro I raz charutos de Havana para seu prprio uso e o divide com amigos, tudo OK.
- Foi assim que voc os adquiriu?
-  Foi. Tenho um cliente jordaniano que possui interesses aqui nos Estados Unidos. Ele me deu uma caixa h meses. No sou um fumante inveterado mas acho que, se 
algum quer fumar um charuto, qm; fume dos melhores. Quer que eu o jogue fora? Incomodo-a?
- No jogue fora por minha causa, mas no me l"'a para beij-lo.
Neil colocou o charuto no cinzeiro, levantou-se e nproximou-se dela.
- No se aproxime - Deirdre ordenou. - Sei o que voc pretende.
Ele ps as mos uma de cada lado dos braos da poltrona de Deirdre, inclinou o rosto quase encostando no dela, e disse:
-  Vou beij-la se eu quiser, e voc gostar de meu beijo com ou sem hlito de fumo.
-  No, no...
O protesto de Deirdre foi interrompido pelos lbios dele. Neil beijou-a com a mesma paixo de sempre, sendo correspondido plenamente.
Quando terminou de beij-la, declarou:
-  Agora voc pode respirar sem problemas. Deirdre fechara os olhos e a mo que tapava o
nariz h muito o abandonara, e agora acariciava o rosto barbudo de Neil, e os cabelos sedosos.
-  Como posso respirar se voc me deixa sem flego?
Mas, quando ela puxou-o para perto de si, Neil
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entendeu, e j estava mais que ansioso para satisfazer o desejo de Deirdre.
O tempo passou; o charuto queimou no cinzeiro, abandonado; e nenhum dos dois deu pelo fato.
Bem cedo pela manh, decorrida a primeira semana na ilha, Thomas se comunicou pelo rdio. Foi Neil quem atendeu ao chamado; porm Deirdre estava perto e ouviu tudo.
- Como vo indo vocs dois? - Thomas perguntou. Neil sorriu, mas procurou responder com seriedade:
-  OK.
- Recebi os recados, mas estive fora quase a semana inteira. Achei que continuariam tentando contato se houvesse alguma emergncia.
-  Ele se sente culpado - Deirdre sussurrou. - E tem mesmo de se sentir.
- Vamos indo bem, Thomas - Neil confirmou o que dissera antes.
- Deirdre no est tendo problemas com a perna engessada?
-  Ela s tem alguma dificuldade com as tarefas da casa -, Neil mentiu - por causa das muletas.
-  Oh - disse Thomas. - Vitria preocupou-se com isso. E vocs dois, esto vivendo em harmonia?
-  Vivemos muito bem! - Deirdre murmurou. Deslizou a mo pelas costas de Neil e enfiou os dedos no cs do jeans.
Ele limpou a garganta e respondeu:
-  Estamos ainda vivos.
- Voc o deixa louco - ela sussurrou. - Thomas deve estar morrendo de curiosidade.
-  Deixe que morra - Neil tambm sussurrou. Durante a breve troca de palavras, Thomas pro-
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curava se convencer de que, o que acontecia com os dois, era problema de Vitria.
- Bem - declarou ele. - Eu s queria que soubessem que h novos suprimentos no cais.
- No cais? - Neil insistiu, olhando para o relgio. Eram apenas nove horas. - Voc deve ter vindo aqui antes do amanhecer.
-  Deixei as coisas ontem  noite.
-  Covarde!
-  Como? No ouvi o que voc falou.
-  Eu disse obrigado - Neil mentiu.
-  Ah, OK. Passarei na prxima semana a fim de apanh-los. Informem-me se houver alguma mudana nos planos.
Pela primeira vez durante a conversa a hesitao de Neil foi real. Olhando para Deirdre ali ao seu lado, ficou subitamente srio.
-  Informaremos, Thomas - respondeu, dando por terminada a conexo pelo rdio. Depois de alguns minutos, disse a Deirdre: - Voc v o que estou vendo?
-  No sei. O que voc est vendo, Neil?
- O sol. Bem, no propriamente o sol. Mas o cu parece mais claro no horizonte e no choveu desde ontem. Isso significa que poderemos dar um passeio depois que eu 
for buscar as coisas no cais.
- Que delcia! - Deirdre exclamou. - Que delcia!
A mudana do tempo trouxe alma nova para eles. Como se desejasse compensar sua longa ausncia, o sol surgiu com todo o seu esplendor, de um dia para o outro.
O ar ficou agradvel e, apesar das limitaes por * causa das muletas, Deirdre foi dar um passeio com
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Neil, explorando a maior parte da pequena ilha. Nos dias subseqentes iam ora numa direo, ora noutra; s vezes subiam num rochedo para de l apreciar o mar. Observavam 
o sol nascer todas as manhs, observavam o pr-do-sol todas as tardes.
Infelizmente, com muita freqncia e  medida que os dias se sucediam, a serenidade era perturbada pela lembrana das ultimas palavras de Tho-mas. Ele iria apanh-los 
no fim da semana e o tempo passava to depressa... Deirdre comeou a pensar mais e mais sobre Providence, Neil sobre Hartford.
E o desentendimento entre ambos reiniciou.
Enfim, trs dias antes da data da partida as coisas tomaram rumo diferente. Uma noite, tendo apenas acabado de jantar, sentaram-se na saleta para assistir ao filme 
"Caadores da Arca Perdida". Mas, na verdade, nenhum dos dois prestava muita ateno. Abruptamente, Neil desligou o vdeo.
Deirdre franziu a testa, e perguntou, irritada:
-  Por que fez isso?
- Voc est roendo as unhas de novo. Esse rudo me deixa louco! - O que o deixava verdadeiramente louco era a perspectiva de voltar a Hartford. O vcio de Deirdre 
fora apenas uma boa desculpa, um pretexto.
-  Mas eu quero ver o filme, Neil.
-  Como pode ver o filme se est ocupada em roer suas unhas?
-  Talvez se voc no estivesse esfregando essa maldita barba eu poderia me concentrar melhor.
-  Voc no implicou com minha barba durante dias. Por que isso agora? Talvez eu esteja fazendo isso para abafar o rudo que faz com as unhas. Por que isso agora, 
Deirdre?

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-   um tique nervoso, Neil. No consigo evitar.
-  E por que est nervosa? Achei que se sentia calma e relaxada.
- E me sinto! - ela gritou. Depois, ouvindo sua prpria voz, se corrigiu: - No, no me sinto.
O silncio pairou no ar.
-  Precisamos conversar - Neil enfim disse.
-  Eu sei.
-  Thomas estar aqui muito breve.
-  Eu sei.
-  Que vamos fazer?
-  Diga a ele que decidimos ficar mais uma semana. - Mais do que aborrecida  idia de voltar a Providence, Deirdre se aborrecia com a perspectiva de se separar 
de Neil.
-  No posso fazer isso - ele observou. - Por mais que eu queira, no posso.
-  Ento, o que sugere?
-  No sei. Droga, no sei. Venho pensando no caso. No,  mentira, tenho evitado pensar na volta e, como resultado, no planejei nada. E agora vem essa complicao.
-  Que complicao? - Deirdre no gostou do modo como Neil falara complicao.
-  Ns.                                                         
Foi um golpe no peito dela. Embora sabendo que Neil estava certo, no queria que se tratasse o caso deles como complicao.
- Olhe - Deirdre protestou -, no podemos considerar nossa vida futura uma complicao. Voc segue seu caminho, eu sigo o meu.
-   como deseja?
-  No.
-  Como deseja ento, Deirdre?
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-  No sei. Voc no  o nico a evitar pensar sobre nossa volta. No encontrei solues tampouco.
-  Mas concordamos em continuar nos vendo.
-  Sim!
- A est a complicao. - Ele deu-lhe as costas e olhou pela janela.
Deirdre, de contrapartida, fitou-o.
-  OK, Neil - disse. - Voc tem razo, precisamos conversar. Acerca de tudo. - Ao ver que ele no se movia, acrescentou: - Quando chegamos aqui, ambos estvamos 
de muito mau humor. Sei minhas razes, mas desconheo as suas. No incio no queria sab-las, porque tinha meus prprios problemas. Porm, quando as coisas ficaram... 
melhores entre ns, no quis lhe perguntar nada por medo de estragar tudo. Mas vou lhe perguntar agora. Se pretendemos continuar amigos, preciso saber. O que aconteceu, 
Neil? O que houve em Hartford que o trouxe at aqui com tanta mgoa? Por que precisou fugir?
Neil sentiu que o momento da verdade chegara. Deirdre era curiosa, e inteligente tambm. Embora ele desejasse no revelar nada, tinha de faz-lo, pois mais do que 
qualquer outra pessoa do mundo ela precisava saber.
Encarou-a ento e disse, com um suspiro resignado:
- Tenho um grande problema em minha cidade. E isso envolve um de meus principais clientes, ou melhor, um de meus principais ex-clientes, uma grande corporao com 
sede em Hartford. - Ele hesitou.
- Continue - Deirdre pediu. - Acho que comeo a entender seu problema.
- Fui chefe do conselho administrativo dessa cor-
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O MUNDO NOS SEPARA
porao por trs anos, e durante todo esse tempo tornei-me muitssimo familiar com vrios aspectos do negcio. No ltimo vero, inadvertidamente, topei com um esquema 
de corrupo envolvendo o presidente da firma.
Deirdre observava-o com visvel receio. Interiormente recusava acreditar que ele tivesse fechado os olhos  corrupo. Contudo, como parte da firma, talvez tivesse 
entrado no esquema, agindo de acordo com o cliente; no caso, seu empregador.
- No - Neil disse, lendo os pensamentos dela. - Nunca pedi uma participao no...
-  Imaginei. Mas voc deve ter ficado numa posio difcil.
Ele sentiu-se aliviado ante a bvia sinceridade de Deirdre, mas, de qualquer maneira, sua explicao tornava-se cada vez mais complicada. Como gostaria de poder 
dizer a ela que seu trabalho como advogado era um sucesso, e que esse sucesso aumentava dia a dia! Ento, veria os olhos de Deirdre brilhar. Mas a realidade era 
bem diversa.
Ela no merecia aquilo. Droga, ele no merecia aquilo.
-  Posio terrvel  pintar a coisa com cores suaves - Neil declarou. - Eu poderia ter agido de outra maneira, mas era contra meus princpios. Ento, levei o caso 
ao conselho. Foi quando tudo desmoronou.
-  Como? O que quer dizer com desmoronou?
- Todos no escritrio estavam envolvidos! Todos, todos! Sabiam o que se passava e lamentaram eu haver descoberto!
- O que voc fez? - Deirdre agora estava furiosa.
-  Pedi minha demisso. No tinha outra sada.
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O MUNDO NOS SEPARA
Eu no poderia ficar indiferente vendo-os encher os bolsos  custa dos acionistas e dos empregados. Dos empregados! As ltimas pessoas no mundo que mereciam ser 
trapaceadas!
-  Mas no entendo, Neil. Uma vez que pediu demisso, no ficou tudo acabado? Voc pode ter perdido um cliente, mas tinha outros, no?
-  Oh, tinha! - Ele riu com sarcasmo. - Mas os outros sumiram com uma rapidez que no poderia ser coincidncia. Pareceu-me que a Wittnauer-Dou-glass no ficara satisfeita 
com minha demisso. A diretoria quis ter certeza de que eu no tiraria vantagem do caso.
-  Quer dizer que a diretoria quis mesmo que voc fosse rejeitado por todos.
-  Pior que isso. Eles espalharam que eu havia sido o autor do esquema da corrupo. De acordo com o presidente da firma, e eu soube disso por fonte confivel, se 
eu no tivesse me demitido eles me processariam.
- Mas no podiam fazer tal coisa.
- Podiam fazer o que quisessem. Tenho certeza.
- Afinal, por que a diretoria da Wittnauer-Dou-glass havia de querer mencionar a corrupo? Isso no estragaria o plano?
- No necessariamente. Eles reorganizaram tudo, acrescentaram mais alguns documentos falsos. Quando se tem poder, tem-se poder. E simples assim.
-  E voc no pode lutar contra eles?
-  Que diabos posso eu fazer? - Neil explodiu. - Espalharam calnias to depressa por a toda parte, o que me impossibilita de praticar minha profisso de advogado 
em Hartford. Nenhuma firma confiaria em mim. Nancy, minha amante, foi a pri-
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O MUNDO NOS SEPARA
ineira a se afastar. Alis, isso no me feriu, apenas antecipou algo que iria mesmo acontecer. Mas, antes (|ue eu soubesse o que se passava, fui destitudo do posto 
de conselheiro de importante firma local. Isso nim, me feriu. Cus, no conseguirei trabalho algum cm minha cidade. Jamais!
- Mas eles no podem praticar tamanha injustia.
- J praticaram! - Neil estava furioso lembran-do-se do que se passara, e mais furioso ainda por ter de levar ao conhecimento de Deirdre toda aquela Hujeira. - Trabalhei 
arduamente por anos a fim de progredir em minha carreira de advogado, e eles destruram tudo. E, sabe o pior? Eu no percebi que o perigo vinha chegando! Fui tolo... 
ingnuo!
-  No foi culpa sua ter sido... Neil interrompeu-a:
-  Como pude passar tanto tempo trabalhando com aqueles homens e no ter percebido quem eram? Confio demais nas pessoas, sempre fui desse jeito.
-  Mas confiar  uma qualidade, Neil. A outra alternativa  viver eternamente desconfiado, ou pior, transformar-se num paranico. Voc no poderia viver assim.
- Meus amigos... Eles tentaram me desmoralizar at ante meus amigos.
-  Um verdadeiro amigo no acreditaria nessas mentiras.
- Nesse caso fui tambm um mau juiz. Considerei amigo quem no era amigo.
-  Voc est sendo muito duro consigo prprio...
-  E mais que na hora, no? Algum devia ter sido severo comigo anos atrs. Talvez eu no fosse agora to terrivelmente otimista. Talvez tivesse vis-
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O MUNDO NOS SEPARA
to o que iria acontecer, e hoje no estaria nesta posio insustentvel.
-  Voc vai encontrar novos clientes. - Deirdre tentava anim-lo.
-  No o tipo de clientes que desejo. Minha especialidade  cuidar de grandes Corporaes e essas nem chegaro perto de mim.
-  Talvez no em Hartford...
- O que significa que terei de me mudar. E no quero me mudar. Ao menos, no por esse motivo.
- A situao no me parece to desesperadora. Afinal, voc tem uma profisso e  perito em...
- E veja a que ponto cheguei. Tenho um escritrio confortvel, dois scios muito capazes, e uma clientela que est sumindo rapidamente. Tenho apartamento num condomnio 
onde os moradores que antes eram meus amigos agora nem me olham. No consigo encontrar parceiro para o jogo de tnis ou squash.
- Cus, Neil, voc se considera o nico com problemas. E no  o nico frustrado, acredite-me.
-  Frustrado? Sim, frustrado. E, j que estamos falando do assunto, pode acrescentar mais uma culpa em minha lista de transgresses. Vim aqui e trouxe todas as minhas 
frustraes para voc.
- No foi o nico. Usei-o tambm, Neil. Sou igualmente culpada.
-  Hum... Mas o caso  que seu problema tem uma soluo em vista.  s voc tirar esse gesso...
- No tem nada a ver com minha perna - Deirdre interrompeu-o. - Eu no estaria to nervosa s por causa desta perna quebrada. H outra histria atrs disso, e muito 
inquietante. E se voc disser que minha
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O MUNDO NOS SEPARA
fii Inao no  grave como a sua, acrescente a palavra "egosta" em sua lista de defeitos.
Silncio. Pela primeira vez desde que se conheceram Neil se dava conta de que Deirdre tinha problemas srios. H outra histria atrs disso, ela dissera. De repente 
ele ficou mais apreensivo que furioso.
-  Qual  essa outra histria'?
-  Tudo  muito irnico. A est voc, sem uma corporao para representar. Aqui estou eu, com uma corporao que no desejo representar.
-  De que est falando, Deirdre?
- Da Joyce Empreendimentos. J ouviu falar dessa firma?
- J. Est localizada em... Providence. O "Joyce" de seu nome  o mesmo?
- .  o nome de minha famlia. Meu pai morreu h seis meses e minha irm tomou as rdeas do negcio.
- Ainda no consigo fazer nenhuma conexo entre voc e a Joyce Empreendimentos.
-  Nenhuma conexo comigo? - Ela sorriu tristemente. - Voc tem razo. Eu no me encaixo, esse  o problema. Meus pais insistiram sempre que o negcio ficasse em 
famlia. Sandra, minha irm,  quem cuida de tudo. Tenho dois tios envolvidos na "Joyce", e so bastante competentes como tambm minha me.
-  Apesar disso, querem voc na firma?
-  Certo.
-  E voc no quer.
-  Certo de novo. Tentei uma vez e detestei. No sou daquelas que gostam de se vestir bem todos os dias e receber, o que  a base de nosso
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O MUNDO NOS SEPARA
negcio. No sou diplomata e nem do tipo boneca, boa para exposio.
-  Isso acredito - ele comentou.
-  Eu gostaria que minha famlia tambm acreditasse. Mas no. Todos em casa continuam insistindo que eu sou a nica esperana deles. Durante seis meses vivem atrs 
de mim. Mas, estando eu ocupada com as aulas de ginstica, tive uma boa desculpa. Porm sempre senti que, mais cedo ou mais tarde, quando envelhecesse, teria de 
desistir dos exerccios fsicos. Mas achei que, at l, encontraria uma substituta. Agora as coisas mudaram. E eles comearam a me atormentar outra vez. Antes mesmo 
de eu sair do hospital, j me perseguiam. Acham que sou egosta; talvez eu seja, porque quero ser feliz, e sei que no seria sendo forada a me envolver em negcios. 
E me olham com desprezo por causa do tipo de meu trabalho e porque no tenho marido e nem filhos. Me consideram anormal.
Deirdre fez uma pausa enquanto Neil a fitava com carinho, entendendo bem agora todo o seu problema. E ela prosseguiu:
- Minha famlia precisa de mim, eu sei. O negcio precisa de mim. Posso ficar insensvel e deixar que tudo v por gua abaixo? Porque ir, Neil. Insisto em lhes 
dizer que ponham uma pessoa de fora no negcio, mas recusam. Eu tenho uma responsabilidade, minha me no pra de falar. E isso  o pior de tudo, porque ao mesmo 
tempo em que penso que no tenho nada a ver com o caso, sinto essa responsabilidade. Nego a eles. Neguei a mim mesma muitas vezes. Porm ela est aqui dentro de 
mim. - Deirdre baixou a cabea e repetiu, pondo a mo no peito: - Est aqui.
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Neil beijou-a e disse:
-  Fazemos uma dupla interessante, voc e eu. E no h remdio para o nosso caso.
-  Talvez a farmcia da ilha possua algo. Neil suspirou, dizendo:
- A farmcia da ilha poderia resolver o problema de duas almas que precisavam de um repouso, mas receio que no tenha nada para curar os males que nos aguardam em 
casa.
- Ento, voltamos ao ponto inicial. Que vamos fazer?
- Passar os prximos trs dias nos divertindo. Isto , se voc no se importar em se divertir com um homem que tem um futuro duvidoso...
Foi naquele instante, com Neil ali bem perto, fi-tando-a como se a resposta dela fosse mais importante do que qualquer outra coisa no mundo, que Deirdre percebeu 
que o amava.
Ela sorriu e disse:
-  Se voc no se importar em se divertir com uma mulher que prefere passar o resto da vida nesta ilha em vez de voltar  casa para enfrentar responsabilidades, 
eu...
A resposta de Neil foi um sorriso aberto e um beijo, este mais profundo e mais vindo da alma do que qualquer outro. E seguiu-se um terceiro, um quarto... Em poucos 
minutos, ele e Deirdre pararam de se preocupar com o futuro ocupando-se de coisa mais interessante.
Os trs ltimos dias foram iguais aos precedentes, s que agora eram usufrudos com maior prazer, em vista da aproximao do fim da temporada na ilha. Neil sentia-se 
aliviado por ter contado tudo a Deirdre, mesmo que a confisso no houvesse re-
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solvido nada. Ela aceitara seu dilema sem crticas e com grande afeio.
Quanto a Deirdre, sentia-se feliz por ter dividido o prprio problema com pessoa compreensiva. Neil no se horrorizara com sua atitude e pareceu lhe dedicar mais 
carinho ainda. O tempo corria clere.
Thomas combinara apanh-los s oito horas da manh do ltimo dia na ilha. Portanto, na noite anterior, eles limparam tudo e puseram as coisas em ordem, como estavam 
quando entraram na casa, h duas semanas. Uma tenso subitamente tomou conta dos dois, deixando-os to nervosos quanto no dia da chegada.
Neil lavou as ltimas peas de roupa. Inadvertidamente colocou uma camiseta verde de Deirdre na lavadora onde j estavam as toalhas de banho brancas, azuis e verdes. 
Ao tirar as peas da mquina tinham todas a mesma tonalidade esverdea-da, horrvel, incluindo a camiseta. Ele blasfemou em voz alta.
- Droga, pensei que voc j tivesse posto na mala as toalhas de banho.
- No fiz as malas ainda. - Deirdre queria adiar aquele momento o maior tempo possvel. - Voc no viu que as toalhas estavam na mquina quando l ps minha camiseta?
-  No, no vi, claro.
-  Bem - disse ela -, vamos colocar as toalhas brancas de novo na lavadora, com bastante cndida.
-Acha que vai dar certo? - Neil parecia preocupado.
-  Naturalmente que vai. J fiz isso antes. Deirdre resolveu ir ao quarto deixando que Neil
cuidasse da segunda lavagem.
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O MUNDO NOS SEPARA
Uma das muletas ficou presa na beirada do tapete e ela caiu, gritando de dio.
- Quem ps essa porcaria de tapete a? - disse.
-  Essa "porcaria" de tapete esteve a no mesmo lugar desde que chegamos. No olha onde pisa?
- So essas pontas de borracha das malditas muletas! Ficam presas em tudo.
- Mas no a incomodaram antes, Deirdre. Voc est bem?
-  Estou.
- Que bom. Pretende se machucar? Ou se matar? Por que no toma mais cuidado?
-  Estou tomando cuidado.
-  Ento comeou a andar muito depressa.
-  No mais depressa do que sempre andei.
-  Cuidado, Deirdre! Muito cuidado!
-  No preciso de seus conselhos. Cuido de mim h anos, e vou continuar cuidando! S porque me ajudou nestas duas semanas no quer dizer que tem o direito de me 
dar ordens agora. Se quer mesmo me ajudar, tire essa maldita Joyce Empreendimentos de minhas costas!
-  E se voc quer mesmo me ajudar - Neil fez eco s palavras dela -, ponha nas minhas costas essa maldita Joyce Empreendimentos.
Por longos minutos eles ficaram se fitando, os olhos cintilantes. Gradualmente, a fria de ambos foi sumindo.
- Pegue-a - disse Deirdre. - A Joyce Empreendimentos  sua.
-  Aceito - respondeu ele.
-  Estranha essa sua idia, Neil.
-  Acha?
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O MUNDO NOS SEPARA
- Mas ao menos isso pode proporcionar uma oportunidade de nos vermos de vez em quando.
-  Certo - concordou Neil.
Eles permaneceram onde estavam durante alguns minutos mais. Em seguida, Neil ps a mo nas costas de Deirdre e conduziu-a ao sof.
-  Pensei muito desde que conversamos ontem  noite - ele comeou a falar, hesitante de incio, depois ganhando coragem. - Pensei muito sobre meu problema, tentando 
decidir o que desejo fazer. H horas em que fico furioso, achando que a nica coisa que faz sentido para mim  a vingana. Depois a fria desaparece, e percebo como 
foi absurda e exagerada essa fria. Mas acontece que aquilo que realmente quero  praticar a advocacia. Voc tem uma corporao que no deseja. E eu posso fazer 
bom uso dela.
-  Para se vingar? - Deirdre perguntou.
-  No. Talvez como um tipo de represlia, mas esse no seria meu principal objetivo. Preciso de alguma coisa a fazer, Deirdre. Sofro enorme humilhao por ser obrigado 
a lhe dizer isso, especialmente a voc.  duro para um homem, para qualquer pessoa, suponho, ter to poucas opes. Tento encarar os fatos com clareza, e sinto que 
Hartford no  mais lugar para mim.
-  Voc disse que no queria se mudar.
- Disse, me mudar por causa da Wittnauer-Dou-glass. Daria a todos a impresso de estar fugindo, me reconhecendo culpado. No entretanto, a Joyce Empreendimentos me 
atrai. A firma tem tima reputao. Afinal, sou um bom advogado e tenho prtica em trabalhos com grandes organizaes. Infelizmente, para vocs isso significaria 
pr um estra-
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Jk
O MUNDO NOS SEPARA
nho na Joyce e, pelo que me disse desde o incio, Hua famlia  contra, e com certeza no me aceitar. Deirdre ergueu a cabea e explicou:
-  Eu possuo uma quantidade de aes igual  de minha me e de minha irm. Se voc entrar na corporao comigo, elas no ousariam impedir. E nem poderiam.
-  Mas o caso  que voc no quer entrar na firma. Certo?
- Certo, porm se ns... - Deirdre gaguejou, lutando para encontrar palavras. - Se ficarmos juntos... quer dizer, se eu tornar bem claro que estamos... envolvidos... 
um como outro...
-  Que estamos apaixonados? - perguntou ele.
-  Sim.
-  S isso no  suficiente.  preciso que haja casamento.
-  Casamento"? - Deirdre se propusera que ficassem comprometidos de certa maneira, mas casamento era a ltima coisa que desejava. - Voc no est sendo um tanto 
radical?
Neil sacudiu os ombros, mas no por indiferena. Procurava uma razo para ligar-se a ela de modo mais duradouro. Amava-a. No queria perd-la. Reconhecia que para 
propor casamento era um tanto cedo. Mas a conversa levara-o a isso, afinal.
- Radical? - ele repetiu. - S se considerarmos o pouco tempo de nosso conhecimento. Mas nos damos bem, no acha?
- Brigamos constantemente, Neil! - Se Deirdre soubesse que ele a amava de verdade, nunca teria discutido. Porm Neil jamais confessara seu amor. Da sua resistncia.
- No constantemente. Apenas quando estamos
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O MUNDO NOS SEPARA
frustrados por problemas que fogem ao nosso controle. Tivemos momentos felizes tambm, no acha?
- Tivemos - Deirdre admitiu, ainda que relutante.
-  E se nosso plano der certo, no teremos mais motivos para brigar.
-  Todos os casais brigam.
- Ento, no seremos uma exceo  regra. Encare os fatos objetivamente, Deirdre. Compartilhamos dos mesmos valores e interesses, j provamos que podemos viver juntos. 
Se sobrevivemos nestas duas semanas, juntos vinte e quatro horas por dia, estamos bem na frente de muitos outros casais que conheo.
-  Mas convivemos em esfera to limitada! No  o mundo real. Talvez quando voltarmos a Provi-dence descobriremos que nos odimos.
-   sua insegurana que est falando agora.
-   OK, pode ser. Acho que no fui talhada para ser a esposa de um dirigente de grande firma tanto quanto no fui talhada para dirigir essa mesma firma. No sou 
uma amvel anfitri como no sou uma esposa submissa, sempre concordando com tudo.
- No estou me queixando, Deirdre. E no pediria nada que voc no quisesse fazer. Se tivermos que recepcionar clientes, minha esposa ser mais linda que qualquer 
outra mulher presente. E, em vez de voc cozinhar para nossos clientes, poderemos contratar um servio de fora.
- E receber os clientes em minha modesta casa?
- No, na casa que comprarei para ns dois. No sou um gigol, Deirdre; no entraria nessa se no soubesse que tenho possibilidades. Voc pode no saber disso ainda, 
mas possuo meu orgulho. Se con-
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O MUNDO NOS SEPARA
eordarmos com o esquema, trabalharei como um louco no negcio. Manterei nossa casa, o que significa que lhe darei tudo o que merece. Acho que sou um tanto antiquado 
nesse particular. Quero ser o cabea da casa.
-  Quer dizer que no posso trabalhar ou fazer o que desejo?
-  E claro que pode, no sou antiquado a esse ponto. E se pensa que farei oposio a suas aulas de ginstica, est enganada. Quero que continue com elas. Adoro seu 
corpo atltico. No percebeu isso? Ficarei orgulhoso em ter uma mulher que mantm sempre o corpo em forma.
-  Se eu puder, pretendo continuar com as aulas - ela murmurou. - Mas isso  ainda uma incgnita.
-  Voc vai continuar, j lhe disse. Assim que tirar o gesso e aps algumas sesses de terapia, ficar em forma.
-  Mas... mesmo que isso acontea, a maioria de minhas aulas   noite. Como voc se sentiria quando voltasse a uma casa vazia depois de um rduo dia de trabalho 
e no encontrasse o jantar pronto?
-  Posso cozinhar, sabe disso. Terei orgulho de voc, Deirdre. Terei orgulho de uma esposa que faz algo construtivo, algo de que gosta. E, j que estamos falando 
de orgulho, e caso nos casemos, insisto num acordo, pois no quero seu dinheiro. Assinarei um documento declarando que suas aes da Joyce Empreendimentos continuaro 
sendo suas. Se um dia voc decidir acabar com o casamento, ter tudo o que tinha antes de se casar. E se algum dia decidir que no sou bom para a empresa, tem plena 
liberdade de me demitir. O que desejo  proteger voc, apenas isso.
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O MUNDO NOS SEPARA
Deirdre pensava no momento que jamais iria querer se separar de Neil. A menos que ele o desejasse.
- Mas, e seus interesses? No ficaro protegidos se assinar um documento dessa espcie. Voc se considerou ingnuo no caso da Wittnauer-Douglass. No estaria cometendo 
o mesmo erro?
-  Prefiro encarar esse novo emprego como um desafio, e vou ao encontro dele de olhos abertos. Acho que posso conseguir muito para a Joyce Empreendimentos e, se 
fizer isso, no haver razo para voc me demitir. Estou bem preparado para essa espcie de trabalho. Sim, voc me far um favor dando-me a chance, mas eu lhe farei 
um enorme favor tirando de suas costas uma responsabilidade que no deseja.
Neil tomou-lhe a mo e ps-se a admirar a forma dos longos dedos. E continuou:
-  Voc teria um marido que agradaria sua famlia. E no acha que j est mais que na hora de ter esse marido? Sinto o mesmo em relao a mim, preciso de uma esposa. 
Estou ficando velho, e considero-me bastante pronto para me assentar na vida.
Mas, e o amor1? Onde est o amor em tudo isso?, Deirdre se perguntava.
- Tudo me parece muito... calculado - disse ela em voz alta.
- Em geral as melhores coisas so as calculadas.
- Mas voc no precisa se casar comigo. Podemos fazer tudo isso sem um casamento.
-  No h duvida. Porm a idia de casamento surgiu com o fim de satisfazer sua famlia. Ningum precisa saber de nosso acordo. Para seus familiares, tudo o que 
 seu  meu. Serei um membro da famlia e o negcio familiar ficar intato. Mas o caso  que
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O MUNDO NOS SEPARA
quero me casar com voc. Eu no estaria sugerindo isso tudo se no quisesse mesmo me casar com voc.
Mas, por que quer se casar comigo?, ela ardia em desejo de perguntar. Porm no o fez. Neil poderia lhe dar a resposta que ela desejava, que a deixaria oxultante, 
ou mencionaria razes prticas, que lhe causariam sofrimento. Para no arriscar, simplesmente aceitaria o fato, sem discusso.
- Quer se casar comigo, Deirdre? - perguntou ele.
Os olhos dela brilharam, de tanta emoo. Sem uma palavra fez um gesto afirmativo com a cabea e apertou os dedos de Neil.
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CAPTULO VIII
Conforme prometera, Thomas estava no cais bem cedo na manh seguinte, a fim de apanh-los. Sua curiosidade era evidente a se concluir pelos olhares que lanava a 
Deirdre e Neil, de quando em quando. Estes simplesmente sorriam, contentes com as perspectivas. A idia de que estariam juntos reduzia em grande parte a tristeza 
de deixar a ilha onde, afinal, foram to felizes.
Em terra firme, ele ofereceu-se para lev-la  casa, porm Deirdre recusou, e com muita razo. Neil finalmente entendeu que no fazia sentido ela deixar o prprio 
carro no Maine, quando precisaria de conduo em Providence. Por esse motivo, Neil limitou-se a segui-la na estrada, insistindo que ela parasse algumas vezes para 
descansar e mais tarde para almoar.
Era meio-dia quando chegaram na casa da me de Deirdre. Haviam conversado sobre o assunto antes e concluram que quanto mais depressa comunicassem o casamento a 
Maria Joyce, melhor. E, tendo quase certeza de que Maria iria criar problemas, Neil insistiu em estar presente na ocasio.
Maria encontrava-se na biblioteca no instante em que Deirdre chamou-a do hall.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Deirdre! Estava na hora de voc voltar! Fiquei preocupada imaginando onde estava e como ia passando. Se no tivesse pensado em telefonar para Vitria... - Ela 
parou de falar de repente ao deparar com um homem alto, de jeans, a barba crescida, ao lado da filha. - Santo Deus, quem voc Irouxe desta vez?
Deirdre sentiu uma cutucada no cotovelo e notou que Neil segurava o riso.
- Mame, eu gostaria de lhe apresentar Neil Her-sey. Neil, esta  minha me, Maria Joyce.
Neil deu um passo  frente e estendeu a mo a Maria que no teve outro remdio seno apert-la.
-  Muito prazer, sra. Joyce. Deirdre falou muito na senhora.
Maria no perdeu muito tempo dando ateno s palavras de Neil. Estava preocupada em retirar a mo daquele aperto um tanto ntimo, em seu ponto de vista. Virou-se 
para a filha e disse:
- Vitria enfim confessou que voc havia ido ao Maine. Mal pude acreditar. O local  isolado e, na sua condio...
- Minha condio  boa. E Neil esteve l comigo o tempo todo. - Antes que a me protestasse, ela acrescentou: - Neil  amigo de Vitria tambm. Agora  meu amigo. 
Logo iremos nos casar e queremos que voc seja a primeira a saber.
Maria ficou estupefata. Por segundos no falou. Depois, com a mo sobre o peito, pareceu criar alma nova.
-  No pode estar falando srio.
-  Estou, mame. Vamos nos casar.
- Deirdre, voc mal conhece esse homem! - Maria encarava Neil com olhar de desaprovao.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Voc ficar surpresa com o que vou lhe contar, mame. Duas semanas numa ilha deserta, sozinha com um homem, so suficientes para conhec-lo bastante bem.
Neil tomou a palavra; queria ajudar Deirdre.
- E verdade. Tivemos mais chance de conversar do que muitas pessoas tm em meses. Dividimos as responsabilidades da casa e conclumos que nosso casamento teria todas 
as chances de dar certo.
- Acho que preciso de um drinque - disse Maria, torcendo nervosamente o colar de prolas que usava com seu elegante vestido de seda.
-  E s meio-dia, mame - protestou Deirdre. - Voc no precisa de um drinque a esta hora.
-  Oh, sim, preciso. - Maria foi ao luxuoso bar. Deirdre e Neil seguiram-na. - Quando uma mulher ouve que sua filha, aps anos de resistncia, decide se casar de 
um momento para o outro, e com um homem que acha que conhece mas que no  possvel pois acabou de conhec-lo, essa mulher precisa de um drinque, a qualquer hora 
do dia.
Deirdre fitou Neil com desnimo e sentou-se numa poltrona.
-  Voc precisa escutar o resto da histria, mame, antes de dar sua opinio. Pode falar alguma coisa da qual se arrepender mais tarde.
- Duvido - Maria declarou, colocando uma boa quantidade de usque no copo. - No sei onde errei em seu caso, Deirdre, mas sem dvida errei. Tentei insuflar em voc 
certos valores, mas foram todos rejeitados, um a um. Tentei criar uma lady, mas voc insiste em usar jeans...
-  No jeans, mame, shorts. Sinto muito calor com jeans no vero.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Seja o que for, o caso  o mesmo. Tentei cri-la com sentimento familiar, mas voc insiste em ter sua prpria vida. Tentei faz-la ciente de suas obrigaes nos 
negcios da famlia, e no me ouviu. E agora, em vez de nos ajudar na firma, foge, conhece um homem, um... "hippie", e decide se casar com ele.
Neil, que se conservara quase calado at o momento, resolveu reagir. No se importava com os insultos  sua pessoa, mas achou que Deirdre no os merecia.
-  Acho que no entendeu bem a situao, sra. Joyce - ele disse com tanta autoridade que Maria foi forada a escutar._ No sou um "hippie", nem um vagabundo. Se 
formou sua opinio baseada em meu aspecto, devo lembr-la de que estou voltando de frias. Passo a maior parte de meus dias de terno e gravata, em escritrios acarpetados. 
Muitos deles tm quadros como esse seu Modigliani - ele apontou para a tela acima do piano de cauda -, ou vasos de Baccarat como o que est em cima da mesa a ao 
lado.
-  Mas, o que faz para viver, sr. Hersey?
-  Sou advogado. Dirijo minha prpria firma em Hartford, e sou especializado em trabalhos com corporaes. Posso lhe apresentar meu currculo, comeando pela universidade 
de Harvard, que cursei. Trabalhei para Jennings e Lange, Kron Tech, para a Fundao Holder e para vrias outras firmas aqui mesmo em Providence.
Neil tomou cuidado em citar apenas nomes de firmas que, tinha certeza, dariam timas informaes a seu respeito. Apenas receou que Maria pudesse investigar e descobrisse 
o que acontecera com
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O MUNDO NOS SEPARA
a Wittnauer-Douglass. Porm, precisava arriscar, e tinha esperanas de que, quando ela descobrisse e caso isso acontecesse, j estaria casado com Deirdre.
-  Tudo bem - Maria respondeu. - Confesso que fui precipitada em meu julgamento, mas continuo achando que esse casamento est sendo muito apressado. Quando ter 
lugar?
Deirdre ia falar mas Neil tomou-lhe a dianteira.
- O mais depressa possvel. Penso que sejam necessrios trs dias para se conseguir a licena e para o teste de sangue. Conheo um juiz de paz, aqui em Providence, 
que poder apressar o caso.
- Por que tanta pressa? - Maria lanou  filha um olhar desconfiado. - Sei que h testes que do o resultado imediatamente e...
- No estou grvida, mame - Deirdre interrompeu-a. - Porm, se estivesse, tenho a impresso de que voc ficaria exultante. Deseja ter netos h anos.
- Toda a mulher deseja netos - Maria protestou em autodefesa.
- Voc falou isso muitas vezes, e eis sua chance. No entendo por que est se queixando. Mesmo que eu estivesse grvida, Neil e eu vamos nos casar antes que qualquer 
pessoa amiga descubra algo. No mximo, o beb nasceria duas semanas antes. E da? Ningum iria fazer as contas. Portanto, no haveria razes para embaraos.
- Tudo bem, tudo bem, Deirdre. - Maria lanou um olhar furioso  filha. - Esquea esse assunto de gravidez. Voc vai se casar e partir para Hartford, deixando a 
Joyce Empreendimentos em apuros mais uma vez. Francamente, Deirdre, acha isso justo?
Foi Neil quem respondeu:
- No vamos para Hartford. Planejamos morar aqui.
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O MUNDO NOS SEPARA
- Vai abandonar sua clientela em Hartford?
- Posso praticar minha profisso em qualquer par-lo. Providence  um lugar to bom como os outros.
- Por sinal, mame - Deirdre interferiu na conversa -, Neil concordou em me ajudar na Joyce K mpreendimento s.
Pela segunda vez naquele curto espao de tempo Maria Joyce ficou sem. fala. Olhou para a filha, para Neil e novamente para a filha. Segurando o copo com mos trmulas, 
sussurrou vagarosamente:
-  Isso... foi absolutamente inesperado.
- Como nosso casamento, mame. Tudo faz sentido, no faz? Voc veio atrs de mim durante anos tentando me convencer a ajudar nos negcios. Acho que no sou boa para 
isso, mas tenho certeza de que Neil poder dirigir a Joyce Empreendimentos. Voc sempre quis manter a firma em famlia, pois Neil far parte da famlia. O que mais 
poderia papai desejar alm de ter um genro capaz de realizar o que a filha no pde?
- Mas ele  advogado - Maria retrucou, porm menos agressiva agora. - No est treinado para esse tipo de empreendimento.
-  Eu tampouco, mame. Nem Sandra. Neil tomou a palavra de novo.
- Trabalhei em grandes corporaes como a Joyce durante anos. Isso significa que entendo do negcio. Acho que posso trabalhar por todos ns, sra. Joyce. Eu no me 
ofereceria se no soubesse ser capaz de dar conta do recado.
-  Parece... parece que vocs pensaram em tudo - Maria declarou.
-  E pensamos - respondeu Deirdre.
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Maria sacudiu a cabea, pela primeira vez dando a impresso de que estava confusa.
-  No sei, Deirdre - disse. - Tudo aconteceu to de repente... Eu esperava que, quando minhas filhas se casassem, teriam festas luxuosas, com flores, msica e muitos 
convidados.
- Nunca quis isso, mame. Ficarei absolutamente feliz com uma recepo pequena e ntima.
-   o que voc deseja?
-  E - Deirdre respondeu calmamente.
- Ficaremos mais felizes dessa maneira, sra. Joyce - Neil confirmou. - Garanto.
Achando que haviam vencido a primeira batalha, Deirdre e Neil deixaram Maria para tratar da licena de casamento e do exame de sangue. Depois foram  casa de Deirdre. 
Neil achou-a charmosa, com mveis modernos, e bem diferente da casa de Maria Joyce. No havia tapearias, no havia telas de Modigliani nem vasos de Baccarat, mas 
apenas uma pequena seleo de obras artsticas feitas por artesos locais.
-  Sinto-me bem aqui - Neil comentou quando j estavam na cama juntos.
- Isso me deixa muito contente - Deirdre declarou.
- Sua casa  linda e aconchegante. Despretensiosa como voc.
- Est pensando em alguma coisa, Neil. Vai me dizer o que ?
- Vou. Quando encontrarmos uma casa para ns dois, quero que seja como esta. No pretendo mais morar em museus.
-   isso que sua casa ? - Deirdre perguntou, arregalando os olhos.
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      - Um museu? Sim. E eu nunca havia pensado [   no caso at agora. H algo de atraente na simpli-   cidade de sua casa.  o que eu quero. OK?       - OK.
-  Nada de brigas?
-  Nada.
-  Bom.
No dia seguinte eles foram a Hartford. Neil tinha uma longa lista de coisas a fazer, porm a mais importante e mais difcil de todas tambm foi informar os dois 
scios que ia abandonar o escritrio. Ambos os rapazes eram advogados de talento mas, sendo muito jovens, ainda no tinham uma reputao que lhes facilitasse arranjar 
outros trabalhos. Neil aconselhou-os a juntar-se a uma firma ou a praticar por conta prpria. Quando eles optaram
, pela ltima sugesto, Neil prometeu ajud-los escrevendo cartas aos seus antigos clientes insistindo
! que estariam em boas mos.
A segunda coisa a fazer foi pr o apartamento  venda. A imobiliria informou-o de que no seria difcil vender uma propriedade to bem localizada.
-  Tem certeza mesmo de que quer vender seu condomnio? - Deirdre lhe perguntou timidamente.
-  Por que no? No vou mais morar aqui.
-  Mas se no gostar de Providence... ou se as coisas no forem bem...
Ele agarrou-a pelos ombros e disse, com voz firme:
-  Gostarei de Providence e as coisas iro bem. Vou me dedicar de corpo e alma ao novo trabalho, Deirdre; no h razo para no ir bem.
Voltaram a Providence e foram procurar casa. Mais uma vez a sorte estava do lado deles. Encon-
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traram uma linda casa estilo colonial nos arredores da cidade, no longe da residncia da me de Deir-dre. A propriedade era rodeada de jardim com muitas rvores 
e arbustos. Embora precisasse de alguns reparos, o negcio lhes pareceu muito bom.
Trs dias mais tarde eles se casaram na igreja que Deirdre freqentara em menina. A me providenciara os arranjos florais e havia mais convidados e mais comida do 
que Deirdre desejaria.
Neil estava elegantssimo com seu terno escuro, camisa branca, gravata listrada e colete. Olhando-se no espelho ele se achou mais parecido com um homem de negcios 
de sucesso do que com um advogado conservador.
Deirdre, agora sem as muletas que foram substitudas por um tipo de gesso que lhe permitia caminhar, usava um vestido branco longo, muito simples. Tinha pouca maquiagem 
e no pescoo colocara um colar de prolas que o pai lhe dera quando ela completara vinte e cinco anos.
A cerimnia foi curta mas bonita e Deirdre estava toda sorrisos ao circular entre os convidados, de brao dado com o marido. Este lhe pusera no dedo uma aliana 
de ouro com pequenos brilhantes. Simples mas linda. Apesar de Neil ainda no haver dito que a amava, Deirdre achou que vira o amor estampado nos olhos dele. Ambos 
cortaram o tradicional bolo de noiva.
As semanas seguintes foram de muita atividade. Neil dedicou-se totalmente  Joyce Empreendimentos, tentando se familiarizar com cada detalhe do negcio. Sandra aceitou-o 
de braos abertos, no apenas porque iria dividir suas responsabilidades como
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tambm por estar fascinada por ele. E com razo. Neil inspirava confiana e era amvel no apenas com Sandra como com os velhos tios. Cada noite voltava exausto 
para casa mas Deirdre tomava como um desafio reanim-lo; e conseguia com sucesso.
Ele a mantinha informada acerca do trabalho, discutindo seus planos. Deirdre ocupava-se decorando a nova casa e com grande entusiasmo, pois Neil apreciava tudo o 
que ela fazia. Quando se mudaram para l, trs semanas aps o casamento, ela j havia tirado o gesso. Sentia ainda muita dor na perna e Neil a encorajava o tempo 
todo. Ajudava-a com os exerccios que o mdico recomendara. E esses exerccios quase sempre terminavam na cama, fazendo amor.
Ela no recomeou com as aulas logo, pois a perna no estava ainda boa. Estranhamente, no achou falta no trabalho como pensou que acharia. Entre a vida social com 
Neil e o arranjo da casa, no lhe sobrava muito tempo para quaisquer outras atividades.
Antes, detestara vida social. Mas agora, com Neil, tudo lhe parecia muito diferente. Ele sempre lhe elogiava as toaletes; conseqentemente, Deirdre comeou a gostar 
de se vestir, coisa que odiara no passado. Neil era um anfitrio perfeito, e a conduzia nas conversas de modo a deix-la  vontade.
Ele estava muito satisfeito com a nova vida. Deirdre era uma esposa perfeita, como fora uma amante perfeita. Pareciam ter deixado todas as brigas no Maine.
A nica coisa que s vezes o perturbava era o fato de o casamento ter sido realizado por convenincia. Ele gostaria que o motivo primordial houvesse sido o amor.
Quanto  Joyce Empreendimentos, no tinha a
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menor dvida de que ele estava sendo um sucesso. Planejara uma estratgia que no apenas permitia que a firma continuasse produzindo normalmente, mas que crescesse. 
Esse crescimento no existira desde a morte do velho Joyce.
Deirdre estava encantada. Sua f em Neil parecia plenamente justificada.
Maria Joyce tambm sentia-se muito feliz, embora insistisse que a filha soubesse dos riscos possveis com o gerenciamento de Neil.
-  Fiz uma investigao sobre seu marido - ela disse a Deirdre uma tarde em que as duas almoavam num restaurante da cidade. - Nenhum de vocs dois foi honesto comigo 
sobre o passado de Neil.
-  Ns fomos honestos, mame.
-  No me disseram nada acerca da Wittnauer-Douglass.
-  No havia nada a dizer. Ele teve uma experincia desagradvel com um de seus clientes e viu-se forado a pedir demisso dessa firma. Mas foi um incidente isolado.
-  De acordo com minha amiga Bess Hamilton, cujo marido faz parte da diretoria da Wittnauer-Douglass, Neil tomou parte num negcio desonesto.
Deirdre ficou furiosa.
-  Se o marido de Bess Hamilton faz parte da diretoria, ele  que tomou parte nesse negcio desonesto. Neil pediu demisso porque no quis parte alguma nisso.
-  No foi o que Bess me disse.
-  E em quem voc prefere acreditar, mame? Na sua amiga ou no seu genro?
- No tenho muita escolha, tenho? Neil est firmemente empenhado em cuidar de nosso negcio...
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-  E est fazendo excelente trabalho. Voc no pode negar.
-  Mas tenho de saber por que motivo ele saiu da cidade. Conforme o que Bess me falou, ficou praticamente desmoralizado em Hartford.
- Neil no ficou desmoralizado. Seus dois scios esto indo muito bem com os outros clientes que ele deixou. Se fosse verdade o que sua amiga disse, esses clientes 
os teriam deixado e procurado outros advogados. Eles tinham f em Neil, por esse motivo ficaram com a firma que Neil criara.
Maria no ficou totalmente convencida.
-  De qualquer forma, foi um bom negcio para ele ter se casado com voc.
- O que est tentando dizer, mame? - perguntou Deirdre, cerrando os dentes.
- Apenas que acho que voc precisa ter cuidado. Todos ns precisamos ser cuidadosos. Ele pode tentar roubar a Joyce Empreendimentos de ns.
-  Neil jamais faria isso.
-  Como sabe?
-  Porque estou casada com ele. Porque o conheo bem.
- Voc o ama e o amor s vezes deixa a pessoa cega.
- No nesse caso. Confio nele. - Deirdre possua o documento que fora assinado por Neil antes do casamento, mas no achou que era da conta da me saber disso. - 
E, se no consegue confiar nele, ao menos o aprecie. Neil assumiu toda a responsabilidade da Joyce Empreendimentos e faria papai muito orgulhoso dele.
Maria no teve nada mais a dizer, por isso mudou de assunto. Mas as palavras dela ecoaram por muito tempo nos ouvidos de Deirdre.
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Deirdre fora sincera em tudo o que afirmara. Confiava no marido. Havia momentos, contudo, em que se perguntava por que Neil gastava tanta energia no negcio. Raramente 
voltava  casa sem trazer um novo projeto. O entusiasmo com que se dedicava ao trabalho no tinha fronteiras...
Talvez, Deirdre refletia, ela estivesse com cimes. Lembrava-se com freqncia dos dias do Maine, e havia momentos em que desejaria estar l. Neil havia sido devotado 
totalmente a ela. Em Providence, era obrigada a dividi-lo com um trabalho absorvente. Recordava-se de ele ter-lhe dito que no se casara antes porque sua profisso 
era uma amante absorvente. E ela respondera que o fato devia ser porque a mulher certa ainda no aparecera em sua vida.
E agora se perguntava se ela era a mulher certa. Mas... Sim, Neil lhe dava afeto. Sim, Neil punha de lado o trabalho quando ela entrava no escritrio. Sim, Neil 
era paciente com suas frustraes porque a perna custava a cicatrizar.
Mas... saa para trabalhar muito alegre todas as manhs. E, apesar de casados j h alguns meses, ainda no dissera que a amava.
Talvez sua inquietao se devesse  mudana que tivera na vida. O trabalho da decorao da casa terminara com os mveis escolhidos a gosto de ambos. E a vida social 
que Neil exigia dela, para recepcionar os clientes, no era suficiente para ocupar todo seu tempo.
A medida que os dias passavam Deirdre ficava mais inquieta. Comeou a freqentar um clube de mulheres. Embora j pudesse reiniciar as aulas, no quis. Sentia-se 
cansada. A perna, apesar de melhor, ainda a incomodava. Comeou a pensar que sua pai-
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xo pelas aulas havia sido um meio de fugir da Joyce Empreendimentos. Uma vez desaparecida essa necessidade, seu desejo de lecionar sumia.
Ela sentava-se em casa por horas, sentindo a falta de Neil. Almoava com amigas, mas isso no lhe trazia alvio. Tomava parte em obras sociais, mas tambm no encontrava 
satisfao.
Enfim, num impulso, um dia foi almoar com Vitria. No se viam desde o casamento, e Deirdre contava com a amiga para ajud-la mais uma vez.
-  H quanto tempo voc conhece Neil, Vitria? - Foi a primeira pergunta de Deirdre, assim que o garom se retirou.
-  Trs anos. Por que essa pergunta, Dee?
-  Conheceu-o bem durante esses trs anos?
- No nos vamos com freqncia mas, a se considerar pela qualidade das horas que passamos juntos, eu diria que nos conhecamos bem. Algo vai mal, Dee? Fale!
-  No sei. E que tudo entre ns aconteceu to depressa! As vezes me pergunto se fui precipitada.
-  Tem dvidas sobre Neil?
-  No. Bem, talvez de vez em quando. Minha me disse algo h algumas semanas que me aborreceu. Alguma coisa sobre Neil...
-  Sua me  grande amiga minha, mas isso no significa que no posso ver os defeitos dela.  uma dessas pessoas que nunca esto satisfeitas. Voc a leva muito a 
srio, Dee. J lhe disse a mesma coisa antes.
-  Eu sei. Mas no posso deixar de ouvi-la.
-  Entendo, porm no d muito valor s palavras dela.
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-  O caso  que ficam no fundo da minha mente e recusam sair. Vitria, voc acha que Neil  ambicioso?
-  Espero que sim. Ningum progride na vida se no for ambicioso.
-   Terrivelmente ambicioso? Voc classificaria Neil como terrivelmente ambicioso? Implacavelmente ambicioso?
- No! Neil no  uma pessoa cruel. O oposto, para ser exata. Se ele fosse um pouco mais canalha, no teria tido esse problema com a Wittnauer-Douglass.
-  Se ele no tivesse tido o problema, nunca iria ao Maine e nunca nos teramos encontrado. Por isso no posso lamentar o que houve com a Wittnauer-Douglass. - Deirdre 
sorriu. - O caso  que minha me soube de tudo e acha que Neil est usando a nossa firma como uma boa sada.
-   o qu voc pensa, Dee?
- No. Ao menos no quero pensar. Mas ele dedica-se ao trabalho com tanto... prazer, que s vezes desejo que tenha o mesmo prazer comigo.
-   possvel se ter as duas coisas, Dee. Acredite-me, Neil Hersey tem as melhores intenes no que diz respeito a negcios. No h uma clula de egosmo em sua 
personalidade. Ele alguma vez lhe disse o que fez por minha sobrinha?
-  No. Nunca mencionou sua sobrinha.
-  ... Neil jamais faria isso.  bem dele.
-  O que ele fez? - Deirdre indagou.
- Minha sobrinha ficou envolvida num processo criminal. A menina tinha dezenove anos na poca e a me dela, minha irm, era uma mulher alucinada. Moravam numa pequena 
cidade a oeste de Connecticut e no tinham muito dinheiro. Telefonei para Neil pedindo auxlio. Sabia que ele no era
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advogado criminalista, mas queria que me recomendasse um profissional competente. Neil no apenas fez isso como se ocupou do caso pessoalmente. Quando o outro advogado 
quis lhe pagar, ele no aceitou e insistiu que o homem descontasse essa quantia do que cobraria de minha irm. Agora diga-me, se Neil fosse um homem egosta, faria 
isso por minha irm?
- No! E sei que Neil sempre esteve metido em trabalhos de caridade. Mas a situao conosco  diferente. H tanto em jogo agora!
- Duvido que Neil considere qualquer coisa mais importante do que o amor que dedica a voc - Vitria insistiu.
Deirdre no sabia o que dizer.
-  Dee? - Vitria encarou-a fixamente. - Voc o ama, no?
-  Oh, sim!
-  Mas...?
-  No tenho certeza se ele me ama.
- Est brincando?
- No, no estou brincando. Ele nunca falou que me amava. Nosso casamento foi... foi... uma convenincia. Assim Neil o classificou.
Vitria apertou a mo de Deirdre.
- Querida, sei bastante sobre a situao de vocs dois, e entendo que o casamento resolveu alguns problemas para ambos. Mas vi Neil no dia do casamento e, se um 
homem com aquele olhar no estava apaixonado, desisto de minha habilidade como arranjadora de casamentos. - Ela fez uma pausa. - O que ele diz quando voc fala que 
o ama?
Deirdre no teve necessidade de responder. A culpa estava escrita em seu olhar. Nunca confessara a Neil que o amava.
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-  Santo Deus, Dee. Por que no?
- Porque no quis exercer presso sobre ele. Pior ainda, tive medo de dizer que o amava e de no receber a mesma resposta. E tambm, quando Neil est em casa temos 
tanto a discutir que nunca h chance para...
-  Ah, ah, j entendi. Ento, Neil est ocupado demais com o trabalho e voc se sente abandonada.
-   isso.
-  Contou-lhe o que a preocupa?
-  No.
-  Sei que no deveria interferir em sua vida. - Vitria ficou olhando para o teto. - Mas, por que no?
- Porque, em primeiro lugar, no quero ser uma mulher queixosa. Quando chegamos no Maine portei-me como verdadeira praga para Neil. Depois, nosso relacionamento 
melhorou e parei de atorment-lo. No quero voltar  situao anterior. E, alm do mais, no h nada que ele possa fazer.
-  Como no?! Neil pode lhe garantir que a ama e talvez sugerir um trabalho que a mantenha ocupada.
-  No sei, no, Vitria. - Deirdre sacudiu a cabea. - Sinto inveja de voc. Quando termina uma tarefa, comea com outra. Eu costumava ter mil e uma coisas a fazer 
no passado, mas agora nada me tenta.
-  Quer estar com Neil, certo? O resto no a interessa. Ento, por que no trabalha meio perodo no escritrio?
- Isso seria me dar por vencida. Jurei que nunca trabalharia l.
- E  to rgida assim que no pode reconsiderar
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suas decises? Em especial sabendo que trabalhando no escritrio veria seu marido mais?
- Acho que todos me considerariam infantil.
-  Se for conveniente para voc ser infantil...
-  No sei, Vitria. No tenho muita certeza se  isso que eu quero.
-  Faa-me um favor, Dee, converse com Neil. Ele  um homem paciente. E o mais importante de tudo,  seu marido. E quer ser feliz. Vai conversar com ele?
- Tentarei.
-  No tente. Faa!
Deirdre teria feito o que Vitria recomendara naquela noite mesmo, mas no foi necessrio. Neil voltara do trabalho cansado e ambos sentaram-se na sala para relaxar 
e tomar um copo de vinho.
-  Preciso de seu auxlio, Deirdre - ele disse, num tom de voz de homem de negcios.
-  Algum problema no escritrio?
-  Sim, com o pessoal. Estamos fazendo um re-manejamento completo. Art Brickner, um dos mais antigos funcionrios de seu pai, no pode mais continuar no cargo que 
ocupa. A maioria dos funcionrios graduados  composta de pessoas de idade, quando temos jovens bastante capazes. Art mesmo no est executando seu trabalho satisfatoriamente.
-  Tudo bem. Mas em que posso ajudar? Onde entro nisso?
- Converse com ele, ajude-o nessa transio. Art  um bom homem...
-  E muito cansativo.
-  Sim, ele  cansativo. - Neil riu. - Mas tem boas qualidades; e com voc no escritrio, Deirdre,
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ele ficar menos nervoso. Art pensa que a Joyce Empreendimentos est indo pela gua abaixo.
-  Oh, Neil, o que sei eu sobre o pessoal que trabalha numa corporao?
- Tem bom senso. Art pode tomar conta da parte mecnica e voc vai tentar convenc-lo de que ele  bom nisso. Que acha?
-  Sabe o que acho? Que voc est exausto. Trabalha demais, Neil.
- Tem razo. Mas  necessrio; o que tem de ser feito, tem de ser feito. Voc tambm me parece cansada. Foi por ter ido a Nova York almoar com Vitria?
-  Nada disso. Estou cansada por no ter o que fazer.
-  Ento ajude Art.
- Neil...
- No precisa trabalhar o dia inteiro. Vinte horas por semana. Que tal?
-  Mas eu...
-  Posso pagar voc. - Ele sorriu. - OK? Deirdre ficou furiosa de incio, mas, olhando para
o marido, desarmou-se e disse:
- Quando sorri assim para mim, Neil Hersey, fico liquidada. Voc sabe bem disso e abusa de seu charme.
-  Ento, vai fazer isso para mim?
-  Sim, vou trabalhar na firma.
-  Depois me informe se est sendo demais para voc.
- No ser demais. Sou jovem e cheia de energia. Estou transbordando de entusiasmo...
Mas aconteceu que o trabalho foi demais, ou melhor, Deirdre sentia um cansao que no esperava. Trabalhava das nove s duas cada dia, e ficava de-198
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finitivamente exausta. Depois de uma semana, ao perceber que no podia continuar com aquele ritmo, comeou a chegar no escritrio s dez. Mesmo assim se arrastava 
quando Neil chegava em casa, s nove da noite.
Testemunhando o esforo da esposa, ele comeou a ficar mais e mais preocupado. Esperou que Deirdre dissesse alguma coisa. Mas nada. Enfim, aps duas semanas, resolveu 
entrar no assunto.
Certo dia, chegando em casa mais cedo, encontrou Deirdre deitada na cama enrolada num cobertor, e dormindo profundamente. Sentou-se ao lado dela e beijou-lhe a face.
- Neil! - Deirdre exclamou. - Sinto muito estar na cama. No pensei que voc voltasse  casa to cedo!
Neil trazia escondido um buqu de flores: trs rosas e alguma folhagem. Deu-o a ela.
-  Para voc, querida.
Ainda sonolenta, Deirdre olhou para as flores e disse, sorrindo:
-  So lindas. Alguma data especial?
-  Bem... Hoje  o dia que podemos ter certeza de que voc est grvida.
O sorriso de Deirdre morreu nos lbios. Ela fechou os olhos e sussurrou:
-  Como voc adivinhou?
Ela parecia preocupada, e Neil concluiu que receara contar-lhe sobre a gravidez.
- Estamos casados h quase trs meses e durante esse tempo todo voc no ficou menstniada nem uma vez.
-  Sou uma atleta, Neil, e os exerccios fsicos podem produzir coisas estranhas no ritmo menstrual de uma mulher.
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- Voc est constantemente cansada. At a mais branda atividade a deixa exausta.
- E por causa de tudo o que se passou nos ltimos meses. Estou emocionalmente sobrecarregada.
-  E o crescimento de seus seios? - perguntou ele. - E o ligeiro aumento de sua cintura? Coisas que ningum mais v, eu vejo. Vamos, Deirdre, vamos encarar os fatos. 
Voc est grvida.  isso to horrvel assim?
-  Sinto-me muito mal. Sim,  horrvel.
-  Ento concorda que est mesmo grvida?
-  Concordo.
-  Mo no foi ao mdico.
-  No.
-  Por que, Deirdre? No quer ter um beb?
-  Quero! Mas acontece que com todos os problemas que temos tido, essa gravidez veio cedo demais. Foi to inesperada...
- No usamos nenhum preventivo, Deirdre. Voc deve entender que existia essa possibilidade.
- Como sabia que eu no usava nenhum mtodo de controle  natalidade?
-  Deirdre, eu estava com voc o tempo todo. Eu saberia. A prova  que est grvida agora, no est?
- Por culpa sua. Se sabia que eu no usava nada, por que no cuidou voc para que isso no acontecesse?
-  Deirdre, eu no carrego esses contraceptivos no bolso como hbito. A ltima coisa que esperava quando fui ao Maine era encontrar uma mulher.
-  Portanto, nenhum de ns dois estava preparado, e ambos sabamos disso. E no fizemos nada. Veja agora o que aconteceu.
- No acho que seja uma coisa to horrvel, Deirdre.
-  No?
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-  Claro que no.
- No pensa que ser outro peso em nossas costas?
-  Alguma vez lhe falei em peso?
-  No, mas h peso nas nossas costas.
- Porm esse  um peso delicioso. Eu lhe confessei que queria filhos.
-  Algum dia, voc falou.
-  Ento, esse "algum dia"  agora, Deirdre. E, quanto mais penso nisso, mais feliz eu fico. Sei que no se sente bem, amor, mas uma vez indo ao mdico ele lhe receitar 
algumas vitaminas. E, depois dos primeiros meses, voc se sentir bem melhor.
Inesperadamente, Deirdre comeou a chorar. Agarrando a lapela do palet de Neil escondeu o rosto no peito dele.
-  Vou ficar... gorda - gemeu.
-  Gorda, porm linda.
-  Ficaremos presos em casa.
-  No estou me queixando.
- Voc tem sido to... carinhoso!
-  E voc tem sido to tola! - Neil abraou-a, tentando absorver toda a dor que ela sentia. Sabia que Deirdre passara por dificuldades, e que teria sido melhor para 
ela esperar um pouco mais antes de ter esse filho. Mas no estava triste. Esse fato os uniria ainda mais.
Chorando ainda, Deirdre pensava a mesma coisa. Oh, sim, ela queria o beb, mas principalmente por ser de Neil. Essa era a razo primordial. Quando pensava nisso, 
achava que ter um filho apertaria os laos existentes entre os dois, unindo-os mais do que o prprio casamento. Tratava-se de uma segurana mas tambm de algo assustador 
porque, se
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alguma coisa sasse mal e Neil se cansasse da situao, uma criana inocente seria afetada.
O perfume das rosas interrompeu o curso dos pensamentos de Deirdre. Ela abriu os olhos e viu Neil tocando nas flores.
- Uma para voc, uma para mim, uma para o beb - ele sussurrou. - Lindo buqu, no acha? Mais tarde, Deirdre disse a si mesma, procuraria os espinhos. No momento 
estava cansada demais para fazer qualquer coisa alm de relaxar nos braos de Neil.
CAPTULO IX
Uma vez aceita a gravidez, Deirdre sentiu-se muito melhor. Foi ao mdico e comeou a fazer um regime  base de vitaminas, que compensava pelo que o beb lhe tirava 
do corpo. Ela continuou trabalhando com Art Brickner, acomodando as horas do escritrio com suas horas de sono dirio.
Neil estava encantado com o futuro beb. Deirdre, por seu lado, fazia tudo que podia para que o casamento funcionasse.
Vestia-se com esmero quando ia ao escritrio a fim de que o marido tivesse orgulho dela. Planejava as refeies da casa e fazia esforos para que tudo estivesse 
sempre em perfeita ordem. Neil poderia levar amigos  casa quando bem entendesse. Por insistncia dele Deirdre contratara uma empregada e voltara a freqentar o 
clube de ginstica. No retomara as aulas mas fazia exerccios e nadava. Seu ventre crescia lentamente, dia a dia.
Nunca brigava com Neil. No se queixava quando ele chegava tarde  noite, vindo do trabalho. E no dizia uma palavra quando ele viajava a negcios. No insistia 
para que tirasse um dia livre a fim de jogar tnis com ela. Iam a festas e jantares juntos
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e mais tarde, em casa, Deirdre fazia o possvel para satisfaz-lo tanto fsica como emocionalmente.
Mas, por no querer dar a Neil nenhum motivo que o fizesse infeliz, suas frustraes aumentavam. Desejava que ele no trabalhasse tanto, mas no lhe dizia nada. 
Queria ficar sozinha com o marido, mas no ousava lhe pedir. At nos fins de semana Neil s vezes trabalhava at altas horas da noite. Deirdre queria ardentemente 
ouvi-lo dizer que a amava, mas essa declarao tardava. Neil jamais confessara seu amor e ela se sentia como se caminhasse em corda bamba.
A corda bamba comeou a fraquejar uma manh, quando Maria Joyce apareceu. Deirdre ia saindo para ir ao escritrio.
- Voc j tomou conhecimento dos ltimos planos de seu marido? - Maria perguntou com arrogncia, alis uma atitude muito familiar a Deirdre.
As duas mulheres estavam em p no hall, e Deirdre no convidou a me para sentar, pois sabia que assim a conversa se prolongaria pelo dia todo.
- Depende a que planos voc se refere, mame. Neil tem tido muitos ultimamente, e todos eles bastante promissores.
-  Mas esse no .
-  Qual?
-  Neil est tentando conseguir um contrato do governo no ramo da eletrnica.
-  E isso  um problema, mame?
- Nunca fizemos contratos com o governo. Sempre nos dedicamos a setores particulares.
- Mas no significa que no podemos mudar, se for bom para a firma, mame.
-  Mas, ser? Essa  a questo. Neil quer esse
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contrato porque  bom para a firma ou porque  bom para ele?
- No  tudo a mesma coisa? - perguntou Deirdre.
-  No. Talvez voc no saiba, mas uma outra firma candidata  a Wittnauer-Douglass.
-  H sempre muitos candidatos, mame, para todos os contratos.
-   Porm nenhum contra o qual Neil guarde ressentimentos.
- Neil no guarda nenhum ressentimento contra a Wittnauer-Douglass. O que passou, passou. Ele est tendo muito sucesso no que faz agora e voc deve saber disso.
-  Preveni voc desde o inicio, Deirdre, que precisvamos ter cuidado. E agora eis a a evidncia.
-  Evidncia? Que evidncia?
- Seu marido est envolvendo a Joyce Empreendimentos no negcio s para se vingar. Ele jamais se interessaria por um contrato com o governo se no fosse por isso. 
Pense um pouco. No acha suspeito o fato de que, na primeira vez em que fazemos um contrato desse tipo, seja tendo como competidora uma firma contra a qual ele teve 
uma rusga?
-  Voc est a par dos detalhes, mame? Quem fez a oferta antes, a Wittnauer-Douglass ou a Joyce Empreendimentos?
-  No sei. Como poderia saber?
-  Se existe a evidncia da qual voc fala, esse seria o ponto de partida. Se Neil apresentou o pedido antes de saber que a Wittnauer-Douglass seria sua competidora, 
a inocncia dele  bvia.
-  Mas todo o resto da evidncia  contra ele.
-  Que evidncia? Que resto? - Deirdre ia perdendo a pacincia.
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O MUNDO NOS SEPARA
-  Deirdre - Maria disse, suspirando -, pense um pouco. Neil conheceu voc quando precisava mudar de cidade e encontrar emprego.
-  Neil no precisava...
-  Ele agarrou aquilo que voc lhe oferecia. Casou-se o mais depressa possvel e planejou tudo.
-  Um plano que favoreceu a Joyce Empreendimentos. Foi Neil quem nos fez o favor!
- Fez um favor a ele, isso sim - Maria protestou. - Olhe o caso objetivamente. Neil  o cabea de um conglomerado de sucesso e ficou to respeitado na comunidade 
que vocs dois so convidados para todas as festas que...
-  Se voc tivesse algum senso de apreciao, de justia, mame, passaria mais tempo enaltecendo o que ele fez de bom para voc. Casou-se com a menos desejvel de 
suas filhas e vai lhe dar um neto. Assumiu a responsabilidade dos negcios da famlia e ainda me ps nesses negcios. Que mais voc deseja?
- No quero que a Joyce Empreendimentos fique desmoralizada. S isso. E esse contrato representa um risco, uma desmoralizao, caso a gente perca.
-  H sempre riscos em qualquer negcio. Resta ver se o resultado positivo  bom e vale esse risco. Se Neil se limitasse a fazer s o que  absolutamente seguro, 
ficaramos estacionados.
-  Neil est sendo muito ousado. Voc precisa falar com ele.
- No quero mais ouvir nada disso. - Deirdre pegou a bolsa e o casaco e foi para a porta. - Voc pode ficar aqui se quiser, mame. Eu preciso trabalhar.
Deirdre talvez no tivesse dado tanta importncia ao que a me lhe dissera se a coisa parasse ali. Mas alguns dias mais tarde Art Brickner levantou o mesmo
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O MUNDO NOS SEPARA
assunto queixando-se de que Neil iria contratar grande nmero de empregados caso o contrato com o governo desse certo. Tudo o que Deirdre pde fazer foi apoiar o 
marido e insistir que o plano parecia bom.
Dias depois um dos vice-presidentes da companhia tambm abordou Deirdre apresentando dvidas quanto  direo pela qual a Joyce Empreendimentos enveredava. Mais 
uma vez ela apoiou o marido, achando que o que ouvia era simplesmente uma resistncia a mudanas; porm ficou um pouco preocupada.
No falou nada a Neil. No queria irrit-lo sugerindo que tinha dvidas quanto ao negcio, pois na realidade no via nada de mal em entrar naquele tipo de concorrncia. 
O que a deixava apreensiva era suspeitar que Neil fizesse aquilo movido pela vingana. Tentou ignorar a idia, mas a idia no a abandonava.
Acima de tudo, porm, pairavam as dvidas quanto ao relacionamento deles. Oh, sim, eram bem unidos. Para o mundo exterior, e para o deles at certo ponto, eram um 
casal perfeito. Porm, quando ela se lembrava das razes que os moveram a se casar, perguntava-se o que na verdade conduzira Neil a esse casamento. Isso a incomodava 
mais do que o contrato com o governo ou quaisquer outras coisas.
Assim, sentia-se mesmo caminhando em corda bamba. De um lado estava o que ela queria; do outro, pensava, o que Neil desejava. A corda se desgastava e finalmente 
arrebentou uma tarde quando Neil chegou em casa bem mais cedo. Deirdre ficou encantada, pois iria passar com o marido algumas horas roubadas. A presena de Neil 
nunca deixara de excit-la, como tambm o inevitvel beijo que sempre vinha com o cumprimento.
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Abraando-a, ele levou-a  saleta. Mas logo a tenso expressa no rosto de Deirdre o fez concluir que algo estava errado.
-  Preciso de um favor seu, Deirdre. Tenho de ir a Washington j, para uma reunio importante. Ser que voc pode ir sozinha ao nosso jantar desta noite?
H muito eles haviam convidado trs casais para jantar num restaurante da cidade. Deirdre os conhecia mas no eram seus amigos favoritos.
-  Oh, Neil, voc tem mesmo de ir? - Ela desapontou com o pedido do marido.
-  Preciso. E importante.
-  Assim to de repente? Estvamos planejando ter uma reunio amanh de manh no escritrio. A reunio desta noite no pode ficar para amanh, no escritrio mesmo?
-  No! Quero aquele contrato sobre o qual lhe falei. E precisa ser feito em Washington. Vamos, Deirdre, voc tem habilidade para conduzir muito bem esses jantares.
-  Talvez, mas sabe como os detesto. Com voc ao meu lado, tudo fica diferente.
- Estou pedindo seu auxlio, querida. No posso estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Aborrecimentos, do passado e do presente, brotaram de novo dentro dela.
- Se voc quisesse mesmo ficar comigo, Neil, designaria uma pessoa para ir a Washington. Por que no Ben?
Ben Tillotson, advogado, era um executivo que o prprio Neil contratara.
- A filha de Ben est de partida para Seattle, e ele no quer deix-la sozinha esta noite - disse Neil.
- E eu? Voc no vai me deixar sozinha esta noite?
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-  Mas a responsabilidade  minha, no de Ben.
- Nesse caso, no podendo ser Ben, por que voc no manda Thor?
Thor VanNess era o chefe da seo de eletrnicos. Na opinio de Deirdre seria a pessoa perfeita para ir quela reunio.
-  Thor  fantstico no que ele faz, mas no  um diplomata e a reunio desta noite requer boa dose de diplomacia.
-  E voc  o nico diplomata da Joyce?
O sarcasmo de Deirdre chocou-o, acabando com sua pacincia. Suspirando, disse:
- Voc est fazendo um barulho horrvel por coisa to pequena! Se quiser, posso fazer minha secretria telefonar para cancelar o jantar, mas achei que isso no seria 
necessrio. Acredite-me, Deirdre, tentei evitar essa viagem mas no consegui ningum que pudesse tomar meu lugar. E, de qualquer maneira, a responsabilidade  minha.
-  Nesse caso, voc carrega muita responsabilidade sobre seus ombros. - Deirdre baixou a voz numa tentativa de se acalmar. Sim, ela estava fazendo muito barulho 
por coisa pequena. Mas, insistiu: - Mande outra pessoa. Qualquer pessoa.
- No posso, Deirdre. A resposta  simples: no posso.
-  No, no  simples. No  to simples assim. Voc pe o trabalho acima de qualquer outra coisa em nossas vidas, o que prova onde esto suas prioridades.
-  Voc est sendo injusta, Deirdre.
-  Injusta? Ou egosta? Bem, est mais que na hora de eu ser egosta! - Ela levantou-se do sof e, nervosa, comeou a dar corda no relgio.
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-  Calma, querida - disse ele. - Voc est fazendo um cavalo de batalha por...
-  No estou!
-  Est nervosa. No  bom para o beb.
-  Est enganado, Neil. E o melhor para mim e, conseqentemente para o beb. No posso mais fingir. No agento mais.
-  De que est falando? - Neil retesou o corpo.
-  No posso mais agentar esta vida. Tentei ser uma esposa perfeita. Fiz coisas que pensei jamais ser capaz de fazer, e sem discutir, porque queria agradar voc. 
Queria que este casamento funcionasse.
-  E est funcionando, no est? Voc pretende me dizer que tudo foi falso?
-  Eu no estava sendo falsa. - Deirdre parou de dar corda no relgio e comeou a mexer numa planta ao lado do sof. - Uma parte de nosso casamento funciona, porm 
h muito mais.  preciso que haja uma total comunicao. Voc fala sobre negcios comigo, mas desconheo seus sentimentos ntimos. H momentos em que me sinto completamente 
fora de sua vida.
-  Por que no me pediu mais?
-  E voc, por que no me ofereceu mais?
-  Droga, Deirdre, como posso adivinhar o que voc quer, se no me pede?
- No me conhece o suficiente para saber o que eu quero sem que seja necessrio lhe pedir?
- No! - ele explodiu, agora furioso consigo mesmo. - Pensei que seu objetivo principal fosse fazer da Joyce Empreendimentos um sucesso. Mas agora concluo que errei. 
Lutei para isso com todas as minhas foras, s para agradar voc, Deirdre.
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- E achei que era porque voc adorava o trabalho, Neil. - Deirdre estava chocada.
-  Gosto do trabalho, e mais ainda agora porque venho obtendo sucesso. Pensei que estivesse cumprindo a parte que me coube no negcio, levando a firma adiante. Toda 
a minha satisfao  relacionada direta ou indiretamente a voc.
-  Tem certeza? - Deirdre arregalou os olhos. - No h uma pequena satisfao relacionada apenas a voc?
- Suponho que, se eu olhar para trs e vir o que fiz em poucos meses, sim, tenho orgulho de mim. Sou um advogado, no um homem de negcios, e apesar disso assumi 
a responsabilidade de uma tarefa que h dois, quatro, seis anos eu no ousaria aceitar.
-  Mas aceitou agora. Por qu?
-  Foi parte do acordo que fizemos.
- No. Volte para trs um pouco. Por que fizemos esse acordo?
-  Porque eu precisava de voc e voc de mim.
- Certo. E  justamente isso que est me roendo por dentro. Voc precisava de auxlio depois do que houve em Hartford. Veio para c, tomou as rdeas do negcio e 
fez mais pela Joyce Empreendimentos do que algum j havia feito, nem mesmo minha famlia, em anos. Por que, Neil? Por que tanto?
-  Que pergunta absurda! Se h alguma coisa a ser feita, tem de ser feita. Sim, eu poderia ter parado de pensar em mais progressos, mas conclu que a Joyce Empreendimentos 
tinha capacidade para ficar muito melhor do que j estava. Enxerguei grande potencial na firma e estou tentando conseguir tudo o que esse potencial possa oferecer.
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- Ou est tentando provar  Wittnauer-Douglass que voc pode venc-la?
-  Como? - Neil sacudiu a cabea e franziu a testa. - Do que est falando?
-  Do contrato com o governo. Voc me contou tudo sobre o assunto e eu o aprovei totalmente. Porm no me disse que a Wittnauer-Douglass lutava pelo mesmo contrato. 
Minha me precisou me esclarecer isso e acusou-o de interesseiro.
- Sua me fez acusaes a meu respeito antes, e ficou provado que eram injustas. - Quando Deirdre comeou a mexer na planta mais uma vez, ele berrou: - Deixe essa 
planta em paz e preste ateno em mim.
Devagar Deirdre encarou-o, sem dizer palavra. Sua expresso era de dio, reminiscncia dos primeiros dias do Maine, talvez pior.
Neil estava furioso tambm. E disse:
- Pensa que estou interessado nesse contrato s para me vingar da Wittnauer-Douglass? Acha que tudo o que fiz desde que nos casamos foi com essa idia em mente? 
No acredito! Onde esteve durante todas estas semanas?
Ela tomou a defensiva.
-  No disse que achava isso, minha me disse.
-  Mas  voc que est falando comigo agora, o que significa que tambm duvida de mim.
-  Sim, tenho minhas dvidas, Neil. Defendi voc o tempo todo. Enfrentei minha me, Art Brickner, e todos os outros funcionrios do tempo de meu pai que tentaram 
acusar voc. Agi sempre como uma eficiente advogada. Mas, aps algum tempo, comecei a pensar que nosso casamento havia sido um meio para se chegar a um fim. - Deirdre 
cobriu o rosto com as mos.. - Detesto falar nisso, oh, Deus, como detesto!
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-  Ento, por que fala? - Neil revidou.
-  Porque voc deu a entender isso, e no consigo esquecer. Ns nos casamos por razes erradas, Neil, e precisamos encarar os fatos. Acho que vou ficar louca!
- Voc vai ficar louca? E eu? Fiz o possvel para as coisas funcionarem e acho que consegui. Agora vejo que meus esforos foram em vo. Pensei que confiasse em mim, 
Deirdre, mas vejo que o que desejava era me usar. Depois de tudo feito, quer me jogar fora. Acertei?
- No! Nunca falei isso!
- Ento, o que est falando? Que diabos voc deseja? Deirdre tremia. Tremia de dio, de frustrao, e...
de dor. Apertando as mos, gritou:
- Desejo tudo! No quero um casamento no qual eu no seja a finalidade principal. Jamais quis isso! Quero amor, Neil. Diabos, quero a verdadeira coisa!
Neil estava longe de estar calmo. Sofria tenso, medo e angstia. No conseguia pensar, sentindo-se mais impotente do que jamais se sentira na vida. Levantou-se 
e saiu da sala.
Deirdre tentava controlar as batidas de seu corao. Ouviu a porta da frente se abrir. Aps, o silncio foi absoluto.
Um sol de fim de tarde filtrava pela janela e iluminava o soalho e as paredes da saleta. O vdeo cassete e uma pilha de teipes estavam num canto junto ao sof. Muitas 
vezes Deirdre imaginara que aquele lugar seria ideal para um "playground" de seus filhos.
Agora, tudo se envolvia numa sombra de dvida, em nvoa.
Acomodando-se no sof, ergueu os joelhos encos-tando-os no rosto; e comeou a chorar.
No, Neil no a amava. Se a amasse, teria con-
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fessado. Ela lhe dera uma chance, contara-lhe tudo. E ele fora embora. Neil no a amava.
Que seria do futuro de ambos? Uma interrogao, uma enorme interrogao. Voltavam ao ponto de incio, de quando chegaram na ilha de Vitria.
O que ela desejava, afinal? O que exatamente desejava? AMOR. No se dera conta disso no comeo mas,  medida que o tempo passava, se convencia de que tudo teria 
dado certo se houvesse encontrado o amor. Poderia continuar dando aulas ou no. Poderia trabalhar na Joyce Empreendimentos ou no. A nica coisa que tinha sentido 
para ela era o amor.
Neil ficou dando voltas de carro durante horas. Parou para dar um telefonema ao escritrio; no tinha nimo de aparecer por l. E nem vontade de ir a Washington. 
No somente no tinha vontade de ir, como no tinha mais desejo de ganhar o contrato com o governo. No tinha vontade de fazer nada... apenas de voltar para a companhia 
de Deirdre.
Isso foi algo que ia se tornando cada vez mais claro enquanto o velocmetro do carro girava rapidamente. Deirdre era tudo que lhe interessava na vida.
Ele reviveu o encontro no Maine, as brigas, a paz que sobreveio aos poucos. Recordou-se dos meses decorridos aps o casamento e do que acontecera, tanto em sua vida 
pessoal como na profissional. Mas, acima de tudo, rememorava a cena que tivera com Deirdre naquele dia. Parecia ouvir de novo as palavras dela; ponderava-as, analisava-as.
E de repente lhe ocorreu que estivera prestes a cometer o maior erro de sua vida.
Parou o carro no meio da estrada ignorando as bzinas, deu meia volta e tomou a rota da casa.
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Eram quase dez horas da noite quando l chegou. A casa estava to escura quanto a noite, e por um segundo receou ser tarde demais. Iluminou o porto de entrada com 
os faris e viu o carro de Deirdre. Deu um suspiro de alvio, e estacionou. Entrou e chamou-a:
-  Deirdre? Deirdre! - No havia raiva em sua voz, apenas preocupao. Com o medo irracional do homem apaixonado, pensou em todas as desgraas que poderiam ter acontecido 
durante sua ausncia. Deirdre estava aborrecida. Deirdre estava grvida. - Oh, Deus...!
Subiu os degraus da escada de dois em dois e procurou-a por todos os quartos. Nada. Parou ento e pensou. Rezando para que estivesse certo, foi ao sto.
-- Deirdre? - Com medo ele pronunciou o nome dela enquanto acendia a luz. Depois gelou no instante em que a viu junto  janela, com a cabea para fora. Num segundo 
aproximou-se, agora apavorado.
Carregou-a, massageou-lhe as faces e enxugou as lgrimas que ainda escorriam. Mas a cor dela era boa e estava quente.
-  Deirdre? Acorde, amor. Preciso lhe dizer uma coisa. - Ele ajeitou-lhe os cabelos, beijou-a e afagou-lhe o rosto com ambas as mos. - Deirdre?
Ela abriu os olhos e, desorientada, fitou Neil durante um minuto, parecendo hipnotizada. Em seguida arregalou os olhos e sussurrou:
-  Voc voltou!
-  Voltei. - Neil sorriu.
-  O que... o que aconteceu com Washington?
-  Washington no  importante. - Mas, o contrato...
-  O contrato no  importante.
-  Voc queria tanto...
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- No tanto como quero voc. - Quando os olhos dela encheram-se de espanto, Neil continuou: - Andei de carro por horas refletindo sobre mil coisas e no que voc 
disse. A me dei conta de que eu agira muito erradamente. Supus que voc queria terminar com nosso casamento, que estava cansada de mim. Mas... e se eu tivesse entendido 
mal?, pensei. Talvez..: Por isso voltei. Posso estar errado de novo, mas o risco vale a pena. - Ainda nervoso, Neil prosseguiu: - Eu te amo, Deirdre. Por isso quis 
me casar com voc, em primeiro lugar. O resto que veio com o casamento foi bom, mas puramente secundrio. Desconfio que eu tenha ficado de sobreaviso, porque nunca 
soube com certeza a razo pela qual voc concordara em se casar comigo. Tive medo de perguntar, no queria saber... se voc me aceitara simplesmente por ter em vista 
uma troca, uma convenincia, ou por amor. Porm, o que me disse horas atrs me fez pensar... A angstia em seu olhar, a dvida de que eu a amasse..., a dvida de 
que eu retribusse seu amor... - Os olhos de Neil umede-ceram. - Deirdre, voc me ama?
Com lgrimas abundantes correndo pelo rosto, ela sussurrou:
-  Muito!
Foi tudo o que pde dizer, pois sua garganta fechara-se por causa da emoo. Neil suspirou, aliviado, e abraou-a com carinho.
-  Oh, Deirdre, ambos fomos to tolos. To tolos! Nunca confessamos nosso amor. Nunca pronunciamos as nicas palavras importantes num relacionamento amoroso.
Deirdre achou que iria explodir. E murmurou, fi-tando-o com paixo:
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- Eu amo voc, Neil. Eu amo voc muito! Temos tanto a usufruir numa vida em comum, e quase deixamos tudo ir por gua abaixo.
Neil beijou-a, com desespero. Mas depois gentilmente, ao se lembrar de que Deirdre no iria deix-lo.
- Quando penso no que j passei em minha vida - ele confessou -, nos riscos que corri, nas coisas que perdi, tudo me parece to pouco importante! - Neil abraou-a 
e acrescentou: - Este  o seu lugar, em meus braos. E o meu lugar  com voc.
-  Eu sei. - Deirdre murmurou, enterrando a cabea no ombro dele. O cheiro de Neil lhe era familiar e muito querido: afrodisaco nos momentos de paixo, blsamo 
calmante nas necessidades emocionais. Ela respirou fundo e um sorriso enfeitou-lhe o rosto. De sbito o sorriso sumiu sendo substitudo por uma expresso de horror. 
- Neil! O jantar com nossos amigos! Eles j devem estar no restaurante!
- No se preocupe, querida. Telefonei para minha secretria e lhe pedi que os avisasse que no poderamos comparecer. Jantaremos juntos em qualquer outra ocasio.
Deirdre torceu o nariz.
-  No gosto dos Emery - disse. - Ele  arrogante e ela tem mau hlito. - Neil riu muito. - E, quanto a Donald Lutz, est sempre procurando, nos restaurantes, por 
pessoas importantes para cumpriment-las. A mulher dele no para de estender a mo para que todos vejam seu anel de esmeralda. E os Spellman so...
Rindo ainda, Neil tapou-lhe a boca com a mo.
-  So clientes importantes, Deirdre. De vez em quando precisamos sacrificar nossas preferncias pessoais pelo bem da corporao.
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-  Falando em corporao, Neil, quero lhe dizer que tenho absoluta confiana em voc. Tudo o que fez pela Joyce Empreendimentos foi excelente. E sou a favor do contrato 
com o governo.
-  Por sinal, no quis faz-lo s por causa da Wittnauer-Douglass, Deirdre. Quando apresentei a oferta ao governo, eu nem mesmo sabia que a Wit-tnauer seria nossa 
competidora.
-  Foi o que eu disse a mame. Ela  mesmo uma causadora de problemas. Voc percebeu isso? Minha me nunca deixou de ser assim, e eu nunca notei porque assumi que 
ela estava sempre certa. Achei que a errada era eu. Agora vejo tudo com outros olhos. Por exemplo, mame esteve errada sobre ns o tempo todo. Vitria comentou o 
fato, cen-surando-a. Mame  uma dessas pessoas que jamais est satisfeita. Talvez seja um pouco tarde para lamentar agora, mas tenho pena de meu pai. No admira 
ele ter posto grande parte de sua energia nos negcios. Fugia da esposa, garanto.
Aps ouvir sua prpria avaliao dos pais, Deirdre fez uma pausa. Sua confiana em Neil estremeceu nas bases.
- Voc pretende fazer o mesmo? - ela perguntou ao marido, assustada. - Foge de mim? Por isso passa tanto tempo no escritrio, ou pensa nos negcios quando est em 
casa?
-  Durante grande parte do tempo em que estou no escritrio penso em voc, Deirdre. Tentava lhe dar prazer com meu trabalho. Achei que, se no pudesse conquistar 
seu corao, ao menos conquistaria seu respeito.
- Voc teve meu respeito desde o incio. Admiro o que fez nos negcios. Mas quero mais de seu tempo, 218


O MUNDO NOS SEPARA
Neil! Quero fazer coisas com voc. Quero almoar com voc, almoos romnticos. Quero jogar tnis com voc, sair nos fins de semana...
-  Creio que posso pensar no caso.
-  E quero ir a Washington com voc. Vamos? - No!
-  Por que no, Neil?
-  Porque no vou mais.
-  No vai? - indagou Deirdre, surpreendida.
-  No. Ben foi em meu lugar.
- Mas voc  melhor para esse tipo de trabalho. Sabe disso, e eu sei tambm.
-  Mas est havendo um conflito de interesses, Deirdre.
- No acredito! Tudo o que falei foi num momento de raiva. Do contrrio, no teria sugerido nada daquilo, que queria estar mais com voc e...
-  Agora  voc que est sendo diplomtica - Neil caoou.
-  No, no estou.
Ele ficou subitamente srio.
-  Pensei muito sobre nossa situao enquanto rodava pela cidade. No, como j lhe disse, eu no sabia que iramos competir com a Wittnauer-Dou-glass para a obteno 
daquele contrato, mas preciso confessar que, quando descobri, senti imenso prazer. Ns poderemos no conseguir nada. As ofertas ao governo esto seladas, e no tenho 
meios de saber quem ofereceu mais dinheiro ou mais vantagens. O contrato pode ficar com a Wittnauer-Douglass ou com qualquer outra firma candidata. Mas tenho enorme 
satisfao em saber que a Joyce Empreendimentos teve capacidade para entrar nesse jogo,

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como a Wittnauer-Douglass ou outras corporaes de renome.
-  Mas no h nada de errado em...
-  O caso , Deirdre, que j me vinguei.
- J se vingou, Neil, porm atravs de trabalho honesto e talentoso. No seria qualquer pessoa capaz de fazer o que voc fez. A Joyce Empreendimentos teve um progresso 
impressionante, voc levou-a para a frente. Se no quer receber os crditos, eu os recebo em seu lugar.
-  Verdade? - Neil indagou.
-  Pura verdade. - Ela pensou por alguns segundos. - Que acha de voltar  sua profisso de advogado? No sente falta em sua antiga atividade?
-  Venho praticando a advocacia na Joyce, mas com grande quantidade de outras obrigaes. Acho que est na hora de Ben e eu dividirmos as tarefas. Ele  bom advogado 
e eu prefiro manter minha posio de poder, porque gostei de determinar o que vamos fazer e quando. No tenho necessidade de usar um ttulo e no quero continuar 
com todas as responsabilidades que tenho agora. - Ele fez uma pausa. - E voc? No est dando aulas e era o que desejava ,, tanto fazer. No sente falta em sua antiga 
atividade?  I
- No - Deirdre respondeu firmemente. - Tal- | vez eu tenha amadurecido ou talvez minha necessidade de dar aulas tenha desaparecido. Trabalhar com voc  bem mais 
interessante do que lecionar.
Neil abraou-a e sugeriu:
- Tudo aquilo que voc mencionou antes, as coisas que podamos fazer juntos, eu tambm quero, Deirdre. Por sinal, nunca tivemos uma lua-de-mel.
-  Tivemos antes de nos casar - ela comentou.
- Mas quero outra. Uma verdadeira lua-de-mel. 220
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Um chal luxuoso  beira-mar, num lugar quente, muito champanhe, sol, horas deitados na praia, criados nos servindo o tempo todo, de sorte que no precisemos fazer 
nada.
- E onde foi parar o homem que podia fazer tudo sozinho? - Deirdre lanou-lhe um olhar malicioso.
-  Esse homem deseja concentrar-se apenas em sua esposa. E isso por acaso um crime?
-  O advogado  voc. Diga-me se  ou no um crime. Responda-me.
Ele nunca respondeu. Em vez disso, beijou-a com tanta convico que no se importaria a mnima se desobedecessem todas as leis do mundo.
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BARBARA DELINSKY nasceu e foi criada num subrbio de Boston. Trabalhou como pesquisadora, fotgrafa e reprter antes de se tornar escritora, isso no ano de 1980. 
Com mais de cinqenta novelas de sua autoria,  na verdade uma das mais brilhantes escritoras contemporneas de romances de fico. Essa talentosa autora recebeu 
numerosos prmios e seus livros esto regularmente nas listas dos bestsellers. Com mais de doze mil exemplares j espalhados pelo mundo, Barbara tem na verdade aceitao 
universal.
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